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A classe média que segura o Brasil

Há um dado que passa despercebido nos relatórios de conjuntura de abril de 2026, encoberto pelo barulho da guerra no Oriente Médio e da taxa Selic em 14,75%. O setor de Serviços, o que mais emprega e mais traduz o estado real do cotidiano brasileiro, foi o único componente positivo do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) em fevereiro. Uma alta de 0,99% em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

O acumulado de 12 meses dos Serviços no IBC-Br recuou de 3,84%, em março de 2025, para 1,91%, em fevereiro de 2026, quase exatamente a metade em 12 meses. O setor não entrou em colapso, mas está claramente perdendo fôlego. E o que sustenta os Serviços no Brasil é o consumo das famílias — a classe média urbana, assalariada, que vai ao restaurante, paga a mensalidade da academia, faz a viagem doméstica nas férias. É essa demanda difusa e cotidiana que está segurando a economia, enquanto a Indústria patina e o campo perde a base de comparação favorável que vigorou ao longo do ano passado.

O mercado de trabalho surpreendeu positivamente em 2025 e no início de 2026. A massa salarial real cresceu, o crédito consignado continuou fluindo (mesmo com a Selic nas alturas) e os rendimentos das famílias seguiram em trajetória positiva. Essa é, ao mesmo tempo, uma boa notícia conjuntural e um sinal de alerta estrutural, porque significa que a política monetária não conseguiu desacelerar o consumo o suficiente para ancorar a inflação dos Serviços, que segue como o componente mais resistente do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

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É nesse ponto que reside a grande preocupação. O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve os juros em 15% por cinco reuniões seguidas, exatamente porque a demanda interna não cedia. Quando finalmente iniciou o ciclo de cortes em março, o comunicado reconheceu que a desaceleração reflete “a transmissão da política monetária”. Traduzindo: o Banco Central (BC) sabe que os juros altos já causaram danos.

A Indústria acumula variação interanual negativa em janeiro e fevereiro, com o acumulado de 12 meses no piso da série recente, em 0,77%. A Agropecuária, que mascarou a fragilidade do restante da economia ao longo de 2025, com expansões superiores a 20% na base anual, perdeu esse impulso e entrou em território negativo em fevereiro. O que sobrou de positivo foram os Serviços e a renda das famílias que alimentam o setor.

O risco em 2026 não é de uma ruptura, mas de um desmonte gradual dessa base, que pode vir por três vias alternativas — a inadimplência, que cresce à medida que o endividamento acumulado começa a aparecer nas carteiras dos bancos; o emprego, que perde ritmo quando a Indústria se contrai de forma persistente; e a inflação dos Serviços, que corrói o poder de compra real mesmo quando o salário nominal cresce. O ciclo de cortes da Selic, iniciado agora, produzirá efeitos reais sobre o crédito e o consumo só daqui a dois ou três trimestres, tempo suficiente para que os sinais de fragilidade agravem-se antes que o alívio chegue. Além disso, o cenário geopolítico deve diminuir o espaço para a flexibilização monetária.

Há uma ironia cruel no arranjo atual. A classe média que sustenta os Serviços é a mesma que mais sofre com juros altos no financiamento da casa, do carro, do negócio próprio. Ela resiste, mas a resistência tem preço, o qual está sendo cobrado em parcelas. O dado do setor no IBC-Br de fevereiro já mostra enfraquecimento. Quando esse número cruzar o zero, não haverá outra camada de resistência. A Agropecuária já capitulou. A Indústria está em retração. Os Serviços estão desacelerando. O Brasil depende de uma única peça para não travar. E essa peça está começando a ranger. Sem ajuste fiscal e reformas, ficaremos reféns de um sobe e desce inconsistente.



Fonte Oficial: https://www.contabeis.com.br/artigos/76374/a-classe-media-que-segura-o-brasil/

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