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Em momentos de crise, ressurge uma velha questão nos debates políticos e na mídia: se há poucos recursos, deveria haver prioridade para o financiamento em pesquisa básica ou aplicada? Normalmente entendia-se a “pesquisa básica” como sendo aquela que traria algum novo conhecimento sobre o funcionamento do mundo físico, dos seres vivos ou do comportamento humano em sociedade. Ou seja, não há uma aplicação imediata; o resultado buscado seria circunscrever um conceito que ainda não havia sido explorado.

A partir desse nível haveria a possibilidade, em “pesquisas aplicadas”, de se chegar a conhecimentos introduzidos no mercado, aplicados nos hospitais, na agropecuária, nos meios de transporte ou de comunicação, de defesa, na produção de conteúdos informativos e culturais.

Como é bastante claro para os profissionais especialistas que trabalham com Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), não há como deixar de lado a primeira etapa para focar os recursos apenas naquela cuja performance econômica já pode ser vislumbrada. Não seria possível dizer de antemão nos anos 1960 como a pesquisa básica em micropartículas, por exemplo, viria gerar alguma nova tecnologia viável, nem mesmo se isso ocorreria um dia.

No entanto, foi graças ao conhecimento acumulado em física quântica que se anuncia a próxima geração de supercomputadores operando com nanopartículas. É evidente que as redes de fibras óticas, transmissão de satélites, tratamentos de saúde radioterápicos, trens maglev, telas sensíveis ao toque, todos realizações muito concretas, só foram possíveis graças às pesquisas básicas que os antecederam.

De acordo com pesquisa da UNESCO, o órgão das ONU para educação, com dados comparativos disponíveis de 2014, o Brasil até aquela data estava numa posição relativamente consistente no seu investimento em P&D, ocupando o 9º lugar mundial, à frente de Rússia, Itália, Canadá, Austrália, Espanha e Holanda. Especialistas entendem que desde então devemos ter perdido posições, o que será detectável apenas em novos levantamentos.

De qualquer forma, esse era o dado bruto, de um país extenso e populoso, e não nos saíamos tão bem se ele fosse tomado como porcentagem do PIB, a soma das riquezas do país. O que continuava notável nessas estatísticas era a participação irrisória da iniciativa privada em pesquisa, cabendo quase a totalidade dos recursos a investimentos estatais.

Na ponta dos investimentos globais estão, pela ordem, Estados Unidos, China, Japão e Alemanha, não por acaso os quatro países mais ricos do mundo, seguidos pela Coreia do Sul, cuja ênfase em ciência tem sido notável. Em nenhum desses lugares se discute mais a importância da P&D, e, ainda, nem passa pela cabeça dos formuladores de políticas científicas a dúvida entre privilegiar a pesquisa “básica” ou “aplicada”. O conceito de impacto, o resultado do investimento, é hoje considerado mais importante, e tende a diluir essa divisão considerada arbitrária e disfuncional.

No Brasil, onde o financiamento da pesquisa está mais uma vez colocado em cheque, o que faz com que emerja novamente essa discussão anacrônica, devemos nos posicionar com clareza: cortar as verbas daquilo que por vezes é chamado de “ciência básica” e esperar mesmo assim o desenvolvimento de tecnologias pela “ciência aplicada” é como querer construir uma casa que flutuasse no ar sem alicerces.

*Por Arie Halpern, economista e empreendedor em projetos de tecnologia disruptiva, é CEO da irlandesa Tonisity.

Fonte Oficial: IT Forum 365

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