Em meio aos debates em torno do uso de agrotóxicos pelo Brasil, uma coisa é certa no agronegócio: um dos maiores, senão o maior custo para os agricultores, é o combate às plantas daninhas. Elas competem com todos os tipos de lavoura, tornando inviável a produção de alimentos em larga escala se não forem controladas.

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A opinião é compartilhada por produtores e pesquisadores. O tamanho do rombo na produtividade – e no bolso do agricultor – depende de fatores como clima, tamanho da infestação e tipo de controle feito na cultura. Mas em alguns casos a perda pode chegar a 80% da produção, se nada for feito.

Segundo o engenheiro agrônomo Fernando Adegas, da Embrapa Soja, um produtor de soja costuma desembolsar de US$ 10 a até US$ 150 por hectare com herbicidas para o controle de ervas daninhas, mas, na média brasileira, gasta-se na faixa de US$ 35 a US$ 70. Numa conta rápida, considerando-se essa média, o país gastaria anualmente entre US$ 1,25 bilhão e US$ 2,51 bilhões (até R$ 10,39 bilhões, com o dólar a R$ 4,14) com herbicidas para a lavoura de soja – numa área estimada de de quase 36 milhões de hectares. Já no milho, para uma área estimada de 17 milhões de hectares, seriam gastos mais R$ 2,15 bilhões, ou US$ 520 mil.

Segundo Adegas, quanto maior o tamanho da área plantada, maior
é a probabilidade de problemas aparecerem. A menor diversidade de culturas
também favorece as ervas, pois elas passam com mais facilidade para a safra
seguinte. “A rotação de culturas ajuda a quebrar o ciclo das plantas daninhas. Também
é importante diversificar o controle alternando os produtos químicos e os métodos
de aplicação. Não é utilizar mais agroquímicos”, esclarece Adegas.

No caso das lavouras de milho, o cereal que é plantado no verão sofre um ataque mais agressivo das plantas daninhas, por isso necessita de mais herbicida. “Gasta-se em torno de US$ 30 por hectare, só com o produto químico, fora o custo do trator e mão de obra”, diz Décio Karam, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo e integrante do Conselho Científico Agro-Sustentável (CCAS). Ele afirma que em uma lavoura de milho podem haver até 15 tipos diferentes de plantas daninhas.

Essa variedade impede que se faça, por exemplo, um controle biológico das ervas daninhas. A outra alternativa ao uso de herbicidas seria o controle mecânico, ou seja, com roçadeira ou enxada. De qualquer forma são soluções inviáveis economicamente para grandes áreas. Uma saída é ter uma boa cobertura de palhada (restos da cultura anterior), que ajuda a evitar o uso excessivo de agroquímicos. Estes, porém, não podem ser deixados 100% de lado, segundo os pesquisadores da Embrapa.

De tirar o sono dos agricultores

Umas das plantas daninhas que mais dão dor de cabeça aos produtores de soja são as resistentes ao glifosato. Entre elas a buva e o capim amargoso. “A buva não é uma planta perene, é anual. O controle dela deve ser feito antes da semeadura da soja. Com duas aplicações você consegue fazer bom controle. Já o amargoso é perene, então necessita de três ou quatro aplicações”, ensina Adegas.

Na cultura de milho, as maiores vilãs são as gramíneas, conforme explica Karam, como o amargoso e pé-de-galinha (esse também resistente ao glifosato). Tem ainda o capim timbete, que mesmo não sendo resistente ao glifosato é bastante agressivo, e as chamadas folhas largas, como a corda de viola, que tem germinação escalonada e mesmo usando-se um herbicida ainda há possibilidade de continuar surgindo.

“Não dá para dizer, por exemplo, que o milho é mais competitivo do que a soja [em ser resistente a ataques de plantas daninhas]. Todas as culturas perdem com uma infestação. À competição com essas ervas, dependendo da espécie, densidade, população e distribuição delas, cada cultivar responde de forma diferente”, salienta Karam.

Resistência aos herbicidas

Entretanto, o uso frequente e muitas vezes incorreto dos herbicidas acaba criando resistência nas plantas daninhas, dificultando o controle. Para Luís Carlos Cavalcante, gerente geral da Oro Agri na América do Sul, empresa especializada em soluções para o controle de ervas daninhas, os herbicidas não têm controle eficiente de plantas como a buva, trapoeraba e erva quente, entre outras. E a cada ano o prejuízo é maior por causa da infestação e de sua capacidade de multiplicação.

“Mais importante do que o custo do herbicida é saber se esse custo está se revertendo em produção. Com as tecnologias atuais, gasta-se muito e não se tem controle sobre plantas daninhas de difícil controle. Tem produtor fazendo quatro aplicações para capim amargoso ou buva, e ainda no meio do ciclo tem que usar mais um pós-emergente”, afirma Cavalcante. Atualmente, estima-se que os produtores gastem de R$ 250 a R$ 400 por hectare na tentativa de controle de plantas daninhas. É o equivalente a 15 sacas de soja por hectare.

Na foto, capim amargoso que nasceu em área de plantio em Maringá (PR).
Na foto, capim amargoso que nasceu em área de plantio em Maringá (PR).| Josué Teixeira/Arquivo/Gazeta do Povo

Além de utilizar produtos de origem idônea e que são comprovadamente eficientes, é preciso, lembra Cavalcante, ter qualidade na aplicação, observando-se o estágio da planta e os fatores climáticos, que podem afetar a ação do produto, como vento e chuva. Não adiantaria aplicar sempre o mesmo herbicida, pois com o tempo ele vai selecionando no campo as plantas mais resistentes, que permanecem. “Essa resistência natural já existe no campo. Por isso é importante mudar o modo de ação e o ativo químico”, argumenta.

Já Adegas observa que a transgenia hoje existente em grande parte das culturas oferece oportunidades para se utilizar herbicidas que antes não eram possíveis, como o próprio glifosato. Mas isso também cria oportunidades de criar resistência. “Em qualquer controle químico, se você usar uma única transgenia relacionada a um tipo de agroquímicos você vai criar populações mais resistentes a esse produto.”

Outro complicador é o clima tropical brasileiro. O calor e a umidade aumentam a competição entre as plantas. E se houver estresse hídrico, as ervas daninhas têm capacidade adaptativa melhor, dizem os pesquisadores, pois são mais rústicas e propensas a condições de estresse a cultura. “As plantas geram mais ciclos do que no clima temperado, onde elas produzem apenas um ciclo de sementes. Aqui temos plantas daninhas com até cinco ou seis ciclos”, explica Adegas.

Por isso, quem fizer o manejo correto larga na frente nessa
disputa. Segundo Karam, a aveia, a braquiária, que são tipos para a cobertura do
solo, ajudam a diminuir muito a incidência de plantas daninhas. “Mas tem que
ter densidade adequada na lavoura, com plantio na época correta. E os agroquímicos
precisam ser aplicados na dose e no estágio correto indicado para a lavoura”,
ensina. Neste caso, o controle químico – sem exageros – funcionará melhor, como
um grande aliado.

Fonte Oficial: Gazeta do Povo

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