Nova fase da América Latina pode seguir caminhando rumo a um futuro muito pior, em termos econômicos
(Arte: TUTU)

Por André Sacconato*

A América Latina vinha se apresentando como um bloco que parecia estar conseguindo trilhar um caminho de políticas econômicas sérias e responsáveis: governos com responsabilidade fiscal – o que deixava o ambiente macroeconômico mais estável –, juros mais baixos e mais investimentos externos e internos na economia.

Três países se destacavam nesta frente: Chile, Peru e Colômbia. Com políticas econômicas simples, sem grandes invenções, registravam resultados surpreendentes.

Para se ter uma ideia, em 1980, o Chile apresentava uma renda per capita de US$ 3,4 mil. Enquanto isso, o Brasil marcava, no mesmo indicador, US$ 4,8 mil. Já em 2019, a renda per capita do Chile era de US$ 24 mil; ao passo que a do Brasil parou em US$ 15 mil, todos os valores medidos em paridade com o poder de compra.

Esta diferença pode ser observada também quanto à esperança de vida ao nascer, quesito em que o Brasil chegou a 75,4 anos, e o Chile, a 82,7 anos, entre 2015 e 2020.

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Em 2015, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Chile chegou a 0,847 (ao avançar quatro posições, da 42ª para a 38ª posição), incluindo o país no grupo das nações com o IDH mais alto. Já o Brasil se manteve estagnado – 0,754 (79ª posição no grupo dos países de alto IDH).

Além disso, a vantagem chilena se faz presente na desigualdade. Se contarmos o Índice de Gini, que mede esta variável e pode atingir valores entre 0 (igualdade total) e 1 (desigualdade máxima), em 2020, o número brasileiro estava próximo a 0,54; enquanto o Chile apontava 0,43. Todos os dados nos mostram que o Chile é, hoje, mais rico, mais próspero e mais igual.

Esta melhoria, advinda de políticas econômicas mais austeras, também era verificada, ainda que em menor magnitude, na Colômbia e no Peru, indicando que, no longo prazo, ambos seguiam pelo caminho certo.

O grande problema é que, neste meio-tempo, instaurou-se uma séria crise, causada pela pandemia de covid-19, impactando mais fortemente as nações pobres, as quais lidam com dificuldades de saneamento e aglomerações em locais mais adensados, além da resistência dos governos locais em lidar com a situação.

Para piorar o quadro, a guerra da Ucrânia elevou os preços de commodities agrícolas e combustíveis, subindo demais o valor dos alimentos, num momento em que as pessoas ainda se recuperavam da doença que se alastrou pelo mundo.

Neste contexto, os países mais empobrecidos sofrem mais com fome e desnutrição, além da probabilidade de serem mais pessimistas quanto ao governo vigente.

Assim, a culpa das sequelas de duas recessões seguidas foi imputada a quem estava no poder, na ocasião. Como consequência, criou-se a perspectiva de que uma política econômica contrária à que vinha sendo feita seria o remédio para a crise, mesmo que isso não fizesse nenhum sentido.

Era a brecha para uma nova guinada rumo a políticas mais populistas, por meio das eleições de Gabriel Boric, no Chile, e Gustavo Petro, na Colômbia. Notícia muito negativa para o continente, pois anos de evolução podem ser jogados no lixo em um curto período.

Esta nova fase da América Latina, então, inquieta, pois podemos estar caminhando rumo a um futuro muito pior, em termos econômicos. Resta torcer para que esses novos governos tomem consciência e sigam políticas mais responsáveis, a fim de que, lá na frente, o povo latino não sofra mais.

Saiba mais sobre o Conselho de Economia Empresarial e Política (CEEP)

*André Sacconato é economista, consultor da FecomercioSP e integrante do CEEP.
Artigo originalmente publicado no Portal Contábeis em 30 de junho de 2022.

Fonte Oficial: FecomercioSP

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