São Paulo – Há 40 anos, quando decidiu fazer um estágio de férias em um pequeno hotel de luxo sem luz elétrica na Iugoslávia, o francês Janick Daudet, hoje com 61 anos, não imaginava que ocuparia uma das posições mais cobiçadas entre os CEOs do mundo: ser presidente da rede de resorts Club Med, com quatro villages no Brasil e 64 no mundo.

“Se alguém me diz que eu tenho o melhor emprego do mundo, eu falo que é verdade. Estou 110% comprometido com o meu trabalho e dedico muita energia nele porque eu realmente gosto. Acho legal ser reconhecido como o Janick do Club Med”, diz Daudet, que recebeu a no mais novo resort do grupo, o Lake Paradise, no interior de São Paulo, reformado para atender o público corporativo.

Energia certamente é uma das características que melhor definem o executivo. “O único compromisso recorrente na minha agenda é o esporte que pratico no mínimo quatro vezes por semana”, conta o executivo, apaixonado por golfe e ski. Mas seu dia a dia, como de qualquer grande CEO, não se limita às nove horas por dia de trabalho. Um dia em que ele acorda antes das 7h e trabalha até meia noite não é exceção.

EXAME visitou em agosto o village Lake Paradise, a mais recente inauguração do Club Med no Brasil, e reformado para atender especialmente grupos corporativos. De cedo à noite, o executivo teve reuniões com a equipe do hotel, com o novo diretor comercial, concedeu entrevistas à imprensa, passeou pelo complexo, onde investiu quase 30 milhões de reais em reformas (era um antigo hotel com campo de golfe) e, à noite participou de um jantar e festa para apresentação das instalações para convenções de empresas. “Acredito muito no exemplo. Eu quero mostrar aos meus funcionários que eles precisam também se divertir com o trabalho”, diz ao som de Anitta.

No Brasil, a primeira unidade, de Itaparica (Bahia) foi inaugurada em 1979. De lá para cá, três novos foram abertos: Rio das Pedras (Rio de Janeiro), Trancoso (Bahia) e Lake Paradise. A principal missão de Daudet à frente do Club Med? “Vender felicidade. Parece clichê, mas é o que é vendemos, um período em que as pessoas se esquecem dos problemas, relaxam, comem e bebem bem, se divertem e fazem o que lhes dá prazer”, diz.

Isso não quer dizer que ele não precise se preocupar com faturamento, margem de lucro ou geração de caixa. Uma vez por trimestre se reúne com os outros quatro presidentes regionais em algum dos resorts do grupo pelo mundo para falar sobre os números. Afinal, o Club Med, como todo negócio, depende do lucro para sobreviver e prestar conta aos atuais acionistas, entre eles o grupo chinês Fosun, dono também do espetáculo circense Cirque du Soleil.

Em 2017, o grupo faturou 1,5 bilhão de euros, crescimento de 4%. Na América do Sul, a expectativa é crescer 13% este ano. A Argentina deve puxar, com alta de 26% e o Brasil, 11%. No ano passado, a região chegou a registrar aumento de 40% da receita, principalmente pela inauguração da nova unidade em São Paulo. São 100 000 clientes sul-americanos, sendo 85% brasileiros.

Histórias cruzadas

Amante de viagens, esportes e bons vinhos (os franceses da região francesa de Bordeaux são seus preferidos), Daudet está no Club Med há 40 anos, desde o estágio de férias na Iugoslávia, quando a empresa tinha poucos villages de férias na Europa. Naquela época, os hóspedes dormiam em tendas e cabanas, que as famílias dos próprios fundadores –  o belga ex-campeão de polo aquático Gerard Blitz e o empresário Gilbert Trigano – construíam. Não tinha luz elétrica e nem água encanada.

Quem passava as férias em um village só queria uma coisa: fugir das preocupações do pós-guerra. A fartura de comida e bebida, festas e a prática de esportes eram, então, peças-chave e se tornaram as principais características do Club Med, abreviação de seu nome original Club Mediterranée. “Inventamos o conceito de all inclusive (tudo incluso) e de buffet. Até hoje, nos preocupamos em providenciar tudo que o hóspede precisa, para ele esquecer de tudo quando entrar em um village. Temos, por exemplo, investido muito em tecnologia para que ele possa reservar quadra, marcar aula e ver a programação tudo pelo celular”, diz Daudet. Até o translado das cidades com aeroportos o Club Med providencia para seus clientes.

Seu entusiasmo e energia o fez o mais jovem gerente geral de um village, aos 25 anos, quando estava no Marrocos. “Na época minha principal preocupação era com a qualidade do serviço, não se estava dando lucro ou não”, diz o executivo, que, ao longo de sua trajetória na empresa, trabalhou em 25 países, entre eles França, Grécia, Tailândia e Estados Unidos, e no navio do grupo.

Mas foi o Brasil que chamou sua atenção. Apesar de já ter trabalhado por um curto período no início de sua carreira no ClubMed, foi sua vinda, em 1988, para liderar a construção do village de Rio das Pedras, no litoral fluminense, que o fez fincar raízes. Desde então, nunca mais saiu. Se tornou presidente do ClubMed nacional em julho de 1995. Casado com uma carioca e pai de dois filhos, adotou o Rio de Janeiro como sua casa e Trancoso como seu lugar favorito no mundo. É lá que passa o fim do ano. Este, não será diferente. “Conheço mais de 50 países e Trancoso é meu lugar preferido. A natureza é exuberante.”

Hoje, com 68 anos desde a fundação, o Club Med é referência mundial em hotelaria de luxo e variedade de práticas esportivas. Em 2017 bateu recorde de visitantes: foram 1,34 milhão de hóspedes. O número de pacotes vendidos subiu 6,6% em relação ao ano anterior, a maior taxa de crescimento em 17 anos. As Américas tiveram o maior aumento, de 20% em relação a 2016, ante 4% da Ásia e 3% da Europa e África.

A nova missão de Daudet na América do Sul e, em especial, no Brasil, é levar turistas para os villages do grupo no exterior, em especial nas estações de ski da Europa e da Ásia. Tem dado certo. Na França, depois dos próprios franceses, os brasileiros são os que mais viagem para praticar ski. “Na crise, precisamos nos reinventar. Exploramos os destinos de ski, que os brasileiros e outros latinos ainda não muito acesso”, diz. Hoje, o grupo tem 15 resorts com estações de esqui nos Alpes e a ideia é abrir um novo por ano, especialmente na China e na França.

 

Rotina

Apesar de não ter rotina – cada dia pode estar em um lugar no mundo – Daudet, como qualquer CEO, também tem uma agenda cheia de reuniões. A diferença é que em boa parte delas ele troca o terno e a calça social por bermuda, camiseta e tênis. Ao invés de ficar trancafiado horas a fio em um escritório, ele também pode trabalhar um dia observando o pôr-do-sol de Trancoso, na Bahia, outro com os pés na areia no resort do grupo em Mangaratiba, litoral fluminense, ou ainda em uma badalada estação de ski na França.

Até de seu escritório na sede da empresa, no Rio de Janeiro, a vista é admirável: o Club Med fica em um prédio comercial no bairro do Botafogo, zona sul da cidade, com vista para o Pão de Açúcar e a Praia do Botafogo. A única recorrência em sua agenda é o esporte. Pelo menos quatro vezes por semana ele pratica natação, corrida, faz musculação ou joga golfe, seu favorito e modalidade que gosta de jogar com clientes nos resorts.

Pelo menos quatro meses por ano ele passa longe do escritório. Além das visitas à Argentina e outros países sul-americanos, ele participa todos os anos das nove reuniões da diretoria global, normalmente na Europa. Pelo menos uma vez por ano ele tem de ir à matriz, em Paris, na França. Só em 2017 visitou mais de dez países e em janeiro já tem uma viagem marcada à China, nova frente de expansão do grupo. O celular o acompanha para todos os lugares. “Hoje em dia nem preciso mais de escritório”, conta.

Oportunidades

Alguns clientes do Club Med continuam frequentando o village há 25 anos. O que mais atrai os brasileiros para seus villages, na visão de Daudet, é a combinação de serviço all inclusive, em que alimentação e bebidas (inclusive alcoólicas), são liberadas o dia todo, com a pegada pró-esporte dos resorts. São 60 modalidades esportivas ao todo, entre elas tênis, vôlei, futebol, vela, bicicleta, golfe, trapézio, ski e outras – todas com professores, caso o cliente queira aprender o esporte. No ski, os equipamentos e aulas também estão no preço da diária e há equipes de monitores para crianças.

As paisagens, sempre próximos à água e com natureza ao redor são admiráveis e atraem o público endinheirado que quer fugir da cidade grande. A localização também é um ponto observado na hora de construir um novo hotel: deve estar próximo a um aeroporto internacional e acessível de carro. Outro critério é poder funcionar o ano inteiro, motivo pelo qual o sul do Brasil não deve ser um destino óbvio para um Club Med.

Mas, com a concorrência cada vez mais acirrada, o jeito é oferecer sempre novidades, seja na facilidade na hora de contratar, em que o cliente pode fazer tudo pela internet, até no perfil de acomodações. Próximo ao resort de Rio das Pedras, em Mangaratiba, no Rio de Janeiro, foi construído um espaço exclusivo de alto luxo – o La Réserve, que tem praia e serviços exclusivos e custa bem mais do que a diária normal. O cardápio também acompanha as tendências da gastronomia mundial e a agenda de atividades, como shows e festas, sempre renovada. “Temos uma rede social em que todos os funcionários da rede no mundo e onde postamos novidades e tendências. É uma ótima fonte de inspiração”, conta.

Outra aposta é no público corporativo, especialmente no village Lake Paradise, em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo. O local, onde já havia um hotel para hospedar jogadores de golfe, foi arrendado ao Club Med por 10 anos e recebeu uma boa reforma – foram quase 45 milhões de reais de investimentos. Hoje, além de atender aos padrões de luxo das outras unidades, também possui estrutura para receber centenas de pessoas para congressos, cursos ou eventos de empresas.

Um novo diretor comercial, Thiago Varalli, foi anunciado em agosto só para trazer este tipo de cliente. O outro diretor, Marco Oliva, continuará focado em atrair famílias. “É preciso alguém exclusivo porque a venda corporativa exige personalização e serviços mais rápidos e em grande quantidade”, diz Daudet. No mundo, a divisão de grupos representa 10% – os 90% restantes são vendas individuais. Na América do Sul, o mercado corporativo é um pouco maior, 20%, e no Brasil, 35%. No Lake Paradise, no entanto, deve ser a principal fonte de receita.

Apesar de sua trajetória bem-sucedida, o executivo teve uma frustração no Brasil: não conseguiu a aprovação dos órgãos ambientais para construir uma unidade em Cabo Frio e, depois de seis anos tentando, o projeto foi encerrado. Por ora, não há planos para mais resorts no Brasil. No mundo, além dos resorts de ski nos Alpes, o grupo planeja a abertura em 2019 de um novo resort em Marbella, na Espanha, e para dar a La Pointe aux Canonniers nas Ilhas Maurício e La Caravelle, em Guadalupe.

 

Fonte Oficial: Exame.

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