Em termos de enredo, a trajetória da inflação em 2017 foi bastante criativa, produzindo uma sequência impressionante de surpresas positivas para, no último instante, surpreender no sentido contrário. O IPCA de dezembro, de 0,44%, ficou bem acima do teto das expectativas e fez com que o índice fechado do ano chegasse a 2,95%, mais próximo do piso do intervalo de tolerância, de 3%, do que boa parte das projeções de mercado, que estavam um pouco acima de 2,8%.

Ainda assim, é claro, o Banco Central está redigindo sua carta de justificativa para o Ministério da Fazenda por ter estourado para baixo os limites de tolerância do sistema de metas – ironicamente, no mesmo dia em que se ficou sabendo que Ilan Goldfajn foi escolhido “banqueiro central do ano” pela revista britânica The Banker, do grupo Financial Times, pelo bom trabalho à frente do BC desde que assumiu em meados do ano passado.

A grande questão é saber o que significa, para a inflação e a política monetária de 2018, o IPCA de dezembro acima do teto das expectativas. Analistas entrevistados pelo Broadcast apontaram que o resultado torna mais provável que o ciclo de redução da Selic, iniciado em outubro passado, seja de fato encerrado com mais um corte, muito provavelmente de 0,25 ponto porcentual (pp), na reunião do Copom de 6 e 7 de fevereiro. Assim, nessa visão, caíram as chances de um corte adicional na reunião de 20 e 21 de março.

Já Alexandre Schwartsman, consultor e ex-diretor do BC, coloca a surpresa negativa de dezembro num enfoque um pouco diferente, em relatório divulgado esta manhã. Ponderando as múltiplas facetas do resultado, como núcleos (que subiram), difusão (que foi baixa) e inflação de serviços, ele acha que o número de dezembro foi de fato ruim, mas isto pode ser tanto um soluço sem importância (que julga mais provável, inclusive por causa do elevado hiato do produto) ou um primeiro sinal de tendência, o que seria mais preocupante. As próximas divulgações de inflação dirão, para Schwartsman.

Dessa forma, ele considera que mesmo o corte de 0,25 pp em janeiro pode ter algum grau de dependência em relação aos dados de inflação a serem divulgados até a reunião de fevereiro. E, por outro lado, se as divulgações confirmarem que dezembro foi indiscutivelmente um ponto fora da curva, Schwarstman não acha que a possibilidade de mais um corte em março esteja eliminada.

Já Carlos Macedo, economista da gestora Canepa, no Rio, comenta que “olhando em termos agregados, o melhor em termos de inflação já passou, e agora a questão é saber se os níveis atuais vão se manter”.

Em outras palavras, o espetáculo da desinflação pode ter chegado ao fim, e agora é tempo de manutenção do IPCA e das expectativas nos níveis desejáveis e ancorados em que já se encontram. A crença majoritária do mercado (de Macedo, inclusive) é de que, sim, o BC deve ser bem-sucedido nesta segunda fase, menos vistosa, mas igualmente importante, da gestão da política monetária.

Para o economista da Canepa, o panorama atual e projetável do câmbio e das commodities agrícolas parece favorável ao BC em termos de dinâmica inflacionária. E há ainda o vento a favor da inércia: com a inflação em 12 meses rodando num nível muito baixo por um período considerável, os reajustes salariais nominais têm tendido a ser baixos, mesmo quando contêm algum ganho real.

Em relação ao índice de dezembro em si, Flávio Serrano, economista-sênior do banco Haitong em São Paulo, nota que ele será de certa forma compensado por um IPCA de janeiro particularmente baixo para padrões sazonais: a estimativa do Haitong é que a bandeira verde da energia vá reduzir em 0,21 pp o índice cheio, levando-o para algo em torno de 0,3% e 0,35%. Em fevereiro os reajustes da educação farão o índice subir de novo, mas dentro de padrões normais que não mudam a paisagem inflacionária favorável do ano.

Serrano acrescenta que a inflação de alimentos em dezembro, que sazonalmente tende a ser alta, veio ainda mais elevada que as projeções (ajudando a explicar o erro das projeções), o que poderia até ser um efeito de certa cautela no sentido inverso por parte do mercado, depois de inúmeras superestimações a partir de coletas próprias ao longo do ano.

Tanto os serviços como os chamados “serviços subjacentes” (medida privilegiada pelo Banco Central e que busca retirar os componentes menos ligados à demanda agregada da economia) subiram significativamente em dezembro, embora estes últimos tenham se elevado menos que os primeiros.

Serrano, que está particularmente convicto de que o IPCA de dezembro não deve ser visto como sinal de inesperadas pressões inflacionárias, nota que o período de férias tende a aquecer toda uma gama de itens do IPCA, incluindo os serviços. Como o efeito é generalizado, pode atingir mesmo as medidas mais “filtradas”, como a inflação subjacente de serviços.

Aliás, a inflação subjacente com exclusão adicional de alimentação fora do domicílio veio num nível confortavelmente baixo, como indicam os números da Canepa. Macedo observa que outro sintoma de tranquilidade em relação ao número de dezembro é que a média móvel dos serviços anualizada apresentou no mês uma queda mais pronunciada do que a da inflação em 12 meses do mesmo item, o que é um sinal tendência de arrefecimento. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/1/18, quarta-feira.

Fonte Oficial: Estadão

Comentários/Comments

Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do VIP CEO.