Grupo de artesãos de flores de Piedade dos Gerais, coordenado por Luciani Amorim, vende toda a produção do ano por meio da feira (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press -27/11/14)

Porta de entrada da arte popular de Minas Gerais e de outros estados no varejo brasileiro e no exterior, a tradicional Feira Nacional de Artesanato (FNA) completa 30 anos nesta semana, com marco que ultrapassa R$ 1,2 bilhão em vendas diretas feitas pelos artesãos. A cifra ganha expressão quando comparada ao modesto valor de toda a produção de bens e serviços, medida pelo PIB, de duas pequenas cidades mineiras, embora reconhecidas pela formação de mestres na atividade. Itaobim e Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, estão entre os municípios pobres do estado, com PIBs de R$ 260,3 milhões e R$ 712 milhões, respectivamente, apurados em 2016, último dado disponibilizado pela Fundação João Pinheiro, de Belo Horizonte.

 

Itaobim se tornou referência no artesanato em barro da região do Jequitinhonha, que, no ano passado, foi eleito patrimônio imaterial de Minas, registro de saberes, ofício e expressões artísticas. Dossiê conduzido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) cadastrou, à época, 122 pessoas dedicadas à arte em 12 municípios do vale, incluídas as cidades de Turmalina, Minas Novas, Ponto dos Volantes, Caraí, Itinga e Araçuaí.

 

Em três décadas, a FNA retrata a evolução do artesanato, histórias de dedicação e luta desses artistas carentes de incentivo. Considerada a maior exposição da América Latina em representatividade dos participantes no setor ao qual pertencem, a feira deixou a condição inicial de uma singela mostra de 200 expositores com 60 estandes no antigo Minascentro, em 1989. Era um período conturbado da economia brasileira e véspera do polêmico Plano Collor de Mello, lançado no ano seguinte para tentar debelar a inflação.

 

Agora, a FNA repete, desta terça-feira a domingo, a estrutura grandiosa montada desde 2004 no centro de convenções Expominas, com a participação de 5,2 mil artesãos de 24 estados e 1,2 mil estandes, de acordo com o Instituto Centro Cape, responsável pelo evento, e braço do Mãos de Minas, maior central de cooperativas de artesãos de Minas. Esses artistas populares também não poderiam ser os mesmos do início dos anos 90: a predominância das mulheres permanece – elas são cerca de 75% do universo da atividade no país –, mas hoje o perfil dos artesãos é diferente. Mais da metade estão na maturidade, acima de 50 anos, e se formou no ensino superior, segundo pesquisa contratada pelo Instituto Centro Cape.

Vitrine Protagonistas do histórico dos últimos 20 anos da feira, as artesãs e artesãos de flores em tecido de chitão, malha e retalhos de Piedade dos Gerais, distante 100 quilômetros de BH, não teriam seu trabalho conhecido e demandado sem a oportunidade de divulgar as peças miúdas e delicadas durante esse tempo. Coordenadora do grupo, batizado de Gente Nossa, Luciani Ribeiro de Amorim conta que as flores artesanais são vendidas, hoje, tanto em Minas quanto no Rio de Janeiro, São Paulo e até em Pernambuco e Rio Grande do Norte.

 

“Tudo o que vendemos durante o ano é consequência das encomendas feitas durante a feira. Quando levamos as nossas flores pela primeira vez para a exposição e conferimos as vendas realizadas foi uma grande satisfação”, afirma. Os recursos do grupo são tão escassos que não permitem a participação em outras feiras além da FNA.

 

São 18 mulheres e dois homens, parte deles da mesma família, que vão trazer à capital mineira, nesta semana, ao redor de 10 mil flores de 15 modelos. A atividade garante renda complementar e emprego para adulto e jovens de Piedade dos Gerais, que se reúnem toda semana no sítio em que vive Luciani Amorim. Para a edição deste ano da FNA, o grupo obteve assistência financeira da prefeitura local, que vai pagar o transporte dos produtos até a capital mineira.

 

Outro veterano das edições da FNA, que participou da feira por 15 anos, Elvis Pereira Gomes concorda que feiras em locais públicos são instrumentos praticamente únicos de venda direta dos artesãos. “Julga-se ainda no Brasil que o artesão é um artista menor. Nas feiras, ele não só torna seu produto conhecido como é valorizado. E a Feira Nacional de Artesanato cumpre esse papel”, afirma.

O artesão de BH tornou-se reconhecido pela produção de esculturas e mosaicos retratando pontos turísticos da capital, a exemplo da Igreja São Francisco, a chamada Igrejinha da Pampulha, e o Mineirão. Foi participando de uma feira, em São Paulo, que Elvis conquistou o  carro-chefe das vendas do trabalho dele, contrato firmado com a congregação responsável pelo Santuário Nossa Senhora Aparecida. Elvis abastece a loja de lembranças mantida pela catedral com oratórios, mosaicos, e peças decoradas pela pomba que representa o Divino Espírito Santo.

 

SERVIÇO

• 30ª Feira Nacional de Artesanato

• Data: de terça-feira a domingo

l• Local: centro de convenções 

Expominas

• Ingressos: R$ 15, com devolução de R$ 5 na forma de vale-compra 

nos estandes

• Menores de 12 anos e maiores de 60 não pagam

Ofício de profissionais

Profissionalismo, evolução dos processos de produção, e acesso a mercados de consumo, apesar da ainda modesta fatia das exportações do artesanato brasileiro, podem ser considerados os maiores avanços que a Feira Nacional de Artesanato (FNA) retratou e ajudou a impulsionar em 30 anos. A avaliação é de Tânia Machado, presidente do Instituto Centro Cape, que vê grande dificuldade hoje para os artesãos comercializarem os seus produtos, diante da falta de estímulo à atividade e do custo alto da logística no Brasil.

 

“Os artesãos se profissionalizaram demais, entendendo que não são um projeto social e têm de ficar firmes no mercado consumidor”, afirma. Exportar tem sido uma batalha. Com o fim do apoio da Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos (Apex), as vendas externas do artesanato feito no país enco- lheram. De janeiro a novembro deste ano, a Central Mãos de Minas embarcou o equivalente a R$ 236,8 mil, ao passo que essa operação já havia alcançado a casa do milhão de reais.

 

Em Minas, cerca de meio milhão de pessoas trabalham nesse ofício. Estima-se que a atividade movimente R$ 6 bilhões por ano no estado. No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há  8,5 milhões de pessoas trabalhando na arte popular. Mais de um terço dos artesãos trabalha sozinho, mas a capilaridade do ofício também é grande. Há estimativas de que cada artesão demande a colaboração de outras cinco pessoas.

 

A presidente do Instituto Centro Cape destaca que a edição deste ano da FNA vai homenagear e divulgar 30 cidades onde a atividade representa fonte de sustentação de emprego e renda, das quais 14 estão localizadas no Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha. Durante os seis dias da exposição, são esperados 140 mil visitantes. O público terá à disposição desde utilitários e objetos de decoração de variados preços a peças de coleção avaliadas em R$ 20 mil. O cálculo da receita proporcionada em 30 anos de edição da feira foi feito com base no histórico da movimentação financeira dos últimos 12 anos, com atualização monetária pello Banco Central. (MV)

Fonte Oficial: EM.

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