Paul Chou estava entre os muitos aficionados do bitcoin que pensavam que grandes instituições de Wall Street estavam prestes a aderir aos mercados de criptomoedas. Chou veio de uma dessas instituições, o Goldman Sachs, e criou uma casa de câmbio de criptomoedas, a LedgerX, que atenderia grandes investidores com contratos financeiros sofisticados.

Essa é sua matéria grátis do dia. Assine agora e tenha acesso ilimitado.R$ 0,99 no 1º mês

Agora, após a queda do bitcoin no ano passado, Chou está sendo forçado a confrontar o fato de que poucas das grandes empresas de finanças puseram em ação seus planos de criptomoedas.

“Certamente, o plano original era que as instituições seriam uma grande parte desse mercado. Estávamos errados”, disse ele.

Adiamentos e desistências

O Goldman Sachs disse que estava abrindo uma operação de negociação de bitcoin para atender seus clientes. Um ano depois, com o pouco interesse, o banco não recebeu aprovação regulatória para comprar e deter bitcoins reais para os clientes, de acordo com uma pessoa familiarizada com a operação, que não foi autorizada a comentá-la publicamente e falou sob a condição de anonimato.

A empresa-mãe da Bolsa de Valores de Nova York foi forçada a atrasar a abertura de operações de troca de criptomoedas anunciada no ano passado, e ainda não há sinais de quando receberá a aprovação necessária dos reguladores. Não houve comentários.

E o Chicago Board Options Exchange disse em março que pararia de oferecer um contrato de negociação de bitcoins, que começou com grande alarde no fim de 2017.

Os esforços vacilantes de grandes grupos financeiros são parte de uma contenção na indústria de criptomoedas, após a crise do ano passado, quando o preço de um único bitcoin caiu de quase US$ 20 mil para cerca de US$ 4 mil. Assim permaneceu por meses, mas teve uma alta inesperada no início de abril, passando brevemente dos US$ 5 mil.

Alguns entusiastas de criptomoedas esperavam que a entrada das instituições de Wall Street lhes daria legitimidade junto aos investidores tradicionais. Mas suas lutas – e o interesse minguante – ilustram a dificuldade em trazer o bitcoin da internet para o mundo financeiro.

“O dinheiro inteligente sabe que as criptomoedas não estão prontas”, disse Ciaran Murray, negociador em Londres.

Murray tentou criar um fundo de hedge focado em tokens digitais, mas percebeu que, quando os investidores analisavam a tecnologia, acabavam desanimando. “Uma vez que você fica sabendo dos detalhes, acaba desistindo”, disse ele.

Problemas passageiros?

Murray e outros adeptos das criptomoedas têm certeza de que os problemas não são um golpe mortal para o bitcoin e a tecnologia que ele introduziu. Chou, por exemplo, está reequipando a LedgerX e solicitando aprovação regulamentar para iniciar negociações para pequenos investidores, cujo interesse em criptomoedas ainda se mantém.

E as grandes empresas não se afastaram completamente. O Goldman e a empresa-mãe da bolsa de Nova York, a Intercontinental Exchange, estão avançando com suas operações de negociação de criptomoedas, apesar do interesse morno dos clientes. A empresa gerenciadora de ativos Fidelity começou recentemente a trabalhar com um pequeno número de grandes clientes que desejam adquiri-las.

No Vale do Silício, Jack Dorsey, executivo-chefe do Twitter e da empresa de pagamentos on-line Square, anunciou em março que estava pensando em contratar três ou quatro desenvolvedores de bitcoin. Ele comparou a tecnologia ao início da internet, tanto em seus problemas quanto em seu potencial.

Mesmo neste “criptoinverno”, como alguns o estão chamando, o baixo preço do bitcoin ainda é quatro vezes maior do que era em um pico de 2013, antes de uma queda anterior.

Mas poucas das ambições mais práticas em relação ao bitcoin e outras criptomoedas foram realizadas, e ainda pode ser difícil determinar o que é real e o que não é real em torno de tokens digitais.

Uma empresa americana que procura criar fundos de investimento com bitcoins, a Bitwise Asset Management, disse recentemente que tinha determinado que 95 por cento da atividade de negociação relatada de trocas de bitcoin em todo o mundo eram falsos.

Estrutura dificulta o controle do bitcoin

A estrutura do bitcoin dificulta o controle. Tudo é contabilizado em um ledger descentralizado, conhecido como blockchain, que não é controlado por instituições. Qualquer um pode ter acesso a ele, o que dá passe livre para más intenções.

Os reguladores não aprovaram produtos de investimento vinculados ao bitcoin devido à probabilidade de que os preços estejam sendo manipulados. Mas as negociações nas quais os investidores podem apostar nas alterações de preços do bitcoin por meio de contratos futuros, sem ter de possuir a moeda, foram aprovadas.

A Chicago Mercantile Exchange introduziu um contrato futuro de bitcoins que foi moderadamente bem entre os negociadores. Mesmo assim, o mercado ainda é tão pequeno que a concorrente da CME, a Chicago Board Options Exchange, disse recentemente que pararia de emitir seu próprio contrato futuro de bitcoins.

Muitos observadores do mercado disseram que, para que o bitcoin se fortaleça entre grandes investidores, estes precisarão ser capazes de comprar e reter bitcoins reais.

A Intercontinental Exchange tinha dito inicialmente que esperava abrir seu câmbio de criptomoedas, a Bakkt, no fim do ano passado, possibilitando que investidores acabassem possuindo os bitcoins que compravam. O Goldman Sachs também disse no ano passado que esperava permitir que seus clientes comprassem e detivessem bitcoins.

Os esforços da Bakkt e do Goldman Sachs ainda não deram frutos por causa do questionamento dos reguladores sobre como as instituições controlariam a posse da criptomoeda para os clientes. A Bakkt e o Goldman Sachs se recusaram a comentar sobre os atrasos. As dificuldades da primeira foram recentemente detalhadas no “The Wall Street Journal”.

Para a maioria dos investimentos tradicionais, como ações ou títulos, existem métodos claramente estabelecidos para proteger as contas dos clientes. Mas a maneira como o bitcoin foi desenvolvido significa que, se um deles é roubado de uma carteira, onde os tokens digitais são armazenados, é difícil recuperá-lo.

Esse já foi um grande problema para muitas negociações de bitcoins, que passaram por roubos e perdas incapacitantes.

“Há muita coisa nova sendo verificada e os reguladores precisam ser eficazes, não apenas rápidos”, disse Thomas Chippas, executivo-chefe de outro sistema de câmbio que espera poder atender grandes investidores, o ErisX, também aguardando decisão dos reguladores.

Mesmo que as autoridades se sintam confortáveis com os acordos de segurança nas trocas de bitcoins, há a questão da aplicação que este e outros tokens digitais podem ter além da especulação.

Muitos entusiastas argumentaram que a criptomoeda original é útil para armazenar valor fora do controle de governos ou instituições, como se fosse uma versão digital do ouro. Mas essa narrativa foi posta à prova conforme o valor do bitcoin variava. E outros usos, como pagar por compras on-line, não decolaram.

“Acho que vão se passar muitos anos antes que esteja pronto para o uso não especulativo. Até agora, só há gente comprando e esperando que suba. Acho que isso não vai acabar em três ou quatro anos”, afirmou Murray.

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Fonte Oficial: Gazeta do Povo

Comentários/Comments

Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do VIP CEO.