Nunca tivemos tantas ferramentas para nos comunicar e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil estabelecer uma conversa de verdade.
Scripts, automações, gatilhos, técnicas de persuasão, inteligência artificial. Tudo isso pode melhorar um processo comercial. O problema começa quando o processo fica tão eficiente que esquecemos que existe uma pessoa do outro lado.
O olho no olho não desapareceu. Talvez tenha ficado até mais valioso.
E quando falo em olho no olho, não estou falando apenas de estar fisicamente na frente de alguém. Estou falando de humanização, empatia e realidade. De entender que por trás de um cargo, de um e-mail, de um número de WhatsApp ou de um perfil no LinkedIn existe uma pessoa.
Tenho observado isso cada vez mais no mundo dos negócios.
Criamos scripts para abordar melhor. Gatilhos para aumentar conversão. Automações para ganhar escala. CRMs para organizar relacionamentos. Técnicas para negociar. Inteligência artificial para produzir mais e melhor.
Tudo isso é evolução. Eu uso. Estudo. Aprendo. E pretendo usar cada vez mais.
A questão não é essa.
A questão é: em que momento a ferramenta deixou de ajudar a conversa e começou a tentar substituir quem conversa?
Talvez estejamos chegando a um ponto curioso. Quanto mais as empresas buscam personalização, mais as pessoas percebem quando estão recebendo algo que foi feito para todo mundo.
Você recebe uma mensagem com seu nome, mas percebe que ela poderia ter sido enviada para outras 500 pessoas.
Atende uma ligação e escuta alguém seguindo um roteiro independentemente do que você responde.
Recebe um e-mail “personalizado” que, na terceira linha, deixa claro que ninguém parou dois minutos para entender o que sua empresa faz.
E aí acontece algo que considero ainda pior: as boas ferramentas começam a pagar o preço pelo mau uso delas.
A ligação comercial é um bom exemplo. Durante anos, ligações automáticas, telemarketing excessivo, cobranças e chamadas sem contexto foram desgastando a confiança nesse canal. Hoje, muita gente simplesmente não atende um número desconhecido.
Não foi o telefone que ficou ruim.
Nós usamos mal o telefone.
E talvez estejamos fazendo a mesma coisa com WhatsApp, LinkedIn, e-mail e, agora, com a inteligência artificial.
Técnica não substitui percepção
Eu acredito em processo comercial. Acredito em método. Acredito em estudar negociação, comunicação e persuasão.
Mas nenhuma técnica deveria retirar uma capacidade básica de quem trabalha com pessoas: perceber o outro.
Às vezes, a melhor estratégia comercial é fazer mais uma pergunta.
Às vezes, é não mandar o segundo follow-up no dia seguinte.
Às vezes, alguém diz que não é responsável por aquela categoria e, em vez de insistir, basta perguntar: “Quem cuida dessa área? Você poderia me direcionar?”
Às vezes, um “não” rápido, educado e verdadeiro vale mais do que semanas de silêncio.
E, às vezes, vale sair de trás da tela, entrar em uma empresa, conhecer uma operação, olhar um produto, apertar uma mão e conversar.
Isso também é estratégia comercial.
Só que não cabe tão facilmente em um script.
Este artigo, inclusive, tem inteligência artificial
Seria contraditório escrever sobre humanização e tecnologia escondendo uma coisa: utilizei inteligência artificial para me ajudar a construir este texto.
As ideias vieram das minhas experiências, observações e daquilo em que acredito. Eu trouxe o assunto, argumentei, discordei, cortei, acrescentei e organizei o raciocínio com o auxílio da ferramenta.
E acho que isso ajuda a explicar exatamente o meu ponto.
Não precisamos escolher entre tecnologia e pessoas.
Precisamos entender qual é o lugar de cada uma.
A inteligência artificial pode me ajudar a organizar uma ideia. Não deveria criar minhas convicções por mim.
Um script pode me ajudar a iniciar uma conversa. Não deveria conversar por mim.
Um CRM pode organizar meus relacionamentos. Não consegue construí-los por mim.
Uma técnica de persuasão pode melhorar minha comunicação. Não deveria transformar uma relação comercial em manipulação.
No final, todas essas ferramentas continuam dependendo de algo muito antigo:
confiança.
Talvez o diferencial esteja justamente no básico
Bom dia.
Obrigado.
Não sei.
Vou verificar.
Você pode me explicar melhor?
Não é minha área, mas vou tentar te direcionar.
Recebi sua proposta e, neste momento, não faz sentido para nós.
Coisas simples.
Só que em um ambiente cada vez mais acelerado, automatizado e preocupado em converter, o básico começa a parecer extraordinário.
Por isso acredito que o olho no olho continua sendo uma vantagem competitiva.
Não porque devemos voltar ao passado.
Muito pelo contrário.
Devemos utilizar tudo aquilo que a evolução nos oferece. Inteligência artificial, dados, automação, processos e tecnologia podem tornar empresas extraordinariamente melhores.
Mas evolução tecnológica sem evolução humana não resolve o problema. Apenas o executa mais rápido e em maior escala.
Talvez o futuro dos negócios não seja escolher entre tecnologia e relacionamento.
Talvez seja dominar a tecnologia sem permitir que ela nos faça esquecer quem está do outro lado.
Porque empresas negociam com empresas.
Mas quem decide, confia, compra, vende, indica e constrói relações ainda são pessoas.
Fonte Oficial: https://www.contabeis.com.br/artigos/78954/ia-nos-negocios-humanizacao-e-o-valor-do-olho-no-olho/