SÃO PAULO  –  Embora o brasileiro seja bastante conectado, seu nível de competência e familiaridade com o mundo digital ainda é baixo em áreas relevantes para o mercado de trabalho, segundo um novo estudo do Google e da consultoria McKinsey. De acordo com a pesquisa, a distribuição das habilidades digitais entre a população brasileira também reflete algumas das principais desigualdades do país. 

Foram entrevistadas quase 2.500 pessoas com idade entre 15 e 60 anos em 28 cidades brasileiras com mais de 60 mil habitantes. No total, 12 Estados foram incluídos. O levantamento buscou identificar um índice de maturidade digital do país, representado pelo nível de familiaridade que brasileiros demonstram com diferentes tecnologias e com o mundo digital como um todo. 

Com base em uma escala de 0 a 5, os indivíduos entrevistados fizeram uma autoanálise de quanto entendem sobre conceitos relacionados a, entre outros, o uso de aplicativos e softwares, a segurança digital e a adoção de ferramentas digitais para o trabalho. De forma geral, o índice de maturidade digital do brasileiro ganhou a nota 3, sendo que a maior familiaridade ficou nas habilidades mais básicas, como a conexão à internet, uso de aplicativos de mensagens e buscadores e cuidados básicos com dados pessoais. 

Essa nota não está, no entanto, distribuída de forma igualitária na população brasileira. Entre pessoas com mais de 50 anos, por exemplo, o índice é 20% mais baixo. Mulheres jovens têm cerca de 10% menos familiaridade em áreas como acesso ao digital e uso de ferramentas para o trabalho na comparação com homens, número similar ao da população de baixa renda quando o acesso e o uso de ferramentas digitais são comparados com as classes A e B. 

Dados do Google apontam que o Brasil tem hoje a quarta maior população on-line do mundo, com uso diário mais concentrado em aplicativos de mensagens e redes sociais. “O brasileiro tem uma vocação digital muito grande”, diz Maria Helena Marinho, gerente de marketing insights do Google Brasil. “Mas o nível de penetração é mais baixo em atividades mais sofisticadas como e-learning e compras.” 

Mesmo entre as habilidades consideradas básicas pela pesquisa, algumas competências se mostraram pouco familiares para o brasileiro, como o uso de softwares de comando de voz, acesso à computação em nuvem e a capacidade de identificar sites seguros e confiáveis. As habilidades relacionadas ao acesso, ao uso e à segurança na internet receberam notas próximas de 3.5. 

Habilidades relacionadas à cultura digital — como acompanhar lançamentos de novas tecnologias e ter a vocação para explorar o mundo on-line — receberam a nota 3. Segundo a pesquisa, o brasileiro ainda apresenta pouca disposição para assumir riscos e para aprender por tentativa e erro na internet. 

A menor nota da pesquisa, 1.8, apareceu no que os autores chamam de habilidades de “criação”. São competências mais rentáveis e de uso profissional, como criação e divulgação de conteúdo, capacidade de ler e organizar dados e a habilidade de programar. Entre os pontos fortes nessa área estão a criação de apresentações e edição de vídeos, e entre os mais raros estão a familiaridade com novas tecnologias como automação de dados e aprendizado de máquina. 

Segundo Paula Castilho, sócia da McKinsey Digital, essas habilidades também são mais concentradas em poucas pessoas. Ela conta que, para as empresas, a maior demanda ainda é por profissionais com as competências consideradas básicas pela pesquisa. Essas mesmas habilidades, no entanto, podem ficar obsoletas em breve. “Quando perguntamos, daqui a cinco anos, onde vai estar a demanda, as empresas já respondem com habilidades relacionadas à cultura digital e à criação”, diz. 

O estudo identificou uma correlação positiva entre o índice de competências digitais e a renda. Mesmo após controlar por fatores como educação, idade, gênero e vínculo empregatício, profissionais que declararam ter mais maturidade digital também declararam renda maior. Cerca de um terço dos indivíduos que se destacaram nas competências digitais afirmam usar ferramentas e plataformas digitais como fonte de renda. 

Os mais maduros digitalmente também são mais propensos a se candidatar a empregos on-line e têm mais chance de ser contratados, segundo o estudo. Considerando uma maior participação no mercado de trabalho e o aumento na produtividade, entre outros elementos, o Google e a McKinsey estimam que uma qualificação maior dos brasileiros em competências digitais pode adicionar US$ 70 bilhões ao PIB do país até 2025. 

Como a pequisa foi feita apenas no Brasil, não é possível comparar o índice local ao de outros países. O Google espera, no entanto, realizá-la mais vezes nos próximos anos para medir a evolução da maturidade digital dos brasileiros. 

Fonte Oficial: Valor.

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