Existem mapas que indicam nossa localização. Existem mapas que nos mostram a nossa identidade. Mas, o que foi aprovado pela Assembleia Geral da ONU na última sexta-feira (4), com 164 votos a favor e apenas um contra, dos Estados Unidos, é uma dessas raras deliberações que cruzam o técnico e o simbólico. A resolução sugere a utilização da projeção Equal Earth, que é um modelo de representação da Terra, em substituição à projeção de Mercator, que é utilizada desde o século XVI e que privou a África e à América do Sul das proporções que lhes foram negadas pelo colonialismo cartográfico.
Em termos práticos, o mapa varia consideravelmente. Na projeção de Mercator, que foi desenvolvida para a navegação, a Groenlândia e a África aparecem com o mesmo tamanho, apesar da África ser 14 vezes maior. O Brasil, que é cinco vezes maior que o Alasca, é apresentado na mesma proporção que o estado americano. Com a Equal Earth, essas distorções são eliminadas: o continente africano adquire seu tamanho real, e o Brasil “cresce” no papel, refletindo a área que sempre teve . A mudança, que foi patrocinada pelo Togo e teve o respaldo da União Africana, é uma correção de um erro de contagem que, por séculos, moldou as percepções de poder e importância no cenário mundial.
A única objeção veio dos Estados Unidos, que afirmaram que a resolução promove “uma agenda ideológica” e desvia a ONU de questões mais urgentes . A representante dos Estados Unidos, Yaryna Ferencevych, fez críticas ao que se referiu como “justiça cognitiva” e reparações históricas. Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia, seis nações ao todo, se abstiveram. A Ucrânia, por sua vez, se absteve de votar e justificou sua posição pela forma como o mapa apresenta partes de seu território sob ocupação russa . O ato realizado pelos Estados Unidos, no entanto, resultou em um isolamento diplomático de Washington e evidenciou uma realidade: até mesmo algo que parece neutro, como um mapa-múndi, possui um significado político significativo.
Aqui no Brasil, o IBGE já oferece o mapa em sua loja digital. Aliás, lá está uma série de mapas-múndi, todos inéditos, produzidos entre 2024 e 2026 e todos com a projeção Equal Earth . A série teve início em 2024, com o Brasil no centro, rompendo com a perspectiva eurocêntrica; em 2025, inverteu o Norte e o Sul, colocando o Hemisfério Sul na parte superior; e em 2026, passou a incluir dados sobre a biodiversidade no mundo.
“Adotando a Equal Earth, centralizando o Brasil e experimentando a inversão da orientação convencional, o Instituto passou a explicitar que toda representação cartográfica resulta de escolhas técnicas e convencionais”, afirmou o presidente do IBGE, Marcio Pochmann. A diretora de Geociências, Maria do Carmo Bueno, enfatiza que a aprovação da ONU legitima a busca por “mais equilíbrio e justiça na forma de mapear o nosso planeta” .
A resolução da ONU não tem caráter obrigatório, ou seja, não impõe a países ou a plataformas como o Google Maps a necessidade de atualizar seus mapas imediatamente. Possui, no entanto, uma sólida força moral e política. Por exemplo, a França já anunciou que não usará mais a projeção de Mercator em seu Ministério das Relações Exteriores . O movimento da União Africana, que já vinha anos com a campanha “Correct The Map”, agora recebe um apoio sem precedentes. Como mencionou a vice-presidente da Comissão da União Africana, o que está em jogo é que “pode parecer apenas um mapa, mas na verdade não é”.
Em última análise, o novo mapa-múndi nos alerta para uma questão crucial: o modo como representamos o mundo é um reflexo de como optamos por percebê-lo. Durante séculos, observamos um planeta distorcido, no qual o Norte era retratado como vasto e o Sul, como diminuto; onde Europa e América do Norte se situavam no centro simbólico, enquanto África e América do Sul eram representadas de forma reduzida.
Agora, através da Equal Earth, o lar que habitamos começa a ser revelado em sua verdadeira essência. Ainda que os Estados Unidos não aceitem essa versão, o restante do mundo já está prestando atenção nele, assim como o Brasil. Ou pelo menos deveria.
Fonte Oficial: https://startupi.com.br/novo-mapa-mundi-onu-equal-earth-ibge-2026/