SÃO PAULO  –  Roupas informais podem facilitar o engajamento no ambiente de trabalho e a quebra de barreiras entre funcionários e a alta liderança. É com esse pensamento que o topo da pirâmide nas grandes companhias está aderindo a trajes mais esportivos durante o expediente. As gravatas estão indo para a gaveta, as executivas abandonam o salto alto e as reuniões de diretoria presenciam a entrada de calças jeans, polos e camisetas. 

A mudança acontece a partir da sala da presidência e inclui todos os departamentos em organizações de setores como tecnologia, seguros, telecomunicações e consultorias. Até os bancos, antes conhecidos pela obrigatoriedade do terno completo, embarcam na novidade. 

Apesar do uso liberado de tênis e bermuda em algumas empresas, a regra é que o bom senso e a discrição prevaleçam na hora de cruzar as catracas. “Os colaboradores sempre se espelharão nos seus superiores”, garante Bia Kawasaki, curadora de imagem e reputação corporativa.

Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina, é um dos entusiastas dessa nova maneira de vestir. Ele pode ser visto nos corredores da companhia de jeans e camisa – aboliu as gravatas há sete anos. “Quando não preciso ir a reuniões com clientes ou é um dia mais informal, também uso camiseta”, garante. Ele não dispensa o tênis. Possui dez pares, sendo oito de corrida, do mesmo modelo, com variações de cores. “Tinha o hábito de correr e ainda gosto de usá-los.”

Quem conheceu Beck anos antes, quando ele trabalhava em uma multinacional de software, pode até estranhar o novo figurino. Estava sempre de terno e gravata nos encontros de negócios, lembra. Mas, ainda hoje, sabe até onde pode ousar. “É importante se atualizar quanto ao ‘dress code’ dos clientes. Além de respeitar os códigos alheios, você se destaca de forma negativa ao aparecer em uma reunião completamente diferente dos demais.”

O executivo segue alinhado com a cultura corporativa do LinkedIn, em que todos se apresentam de acordo com preferências pessoais. O escritório no Brasil tem 240 colaboradores, com maior concentração na faixa etária de 25 a 35 anos. “Não acreditamos que a produtividade de um funcionário esteja relacionada à roupa que ele usa”, diz. “Peças informais facilitam o diálogo e a quebra de barreiras, especialmente entre a liderança e as equipes.”

Alexandre Ullmann, diretor de recursos humanos do LinkedIn para a América Latina, lembra que, nas temporadas de calor, a indumentária do quadro segue o padrão do verão, e os funcionários podem optar por bermudas, regatas e saias. Queremos que todos se sintam bem e não adotamos nenhuma convenção, explica. “Terno e gravata não dão mais ou menos credibilidade para quem usa. O que vale são as competências técnicas e interpessoais.”

A consultora Bia Kawasaki, que já criou dress code de organizações como a BM&FBovespa (hoje B3) e a Fujitsu, afirma que grandes grupos estão flexibilizando as regras de vestimenta no alto escalão por conta da chegada de uma força de trabalho mais jovem e descontraída ao mercado. “Anos atrás, em setores tradicionais como bancos e escritórios de advocacia, chegar com um traje informal era praticamente inimaginável”, diz. Entretanto, a especialista recomenda parcimônia nos “looks”. “Uma roupa adequada a um compromisso sempre causa boa impressão.”

É o que pensa Joaquim Campos, o Joca, vice-presidente de systems hardware da IBM. Apesar de fã de peças confortáveis, ele não descuida da aparência. Na empresa desde 1998, lembra que até 2006 tinha 15 ternos e mais de 60 gravatas – tudo foi para o fundo do armário à medida que o manual de vestimenta interno foi sendo suavizado. 

“Agora, são três ternos e três gravatas, que uso menos de dez vezes ao ano”, diz ele, adepto da combinação jeans, camisa ou camiseta mais relógio esportivo. A apresentação mais apurada só é resgatada quando visita clientes com protocolos definidos. “É preciso respeitar a casa dos outros.”

Joca afirma que o modo de vestir já o ajudou a romper bloqueios com os funcionários que lidera. A apresentação e um jeito de ser mais informal aproximam a equipe, avalia. “Hoje mesmo vi um funcionário de bermudas no elevador.”   

A IBM Brasil adotou um novo manual de vestimenta em fevereiro de 2017, com mais opções de escolha – jeans, sandálias rasteirinhas, bermudas e tênis foram permitidos e valem para a alta direção. A revisão anterior do código, em 1996, já indicava que terno e gravata não eram mais necessários. A diretora de recursos humanos Christiane Berlinck afirma que, logo nos dias seguintes à mudança, já era possível ver colaboradores de bermuda no prédio da companhia em São Paulo. “A época do ano, em pleno verão, ajudou na adesão”, diz. Camisetas de times, ou com conotações políticas e religiosas, além de chinelos e bermudas de praia, continuam de fora.

Márcia Tiemi Takakura, diretora jurídica da seguradora MetLife Brasil, admite que já seguiu um estilo extremamente sério, com terninho sobre sapatos altos ou fechados. Agora, valoriza o que é prático. Compra calças de alfaiataria, além de peças de couro, blusas e pantalonas. Os saltos só entram em cena em raras ocasiões, e os ternos estão suspensos desde o ano passado, afirma. Ela segue os sinais que vêm do CEO Raphael de Carvalho, dono de variações de calças de sarja, camisas e polos. 

“Iniciamos as mudanças do dress code há mais de quatro anos”, diz Carvalho. A renovação começou com o business casual diário, abrindo portas para o jeans e, há dois anos, no verão, foi instituído o “Bermuday”, às sextas-feiras. Uma vez por mês, o escritório também celebra o “T-shirt Day”, quando os funcionários podem ir de camiseta temática, de time de futebol, super-herói ou banda de música. 

“Estimulamos os colaboradores a se sentirem à vontade. Roupas sociais ficam para ocasiões que pedem isso.” Carvalho diz que ele mesmo, depois de um longo voo internacional, foi direto para o escritório, tomou banho e colocou bermuda. “Deu um ânimo maior para continuar o dia.” 

Por conta do cronograma de atividades, Felipe Miglioli, sócio de estratégia da consultoria EY-Parthenon, tenta equilibrar o guarda-roupa diário entre o tradicional e o casual. “Procuro estar de acordo com o padrão de vestir de cada cliente”, afirma ele, que prefere calça social e paletó, com ou sem gravata, mais camisas sob medida, jeans e blazer. “A forma como eu e os meus sócios nos apresentamos pode influenciar a maneira como o time também se veste.” Com 5,5 mil colaboradores no Brasil, a EY adotou uma diretriz de vestimenta mais casual há dez anos e liberou os jeans há três para todos os executivos, diz Elisa G. Carra, diretora de talent para o Brasil e América do Sul.

Carlos Renato Gazaffi, presidente da empresa de tecnologia Tivit, acredita que a defesa de uma imagem informal precisa partir da cúpula da organização para surtir efeito no quadro. “Não faria sentido criar uma política de dress code mais leve e chegar todos os dias de terno e gravata”, pondera ele, que gosta de jeans e camisa e elege uma polo somente às sextas. “Não uso calça social desde 2017, quando implementamos um novo código.”

A consultora de imagem Valéria Oliveira avalia que modelos mais descontraídos acabam influenciando na produtividade das equipes, mesmo que as mudanças na apresentação dos principais gestores possam ser mais sutis. “Pesquisas indicam que é visível o aumento do rendimento e a satisfação com o trabalho nos ambientes em que os profissionais podem produzir com mais liberdade e autenticidade”, diz. A especialista lembra que até os bancos, antes conhecidos pela obrigatoriedade do terno e gravata, estão curvando-se à flexibilização.

Glaucimar Peticov, diretora executiva do Bradesco, com 99,1 mil funcionários, confirma que a instituição franqueou o uso da gravata em 2017. A peça passou a ser opcional em todas as áreas, inclusive no conselho e diretoria. Não é raro ver o presidente do banco, Octavio de Lazari, sem o acessório. Já no Itaú, que revisou o guia de vestimenta em 2011 e 2018, lançou uma campanha interna batizada de “Vou como sou”, que encoraja os cerca de 100 mil colaboradores a se vestirem do jeito que desejarem. Vale também para o alto escalão, diz a diretora de RH Valéria Marretto. 

Jussara Dutra, diretora de pessoas e organização da Senior, empresa de software com mais de 1,7 mil colaboradores que extinguiu o dress code no início do ano, afirma que a ação ajuda os funcionários a serem mais acolhidos no escritório. “É fundamental no engajamento, e 90% do quadro já aderiu aos trajes casuais”, garante.

Na operadora Vivo, que realiza revisões na cartilha de conduta desde 2017, a bermuda ganhou carta branca em janeiro. Fernando Luciano, diretor de talentos e inovação, é um dos que mais incentivam a troca de hábitos. Enfrenta a semana com jeans, camisa para fora e sapatênis, e esqueceu os sapatos de couro e as calças sociais. “Fiquei apenas com um terno e duas gravatas, para agendas formais.”

A consultora Valéria Oliveira pede maior atenção dos executivos em datas de visibilidade nas corporações, como a apresentação de um projeto ou o fechamento de um contrato. “Para não errar, o ideal é respeitar a política de dress code ainda presente na organização”, aconselha.

Na Nextel, o CEO Roberto Rittes parece não ter saudade de uma época, na década de 1990, em que cumpria expediente em um banco.“Não era só terno e gravata, tinha de seguir padrões como risca de giz, camisa branca e abotoaduras”, diz o executivo, no comando da telefônica de 2,8 mil funcionários que decretou o fim das regras de vestuário em 2017.

Rittes circula no escritório de tênis e já liderou reuniões de bermuda. “Nosso projeto é criar um ambiente inclusivo em que as pessoas se sintam seguras para expressar suas ideias e assumir um estilo de vida sem julgamentos.” 

Fonte Oficial: Valor.

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