Quanto tempo ainda temos para entrar, de fato, no jogo global da inovação? A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) 2024–2034 vocaliza o senso de urgência, ao estabelecer a meta de levar o investimento brasileiro em pesquisa e desenvolvimento a 2% do PIB. Enquanto isso, países que conseguiram lançar tecnologias que disputam mercados, reorganizam indústrias e ampliam seu poder geopolítico investem mais que o dobro que o Brasil, como é o caso da China, com 2,6% do PIB dedicados à inovação.
Temos nosso próprio tempo. Mas, nunca é tarde para perguntar: qual o verdadeiro custo desse descompasso? Uma descoberta científica pode levar anos até se transformar em um produto. Nesse percurso, precisa de pesquisa, testes, validação, capital e gente qualificada. Dependendo da tecnologia, precisa também atravessar processos regulatórios antes de chegar ao primeiro cliente.
O mandato presidencial dura quatro anos. O orçamento é disputado anualmente. Já a oportunidade de mercado segue um calendário que o Brasil não controla. A curva de desenvolvimento de tecnologias intensivas em conhecimento não cabe num mandato político. E é no desencontro desses tempos que parte do nosso potencial de inovação pode se perder.
Quando um projeto fica à espera de financiamento, a consequência pode ir além de adiar uma entrega. A equipe se dispersa, o dinheiro disponível acaba, um parceiro desiste. Um concorrente chega antes ao comprador. Retomar o investimento mais adiante pode permitir que a pesquisa continue, mas não garante que a oportunidade comercial permaneça a mesma.
Por isso, a proximidade de uma eleição presidencial deveria nos levar a fazer perguntas mais exigentes sobre inovação. Que projetos precisam atravessar o próximo mandato? Quais compromissos terão recursos, responsáveis e acompanhamento público? Como garantir continuidade sem abrir mão de avaliar resultados e corrigir o que não funciona?
Prometer investimento é apenas o começo dessa conversa. A própria ENCTI reconhece que alcançar os 2% exige ampliar o investimento empresarial, além de assegurar recursos públicos. A execução depende de coordenação entre universidades, institutos de pesquisa, empresas, agências de fomento e compradores. É preciso que o esforço de uma etapa encontre condições para avançar na seguinte.
Para uma deep tech, isso é bastante concreto. Financiar a pesquisa resolve uma parte do caminho. A startup ainda precisa demonstrar que a tecnologia funciona fora do laboratório, produzir em condições comerciais e convencer alguém a adotá-la. Cada passagem tem riscos, custos e prazos diferentes.
Temos uma base expressiva de empresas tentando fazer esse percurso. O Deep Tech Radar Latam 2026, produzido pela Emerge em parceria com o Cubo Itaú, identificou 1.746 deep techs em 12 países. O Brasil reúne 1.269 delas, 72,7% das empresas mapeadas, com presença destacada em agro, alimentos, saúde e bem-estar.
Esse dado merece atenção pelo que revela e pelo que ainda não responde. Há ciência sendo transformada em empreendimentos. Quantos conseguirão chegar ao mercado, crescer e manter no país parte relevante do valor que geram?
É aqui que a discussão sobre orçamento encontra a estratégia de desenvolvimento. Recursos escassos tornam a escolha de prioridades mais necessária. E exigem clareza sobre o custo de interromper uma trajetória na qual já investimos anos de formação, pesquisa e trabalho.
O sinal que me preocupa é a distância entre o horizonte que aparece nos documentos e o prazo com que as instituições conseguem se comprometer na prática. Podemos planejar uma década inteira e continuar obrigando quem desenvolve tecnologia a negociar sua sobrevivência ano a ano.
Sempre que penso nesse dilema entre tempo e oportunidade, me lembro de Kairós. Representado com asas nos pés, uma mecha de cabelo na testa e a parte de trás da cabeça careca, ele personifica o momento oportuno. A imagem tem uma lógica: é possível agarrar a oportunidade quando ela chega. Depois que passa, já não há onde segurá-la.
O Brasil tem empresas, pesquisadores e tecnologias em desenvolvimento. Há oportunidades que ainda podemos aproveitar. Mas, entre a descoberta e o mercado, precisamos sustentar escolhas por mais tempo do que dura uma campanha.
2034 é o horizonte da estratégia. Para quem tenta colocar uma tecnologia brasileira no mundo, as decisões que podem tornar esse futuro possível vencem muito antes.
Fonte Oficial: https://startupi.com.br/brasil-entre-o-tempo-da-inovacao-e-o-da-oportunidade-que-lugar-ocuparemos-no-futuro/