Vi todas as nações do mundo reunidas e aprendi a não me envergonhar da minha. Medindo de perto os grandes e os fortes, achei-os menores e mais fracos do que a Justiça e o Direito
Rui Barbosa, sobre a Conferência de Paz em Haia, 1907

Nesta quarta-feira, dia 27, faz 112 anos que Rui Barbosa foi convidado para representar o Brasil na Segunda Conferência de Paz em Haia, na Holanda. Talvez essa seja uma das histórias mais comentadas, mas menos conhecida pelos brasileiros. Quando se fala em Rui Barbosa, normalmente vem à nossa lembrança o epíteto “o Águia de Haia”. Por que será que ele ficou assim conhecido?

Rui Barbosa é considerado um dos mais brilhantes oradores da história do Brasil. Essa fama de grande orador é tão forte que costumamos chamar de Rui Barbosa aquele que impressiona pela sua capacidade oratória. Ao perguntarmos qual o motivo de o jurista baiano ser chamado de “Águia de Haia”, quase sempre atribuem essa denominação ao fato de ele ter sido um grande orador, que impressionou o mundo com sua comunicação ao se apresentar em Haia em 1907.

Será mesmo?

Silveira Bueno foi um dos filólogos mais respeitados do país, autor de mais de 60 livros, entre eles “A arte de falar em público” e “Manual de califasia, califonia, calirritmia e arte de dizer”, duas obras sobre a arte de falar publicadas no início dos anos 1930.

Profundo estudioso da oratória, comentou em uma palestra aos nossos alunos que havia assistido a três apresentações de Rui Barbosa no Teatro Municipal de São Paulo. Tinha autoridade para falar sobre Rui Barbosa, pois, além da sua experiência no estudo da comunicação verbal, teve condições de avaliar pessoalmente as apresentações do orador.

Pois bem, Silveira Bueno revelou que Rui Barbosa não era, na verdade, um bom orador. Segundo suas palavras: 

Rui Barbosa não tinha essa (boa) tonalidade de voz. Ele começava a ler, porque nunca fez outra coisa senão ler, num tom a uma oitava acima do normal em que se expressava, e durante duas, três horas com aquela voz de tenorino batendo nos ouvidos da gente, tan, tan, tan, tan, por duas, três horas, sem nenhuma inflexão de voz, sem nenhum gesto, nada. Era de morrer, era de matar a gente. Se ele viesse para esse curso, seria reprovado
Silveira Bueno sobre Rui Barbosa

Em seguida, Silveira Bueno desvenda uma espécie de segredo: “Rui Barbosa era um orador para ser lido, não para ser escutado ou ouvido. O que ele escrevia era uma maravilha. Ninguém escreveu melhor que Rui Barbosa, somente o padre Vieira, que foi o professor dele, mas para ouvi-lo era uma penitência”.

O que comprova essa avaliação?

Qual o melhor discurso de Rui Barbosa? Há vários excelentes, mas o mais comentado é “Oração aos Moços”. Rui escreveu esse discurso para ser o paraninfo dos formandos de 1920 da Faculdade de Direito de São Paulo. Como ficou doente, não pode comparecer à solenidade. Adiaram a formatura para o mês de março de 1921. Mesmo com esse tempo adicional, não foi possível comparecer, pois ainda não se havia restabelecido.

Alguns formandos foram até Petrópolis, onde Rui Barbosa convalescia, e pegaram o discurso que estava pronto. Quem leu a mensagem aos formandos no lugar do paraninfo foi Reynaldo Porchat, diretor da faculdade. Pois é, nem o melhor discurso de Rui foi proferido por ele. Entretanto, ficou para a história como uma de suas melhores peças oratórias.

E o Águia de Haia?

O Barão do Rio Branco era o Ministro das Relações Exteriores do Brasil. Bastante perspicaz, vislumbrou uma excelente oportunidade para projetar a imagem do Brasil na Conferência de Paz. Com a intenção de levar o melhor da intelectualidade brasileira, convidou os dois principais expoentes da época: Rui Barbosa e Joaquim Nabuco.

O abolicionista Joaquim Nabuco, que talvez tenha sido o maior orador brasileiro, ocupava o cargo de embaixador do Brasil em Washington, nos Estados Unidos. Rui Barbosa, por sua vez, era um dos cérebros mais brilhantes que o país conheceu. Como, entretanto, duas estrelas não gostam de dividir o mesmo palco, não aceitaram compartilhar aquela empreitada.

A desculpa de Nabuco foi que o seu cargo de embaixador exigia que só poderia comparecer àquela conferência de paz se pudesse chefiar a delegação brasileira. Como era inteligente e ótimo diplomata, encontrou uma maneira de preservar o ego de Rui. Disse que, pela importância do grande jurista, o advogado baiano também não poderia comparecer em posição inferior.

Acostumado a resolver grandes disputas, o Barão do Rio Branco sabia que estava diante de uma disputa de vaidades. Como última tentativa para contar com a presença dos dois, fez uma proposta para que participassem de uma delegação denominada “Delegação das Águias”. Não deu certo. Nabuco, percebendo que se tratava apenas de um artifício para colocá-lo ao lado de Rui, fechou questão e recusou o convite.

Dessa forma, Rui Barbosa foi convidado, no dia 27 de fevereiro de 1907, para ser o representante brasileiro e chefiar a “Delegação das Águias”. Por isso, ficou conhecido como o “Águia de Haia”. Não foi chamado assim, portanto, porque se apresentou na conferência como orador extraordinário, que encantou o mundo com sua incomparável eloquência, como alguns julgam.

Sua participação em Haia, independentemente da sua oratória, foi excepcional. Defendeu ali, entre diversos temas relevantes, o direito de igualdade entre as nações. Esse evento ficou registrado como uma de suas mais destacadas participações em toda a vida. Tanto assim que há no museu “Casa de Rui Barbosa”, no Rio de Janeiro, um cômodo especial, a sala de Haia, com móveis que ele adquiriu durante sua passagem pela cidade holandesa. 

O Brasil marcou presença em Haia com louvor. Por isso, vale comemorar a data em que Rui Barbosa recebeu o convite para chefiar a “Delegação das Águias”.

Superdicas da semana:

  • Nem sempre quem elabora um bom discurso consegue proferi-lo com eficiência
  • A leitura de um discurso chega a ser mais difícil que a fala de improviso
  • A mensagem do paraninfo pode ser considerada a última aula da turma de formandos
  • O protocolo exigia que o discurso do paraninfo fosse lido, hoje há mais liberdade para que falem de improviso ou com anotações de apoio

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: “29 Minutos para Falar Bem em Público”, publicado pela Editora Sextante; “As Melhores Decisões não Seguem a Maioria”, “Oratória para advogados”, “Assim é que se Fala”, “Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas” e “Como Falar Corretamente e sem Inibições”, publicados pela Editora Saraiva; e “Oratória para líderes religiosos”, publicado pela Editora Planeta.

Siga no Instagram: @reinaldo_polito 
Siga pelo Facebook – facebook.com/reinaldopolito 
Pergunte para saber mais contatos@polito.com.br

Fonte Oficial: UOL

Comentários/Comments

Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do VIP CEO.