Caro leitor,

O ministro da Economia, Paulo Guedes, e sua equipe já demonstraram uma adesão irrestrita à agenda liberal, disso não há dúvida. Por essa cartilha, o Estado tem uma missão muito bem definida: cuidar da educação, da saúde, da segurança. O resto, o mercado que trate de se regular. Por isso, há uma obsessão entre os membros do time em falar, sempre que possível, em privatizações  e na menor interferência possível do Estado na economia.

Na prática, claro, a realidade não é tão simples. E o episódio envolvendo a Petrobrás, na semana passada, ilustra isso bem. Para quem já se esqueceu, a estatal anunciou, na quinta-feira (11), um reajuste de 5,7% no preço do óleo diesel. O presidente Jair Bolsonaro não gostou . Como pode uma alta nesse nível no preço, quando a inflação não chega a 4%?, perguntou. E ainda mais num momento em que crescem as preocupações sobre uma possível nova paralisação dos caminhoneiros…

O presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, liberal egresso da Universidade de Chicago, a meca desse pensamento no mundo, resolveu segurar o preço. Uma operação que fez a empresa perder mais de R$ 30 bilhões em valor de mercado  em um só dia.

Reunião pra cá, reunião pra lá, as coisas mais ou menos se ajeitaram. Na terça-feira (16), houve uma reunião com Bolsonaro para que lhe fosse explicado o porquê de o preço do diesel ter subido assim. Na quarta-feira (17), a Petrobrás reajustou o diesel em 4,8% . E as ações da empresa até se recuperaram um pouco do tombo sofrido na semana anterior.

Mas ficou o sinal. Há ainda uma visão muito intervencionista em várias partes do governo, que acham que  o Estado não pode sair tanto assim da economia. Um troca de mensagens no grupo de WhatsApp da equipe econômica , flagrada pelo nosso fotógrafo Dida Sampaio, mostra isso: o plano de Guedes para reduzir o preço do gás passa pela privatização do setor. Mas a área de gás dentro da estatal resiste.

Na campanha, o próprio Bolsonaro já havia dito ter restrições à venda de algumas empresas, como o Banco do Brasil, a Caixa, a própria Petrobrás. Como lembrou nossa colunista Vera Magalhães, o presidente “tem uma vida dedicada à defesa de privilégios aos militares, manutenção de empresas estatais e subsídios e contra privatizações, reformas e cortes de gastos”. Ou seja, uma conversão ao liberalismo de Guedes não poderia mesmo ser tão simples assim.

Mas, no caso da Petrobrás e do diesel, o pano de fundo que embaça ainda mais essa história é a ameaça constante de greve dos caminhoneiros  no horizonte. Todos sabem o que aconteceu no ano passado quando eles resolveram parar. O País entrou em colapso. Uma nova greve é tudo que se quer evitar, nesse momento em que a economia atravessa um período de extrema fragilidade, com as previsões para o crescimento do PIB recuando semana após semana, com analistas já calculando que a economia voltou a ficar no vermelho no primeiro trimestre, como mostramos aqui no jornal.

Para isso, não há uma solução fácil, se é que há realmente alguma. O governo está tentando. Montou um pacote de medidas  para agradar aos caminhoneiros, que inclui crédito do BNDES, recuperação de estradas, pontos de parada nas rodovias. Aparentemente, isso não foi o suficiente. Nos grupos de WhatsApp, os motoristas disseram que o plano era insuficiente . E continuam a ameaçar uma nova paralisação. O que eles querem é simples: diesel mais barato, fretes mais caros. Mas, com o preço do petróleo subindo no mercado internacional, e com a economia brasileira em ponto morto, com muito mais caminhoneiros do que carga para transportar, essa conta simplesmente não fecha.

É o diagnóstico de nosso colunista Celso Ming . “A causa maior do descontentamento é a de que há caminhões demais para cargas de menos a transportar, desequilíbrio que não tem correção fácil. Não é só a alta do diesel que atormenta os caminhoneiros, de bolso cada vez mais ralo. É a economia que empacou e é o desemprego que hoje atinge 13 milhões de trabalhadores no País”, escreveu.

Nossa também colunista Zeina Latif  reforça que o “receio das ameaças de paralisação não deveria ser guia para a tomada de decisão dos governantes”. Para a economista,  se o governo quer mesmo subsidiar os caminhoneiros, “que o faça direcionando recursos no orçamento a ser aprovado pelo Congresso, e não impondo perdas à Petrobrás”.

O episódio envolvendo a Petrobrás não deverá ser o único embate entre as cabeças liberais e as estatizantes dentro do governo. Outros certamente virão. É do jogo. Mas seria bom que o governo começasse de vez a caminhar na mesma direção.

Fonte Oficial: Estadão

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