Mudança é desafio para os empregadores que estão acostumados a lidar com dirigentes sindicais de carne e osso
(Arte: TUTU)

Por José Pastore*

Bolsonaro ganhou a eleição com base no telefone celular. Donald Trump fez a mesma coisa em 2016. Paris ficou em chamas na última semana devido a um movimento capitaneado pelo WhatsApp. Em artigo interessante, a revista The Economist especula que os próprios sindicatos poderão recobrar seu fôlego com base na comunicação entre trabalhadores via redes sociais (“Workers of the world, log on!”, TheEconomist, 17/11/2018). Em quase todos os países, os sindicatos laborais vêm perdendo filiados por causa da entrada maciça de novas tecnologias no sistema produtivo. Estas provocam uma fragmentação das empresas e desconcentração dos trabalhadores.

O artigo sugere que, com a ajuda das redes sociais, os trabalhadores poderão se reorganizar em torno de seus sindicatos e, com isso, pressionar os empregadores por melhores condições de trabalho.

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Afinal, cerca de 60% dos trabalhadores dos países avançados já conversam entre si dessa forma e com muita frequência. Nessas conversas, eles coletam informações e “bolam” formas de pressão sobre as empresas. Esse é o caso, por exemplo, de motoristas de Uber dos Estados Unidos que detonaram uma campanha que gerou melhores rendimentos, novos benefícios e proteções no trabalho.

Outros exemplos recentes são a greve bem-sucedida de 25 mil professores no estado de West Virginia (EUA) e o movimento dos atendentes da rede de café Starbuck que conseguiram afastar medidas de discriminação impostas pela empresa. Em 2016, o sindicato de gás e eletricidade de Baltimore mobilizou mais de 20 mil trabalhadores em uma greve vitoriosa via redes sociais. No mesmo ano, o sindicato dos empregados da empresa Verizon conseguiram aumentos salariais substanciais do mesmo modo.

Ocorre que nem tudo são flores nesse campo. Os movimentos deflagrados pelo WhatsApp e outras mídias sociais são ondas difusas e sem lideranças identificáveis. Para os empregadores que estão acostumados a lidar com dirigentes sindicais de carne e osso, esse é um enorme desafio. Eles terão de apreender a dialogar com tais movimentos, pois eles comprometem muito a imagem das empresas. Convém lembrar a “greve dos caminhoneiros” (2018) realizada de forma relâmpago e eficiente por meio do WhatsApp. Os ativistas alcançaram muitos dos seus objetivos porque governo, empresários e consumidores ficaram encurralados sem saber como negociar com os manifestantes.

O mesmo ocorreu no citado movimento de Paris nesta semana. A França cogitou decretar estado de sítio tamanho foi o desespero dos governantes. No início, o movimento protestou contra o aumento dos combustíveis, mas logo evoluiu para o alto custo de vida e para questões tributárias. Em que adianta um estado de sítio para lidar com movimentos difusos e sem lideranças? Manuel Castells há vários anos vem prevendo que as redes sociais serão o meio de decisões econômicas e políticas de grande alcance na sociedade moderna, deixando claro que ignorá-las é tão perigoso quanto confrontá-las com armas antigas (Manuel Castells, A Sociedade em Rede, Editora Paz e Terra, 2015).

Se essa estratégia ainda não adentrou nos sindicatos do Brasil, não significa que não venha a pegar no futuro. O Presidente da CUT, Vagner Freitas, assim analisa a situação brasileira: “… o maior problema do líder sindical atual não é dinheiro, mas ter dificuldade para ouvir as massas. Os trabalhadores estão cada vez mais pulverizados, e não concentrados num único local, dificultando a abordagem dos representantes sindicais e uma ação conjunta. Nosso desafio é organizar os trabalhadores de forma mais racional e menos fragmentada (“Crônica do trabalho: no olho da rua”, Revista Época, 15/11/2018).

Em decorrência do término da contribuição sindical obrigatória, os sindicatos laborais foram desafiados a se reorganizar. É nessa reorganização que podem emergir as mobilizações de trabalhadores pela via das redes sociais. Afinal, o Brasil não está fora do mundo.

*José Pastore é Presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da FecomercioSP
Artigo originalmente publicado no jornal Correio Braziliense no dia 07 de dezembro de 2018.

Fonte Oficial: FecomercioSP

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