Para que o crédito chegue às mãos das empresas, é preciso que o Tesouro Nacional atue como um agente garantidor desses empréstimos
(Arte: TUTU)

Wesley Damiani

Os efeitos da pandemia do coronavírus sobre as pequenas empresas têm sido cada vez mais graves. Os empresários estão enfrentando a necessidade de financiar o capital de giro e a folha de pagamento para conseguir manter funcionários e permanecer em atividade, mesmo com as portas fechadas. Esse cenário de turbulência fica ainda pior diante de dois problemas: todo o crédito anunciado até agora não está chegando à ponta, e o montante máximo que o empresário pode solicitar não é necessariamente suficiente para manter o negócio por alguns meses.

Em março, o banco de fomento paulista Desenvolve SP liberou mais de meio bilhão em crédito para diversas empresas. Mais recentemente, a Caixa Econômica Federal (CEF) anunciou R$ 7,5 bilhões às PMEs. O BNDES, em abril, disponibilizou R$ 5 bilhões para financiamento de capital de giro e mais R$ 40 bilhões para pagamento da folha. Até agora, no entanto, apenas 1% desses R$ 40 bi foi liberado – cerca de R$ 413,5 milhões, segundo dados do jornal O Estado de S. Paulo, do último dia 8 de maio.

Na prática, o que predomina é a burocracia enfrentada pelos empresários. O proprietário da Rubinella Confecção, Sidney Rubin, tem 14 lojas espalhadas em shoppings, com 250 funcionários no total – mas, atualmente, com apenas dez trabalhando. “Não tem crédito. Tentei em alguns bancos privados, no BNDES, mas até agora não consegui nada. Exigem muitas garantias, mas sempre foi assim, não mudou nada. Estão pedindo que a empresa tenha imóvel, nem duplicata estão aceitando”, relata. Ele comenta que como já havia feito empréstimos no passado, os bancos estão exigindo garantias diferentes.

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Essa dificuldade prejudicou imensamente os resultados da empresa. “Minhas vendas caíram mais de 90%. Só tenho o e-commerce atendendo. Essa é apenas uma loja entre 14 pontos de vendas. Tudo o que investi numa coleção desde novembro está perdido. Imagine um investimento de seis meses no estoque, sem ter onde desovar. Isso nos deixa sem recursos para pagar aluguel, fornecedor, funcionários e impostos. E minha empresa é apenas uma no mercado”, diz. Ele ressalta que demissões só irão ocorrer em último caso. “Mas, sem dinheiro novo, não teremos para onde fugir”, pontua Rubin.

Liberação de recursos ignora turbulência atual

Os maiores entraves têm sido excesso de garantias exigidas pelos bancos e outras burocracias que já barram a solicitação logo no início da análise. Mesmo em um período de exceção em que a maioria das empresas não pode abrir, os bancos continuam operando com as mesmas regras de antes, impondo taxas de juros com um alto nível de risco embutido, o que, com efeito, faz com que esse crédito tenha um custo mais alto do que o cobrado pela na taxa Selic, atualmente em 3% ano.

O Sebrae aponta que, até o começo de abril, 60% dos donos de pequenos negócios que buscaram crédito no mercado desde o início da crise tiveram o pedido negado. Um estudo de abril feito pela instituição identificou que, na média geral, as empresas do País conseguiriam ficar mais 23 dias fechadas tendo recursos próprios para pagar todas as contas – comércio e serviços conseguiriam apenas por 21 dias.

A empresária Luciana Celestino, sócia de uma empresa de confecção e de venda de roupas na região central de São Paulo, a Marca Sala, também teve vários pedidos barrados pelos bancos.

“Tentamos com o Desenvolve SP. O preenchimento foi bem burocrático, e não tive resposta. Liguei e o atendente me falou que o pedido foi rejeitado na primeira análise, relacionada ao score do cadastro positivo. Atualizei os dados na Serasa, mas nada disso adiantou”, relata. “Em seguida, tentei pelo BNDES, que liberou, mas me mandou procurar a Caixa – que, além de barrar o recurso por minha empresa não ser correntista, disse que não estão abrindo contas nesse momento. No meu banco mesmo, também não foi aprovado. Nunca precisei de empréstimo; a partir de agora, terei que ter conta em vários bancos”, ressalta.

Ela diz ainda que, dos recursos para folha de pagamento pelo BNDES, só conseguiu R$ 10 mil, mesmo com folha mensal superior a R$ 25 mil. Segundo seus cálculos, a empresa precisa de, ao menos, R$ 150 mil para conseguir se manter por alguns meses. “Não adianta apresentar uma papelada enorme para o banco liberar R$ 10 mil ou R$ 15 mil”, critica.

“O faturamento caiu pela metade, estamos apenas com o e-commerce. Estamos renegociando tudo com fornecedores, assim como os aluguéis. Se tudo não for normalizado até junho, não sei nem se conseguiremos nos manter depois disso. As dívidas estão se acumulando”, pontua Luciana.

Tesouro precisa ser agente garantidor do crédito

A FecomercioSP ressalta que o banco privado, ao não ter como garantir que o empresário conseguirá arcar com o pagamento do empréstimo, exige diversas garantias – como documentos, certidões negativas de débitos, financeiras, etc. Além disso, um alto risco é atrelado à operação de crédito, uma vez que grande parte das empresas está com as portas fechadas e com menos vendas. O Banco Central já havia permitido que os bancos comerciais emprestassem mais recursos – por meio da liberação do compulsório.

Para que o crédito chegue às mãos das empresas, é preciso que o Tesouro Nacional atue como um agente garantidor desses empréstimos realizados pelos bancos públicos e privados – isso já foi adotado por outros países. Nessa condição, o órgão público garante que o banco não deixará de receber se o empresário não conseguir pagar. Isso ajudaria a reduzir o peso da inadimplência atrelado aos juros.

A FecomercioSP encaminhou um ofício ao Tesouro solicitando que o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI) do BNDES seja utilizado neste sentido: se um empresário vai ao banco pedir crédito, mas não tem garantias, ele poderá utilizar esse fundo como garantia de 40%, 50% ou 60% do seu empréstimo. Isso facilitará a aprovação ou que o banco forneça melhores condições para pagamento.

Além da facilidade e das melhores condições para empréstimos, é essencial que o governo estadual apresente um plano consistente para o retorno à normalidade que dê uma perspectiva ao empresário e aos comerciantes – algo que não foi feito até agora.

“Antes da pandemia, tínhamos 250 funcionários; não sei com quantos ficaremos no fim. Os horários devem mudar nos shoppings, os turnos de trabalho podem ser menores, mas não sei o que vai acontecer. Ainda estamos muito sem saber o que fazer”, conclui o empresário Sidney Rubin.

 

Fonte Oficial: FecomercioSP

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