Quando alguém descobre que tenho uma coleção com quase 50 rótulos diferentes de The Macallan, normalmente associa isso imediatamente a dinheiro, luxo ou ostentação. Talvez porque algumas garrafas da marca tenham alcançado valores milionários em leilões e apareçam com frequência cercadas por esse imaginário de riqueza.
A marca Macallan se tornou mais conhecida do grande público por sua presença no cinema e na televisão. Se antes aparecia de maneira mais discreta, como uma escolha reconhecida principalmente por conhecedores de whisky, com o tempo passou a ser usada nas telas como símbolo de poder, sofisticação e sucesso. A associação mais emblemática aconteceu com James Bond, especialmente em Skyfall, de 2012, quando uma Macallan 1962 Fine & Rare foi escolhida. A marca também apareceu em produções como Spectre e ganhou visibilidade em séries como Suits, associada ao universo do advogado Harvey Specter e às celebrações de grandes conquistas. Essa presença ajudou a consolidar no imaginário popular a ideia de que Macallan é o “Whisky dos poderosos”, uma percepção que explica parte da associação imediata entre a marca, riqueza e ostentação, mas que está longe de contar toda a sua história.
Mas NÃO foi isso que me fez começar a minha coleção de Macallans.
Recentemente, meu filho Theo recebeu alguns YouTubers conhecidos em casa e, durante a visita, minha coleção particular e muito reservada acabou sendo mostrada publicamente. Alguns comentários imediatamente relacionaram as garrafas à ideia de “bilionário”. Somaram-se a isso notícias e conversas recentes envolvendo figuras públicas, festas reservadas e riqueza.
Ou seja, aquilo que sempre mantive de forma reservada e familiar, se tornou público. Por isso, resolvi escrever este texto: para desmistificar o assunto e explicar que minha coleção não nasceu para exibir qualquer tipo de riqueza, mas do meu interesse pela história, pela raridade e pela diversidade dos rótulos da Macallan.
Eu sou apreciador de whisky e também colecionador. E existe uma diferença entre essas duas coisas. Tenho as garrafas que compro para abrir, servir, experimentar e compartilhar com amigos. E tenho aquelas que fazem parte da coleção. Elas ficam separadas em prateleiras porque representam uma edição, uma série, um momento da destilaria ou simplesmente um rótulo que eu ainda não havia encontrado.
O que procuro não é necessariamente o rótulo mais caro. Procuro o rótulo diferente.
Não vou falar aqui sobre preços ou sobre quanto custa cada garrafa, porque esse não é o propósito da minha coleção e nem deste texto. Uma garrafa pode custar mil reais, mil dólares, 10 mil dólares ou muito mais. O valor financeiro nunca foi o meu principal critério. O que me interessa é a raridade, a história daquela edição e o lugar que ela ocupa dentro da coleção. Às vezes, uma garrafa menos valiosa comercialmente pode ser muito mais interessante para mim porque foi lançada em determinado país, pertence a uma série especial, tem uma embalagem diferente ou é difícil de encontrar.
É mais ou menos como acontece com quem coleciona selos, moedas, relógios, livros antigos, obras de arte ou camisas de futebol. O interesse não está apenas no preço da peça, mas na história que ela carrega e na dificuldade de encontrá-la. Quem olha de fora vê uma garrafa. Quem coleciona vê origem, contexto, tempo, edição, sequência e memória.
The Macallan tem mais de 200 anos de história e construiu uma identidade muito particular no universo do single malt escocês. A destilaria ficou conhecida, entre outras coisas, pelo cuidado com a madeira e pelo uso de barris de carvalho temperados com vinho de Jerez. Os barris não funcionam apenas como recipientes para armazenar o uísque. Eles participam diretamente da construção de sua cor, de seus aromas e de seu sabor.
A marca possui linhas mais conhecidas, como Sherry Oak e Double Cask, além de expressões que passaram por diferentes combinações de barris. Há também coleções destinadas ao mercado de viagem, vendidas principalmente em aeroportos e duty-free, como a Colour Collection, com diferentes idades e características.
Mas é quando entramos nas edições limitadas e comemorativas que o universo da Macallan se torna ainda mais interessante para um colecionador.
Ao longo de sua história, a destilaria lançou centenas de expressões diferentes. Existem séries numeradas, edições anuais, garrafas inspiradas em antigas campanhas publicitárias, parcerias com artistas, chefs, restaurantes e marcas de cristal, além de coleções que celebram temas específicos. A Edition Series, por exemplo, reuniu seis lançamentos, numerados de 1 a 6, cada um com identidade, composição e proposta próprias. A Harmony Collection explora conceitos, ingredientes de inspiração, colaborações e embalagens diferentes. A Archival Series, conhecida pelos Folios, recupera peças históricas da comunicação da marca. Há ainda a Fine & Rare Collection, formada por safras que atravessam décadas da história da destilaria.
Isso sem falar nas colaborações com a Lalique, nas coleções relacionadas a James Bond e nos lançamentos desenvolvidos para mercados, viagens ou ocasiões específicas. Como novas edições continuam surgindo, a coleção nunca parece realmente concluída. E essa é uma das partes mais interessantes de colecionar.
Não existe um número oficial e definitivo de rótulos da Macallan, porque essa contagem depende do critério adotado. Podemos considerar apenas os lançamentos oficiais da destilaria ou incluir safras, anos de engarrafamento, graduações alcoólicas, volumes, embalagens, mercados de destino, importadores, private bottlings, single casks e engarrafamentos independentes. Mesmo considerando somente as edições históricas, limitadas e comemorativas lançadas oficialmente pela marca, estamos falando de centenas de expressões distintas.
Quando a nova destilaria foi inaugurada, em 2018, uma instalação interativa passou a apresentar 840 garrafas do acervo histórico da Macallan, cobrindo um período que vai da era vitoriana aos lançamentos contemporâneos daquela época. Cada exemplar possui um arquivo digital próprio, com imagens em 360 graus, especificações e conteúdos em vídeo. Esse número, entretanto, corresponde a uma seleção feita pela própria destilaria e não representa todo o universo de rótulos e versões já lançados.
Fonte Oficial: https://startupi.com.br/eu-coleciono-macallan-nao-ostentacao/