A tão conhecida carência de infraestrutura brasileira sempre remete ao papel do poder público em aumentar a eficiência logística do país — e esse papel é gigantesco. Mas há uma revolução tecnológica em andamento no setor, no que cabe à iniciativa privada. O comércio eletrônico mudou as expectativas de consumidores e empresas em relação à velocidade de envio. A evolução para a logística sob demanda está causando um impacto profundo no setor de frete e logística. Estima-se que, até 2050, o transporte global de mercadorias crescerá em um múltiplo de quatro.

Logitechs, as startups de logística, surgem fazendo trabalhos especializados em diferentes setores, como acompanhamento de encomendas, gerenciamento de armazéns, gestão de frota, seguros de carga e integração da cadeia no comércio exterior. Internet das Coisas, inteligência artificial, realidades virtual e aumentada, e algoritmos inteligentes são algumas das tecnologias habilitadoras dessas soluções.

“Ainda não temos um mapeamento específico para logística, mas a nossa estimativa é de que existam entre 150 e 200 startups de nossa base de dados atuando no segmento”, sinaliza Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartup). Ele destaca que o diferencial do segmento é ser diagonal a várias outras áreas.

“Logística permeia várias indústrias. As dimensões do Brasil fazem com que logística seja um mercado gigante, especialmente porque não é bem desenvolvido no país. Ainda está passando por um processo de disrupção, mas as inovações são inúmeras”, analisa Amure.


Bruno Rondani, CEO do Movimento 100 Open Startups, afirma que transporte e logística são grandes temas do 100 Open Startups, que conta com 396 startups ativas com propostas de soluções inovadoras para o setor. Várias startups estão se destacando nesse segmento.

A Loggi acaba de anunciar um round de investimento recebido de US$ 100 milhões e está criando soluções inovadoras para as entregas urbanas (last mile). A TruckPad – aplicativo que conecta o caminhoneiro à carga – está listada entre as “Top 100 Open Startups de 2018” e já ultrapassou a marca de 800 mil caminhoneiros cadastrados em sua plataforma.

Outros destaques são a Cobli (gestão de frota), a JettaCargo (otimização de espaço em caminhões) e a LocGomex (rastreamento com base em big data). “Mais perto de ser um unicórnio no setor, de fato é a Loggi, que já ultrapassou a valuation de US$ 400 milhões. A Jetta Cargo, a Logipix e a Comprovei também estão entre as ‘Top 100 open startups de 2018´ porque criaram soluções inovadoras em logística”, destaca Rondani.

Um segmento de grande potencial é o das plataformas de marketplace. Gestada desde 2012 e tendo iniciado suas operações em 2014, a TruckPad é conhecida como a “Uber dos Caminhoneiros”. A empresa foi fundada por Carlos Alberto Mira, que tem experiência de mais de 35 anos no setor de transporte como executivo de uma empresa familiar.

No processo de criação, ele teve o apoio da Endeavor e, em 2013, ganhou o Google Startup Weekend. Em 2014, passou por uma aceleração na Plug and Play, aceleradora do Vale do Silício, e, em 2015, recebeu aporte da Movile, que passou a deter 30% da empresa.

“Passamos a nos relacionar com as montadoras. A Mercedez é cliente e se tornou investidora. A ideia é de que, no futuro, os caminhões venham como o aplicativo embarcado. Também estamos fomentando uma plataforma mobile de relacionamento e soluções de business inteligence para o setor automotivo”, destaca Mira.

Taxa de ocupação e geolocalização

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Fabio Rodrigues, CEO da NovidaDivulgação/Novida

A Jetta Cargo foi criada em 2015, quando o fundador e CEO Diego Rörig identificou a baixa taxa de ocupação dos caminhões. O sistema faz planejamento e otimização de carga, mostrando, por meio de algoritmos matemáticos, qual a melhor maneira de ocupar todos os espaços do caminhão.

“O sistema também respeita todas as regras legais e restrições de peso máximo, distribuição por eixos etc. Atendemos a empresas como Mercedez e Nestlé. Somos remunerados pela implantação e por um valor mensal de acordo com o número de cargas”, explica Rörig.

A Novidá é uma startup que, por meio da união de IoT, inteligência artificial e geolocalização Indoor, monitora a movimentação de recursos (pessoas, equipamentos ou ativos). Fábio Rodrigues, CEO da Novidá, explica que os sensores são instalados nos galpões ou nas fábricas e nos ativos, permitindo apurar uma série de informações para uso gerencial.

“A localização é a base da informação, mas geramos diversas análises sobre ela: se uma atividade foi cumprida conforme o planejado, quais as rotas mais eficientes, alertas sobre posicionamento, vida útil dos ativos com prazo de validade. O foco é o supply chain 4.0 da porta para dentro de empresas como Gerdau, Boticário, Fiat”, explica Rodrigues.

A Mandaê é uma plataforma logística – fundada em 2014 por Marcelo Fujimoto –, que agrupa um número de transportadoras parceiras e junta um volume alto de encomendas para o mesmo lugar, conseguindo, assim, negociar um custo menor e um frete melhor. O modelo é de economia compartilhada.

“Até maio de 2018, a Mandaê atraiu cerca de R$ 50 milhões em investimentos de IFC, UPS Strategic Enterprise Fund, Mercado Libre Fund, Tekton Ventures, FJ Labs, Icon Holding Company, Monashees, Qualcomm Ventures, Performa Investimentos, Valor Capital e Kima Ventures, entre outros investidores”, diz Felipe Galheigo, coordenador de Logística da Mandaê.

Roteirizador e gestor de frotas

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Vinícius Cicarelli, CEO da ShyreDivulgação/Shyre

Por meio de recursos de IoT, a Clobi conecta informações dos veículos e do modo de condução do motorista. Rodrigo Mourad, diretor executivo da Cobli, explica que a ferramenta realiza gestão de frotas integrada a sistemas de logística. “Temos mais de 600 empresas clientes com os mais diversos tipos de ativos: balsas, automóveis, empilhadeiras, trens, tratores, tudo o que se move para uso comercial”, esclarece Mourad.

A Shyre iniciou as atividades em 2016, para fazer otimização de roteiros para indústrias e empresas que têm equipes de campo. Outro serviço é a análise de business inteligence a partir de dados coletados no campo. Vinícius Cicarelli, CEO, da Shyre, explica que os vendedores ou os técnicos têm um aplicativo com formulários que a empresa pode criar de acordo com seus interesses. A empresa também vem conectando e-commerces a prestadores de serviços logísticos. A ideia é apresentar as três melhores opções de frete para o consumidor final.

A Flex Interativa é uma agência de digital experience focada em comunicação com interatividade, com uso das realidades virtual, aumentada e mista e projeção mapeada. Entre os clientes, estão empresas como Postos Ipiranga, Grow, Novartis, Dow Química e Polishop — cujo presidente, João Appolinário, se tornou acionista da startup.

“Na área de logística, temos um piloto com a Store Automação, desenvolvedora de software de gerenciamento de armazéns. No processo de separação de mercadorias, o operador, com óculos de RA da Microsoft, simplesmente toca nas imagens no ar observando o tipo de produto e as quantidades”, explica Marcelo Rodiño, sócio e diretor de criação da Flex Interativa.

Grandes empresas incorporam inovações

Grandes empresas também estão incorporando inovações. A Modern Logistics tem como diferencial uma frota de aviões e serviços customizados. O fundador e CEO Gerald Blake Lee – um dos fundadores da Azul e vice-presidente da JetBlue – explica que a empresa atua numa perspectiva diferente das empresas logísticas tradicionais.

“Quando a empresa investe na otimização de armazéns, economiza minutos ou horas, mas o que adianta se demora 25 dias para os produtos chegarem ao armazém? Ajudamos as empresas a chegar a locais onde os operadores normais não chegam, por meio de nossa frota própria de quatro aviões e do uso de tecnologia”, distingue Lee.

Outra grande empresa com uso intensivo de tecnologia na área de logística é a Ticket Log. Jean-Urbain Hubau, diretor-geral de frota e soluções de mobilidade da Edenred Brasil – divisão que engloba as marcas Ticket Log (soluções para mercado urbano) e Repom (soluções para o mercado rodoviário) –, informa que a empresa tem programas para startups.

“Fazemos muito investimento em startups, por meio de parcerias, programas de aceleração, e do nosso próprio fundo de venture capital: Edenred Capital, que já investiu em startups da Europa e dos EUA. Estamos olhando oportunidades no México e no Brasil. Fizemos um programa que recebeu 300 inscrições, selecionamos 25 e finalizamos o programa com cinco startups com soluções para o nosso negócio que é de tecnologia e serviços”, justifica Hubau.

A CanalComex é uma plataforma criada pela softwarehouse GoldSoft, que conecta operadores logísticos, importadores e exportadores, e une gestão e comunicação no processo logístico. Para agentes de carga, transportadoras e despachantes aduaneiros, a utilização do CanalComex é gratuita.

“Hoje muitos processos de cotação, contratação e gestão das etapas de um frete internacional são manuais. A ideia é colocar toda a cadeia em um único ambiente, um sistema completo de gestão do processo logístico de importação e exportação”, explica Ronaldo Tadeu de Lima, CEO do CanalComex.

Entregas

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Bicicletas especiais da Pedivela levam até 150 kg de cargaDivulgação/Pedivela

A Melhor Envio é uma startup gaúcha criada em 2015, que atua como um Trivago ou Decolar do frete. Em 2016, a empresa recebeu um aporte de R$ 150 mil da ACE, que acelerou a empresa. Em 2017, recebeu investimento de R$ 500 mil da Bossa Nova. Hoje a empresa tem mais de 35 mil lojas cadastradas e já intermediou mais de 450 mil envios, transacionando assim mais de R$ 11 milhões em entregas.

“A plataforma não cobra mensalidades, e o frete é sempre mais barato. Isso é possível devido a contratos de grande volume que a empresa firma com transportadoras”, explica Eder Medeiros, CEO da Melhor Envio.

A Pedivela surgiu de uma ideia de Rafael Darrouy, que, em 2013, foi atropelado ao andar de bicicleta, hábito que trouxe de sua vivência no Canadá. Em função do acidente, tornou-se um ativista de mobilidade. Percebeu que a cidade estava fechada para automóveis e teve a ideia de substituir caminhões por bicicletas especiais, capazes de suportar 150 kg de carga.

“Éramos pouco competitivos. Então, nos tornamos uma empresa de tecnologia por meio de um aplicativo que conecta ciclistas a transportadoras e roteiriza a entrega de forma mais inteligente no last mile. Uma bike consegue fazer 150 entregas por dia. Alugamos a bike por R$ 10 por dia. Hoje nosso serviço já é entre 20% e 30% mais barato do que pequenos veículos de carga”, explica Darrouy.

Fundada em 2017, a Mutuus é uma insurtech especializada em seguros de cargas. A empresa foi acelerada no Google, recebeu aporte da Fisher e está em meio a uma rodada de captação. Fernanda Angeloni, sócia e CMO da Mutuus, explica que, quando a carga sai, precisa ter um seguro. A empresa atua na retaguarda, como uma corretora online que opera com as maiores seguradoras e em parceira com cinco delas.

“Hoje toda a análise do nosso banco de dados usa recursos de inteligência artificial, que vem nos ajudando a atender melhor o cliente”, diz Fernanda.

Fonte Oficial: Gazeta do Povo

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