Uma bandeja de milho no México pode conter uma profusão de cores digna de uma aquarela de Frida Kahlo, a pintora que se tornou ícone pop e símbolo de mulher independente, à frente de seu tempo. Os grãos coloridos são também um bom material para olhar pelo retrovisor da história e tentar compreender as contradições da agricultura no México contemporâneo.

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Numa terra de pequenos agricultores e média de produtividade muito baixa, é proibido plantar transgênicos, mas a indústria adota de forma indiscriminada o milho modificado geneticamente vindo de outros países, seja para consumo humano ou para ração animal. A proibição do cultivo dos transgênicos ocorre, segundo Arturo Hinojosa, diretor do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (Cimmyt), em Texcoco, “por que somos o país da origem do milho e de sua diversidade genética”.

“É possível afirmar que 99% das variedades mundiais são originárias daqui. O milho é muito promíscuo e pode se contaminar facilmente. Para muitas enfermidades, como a mancha asfáltica (rizoctoniose), a vacina virá da pesquisa deste banco de genética preservado no México”, assegura o pesquisador. No banco do Cimmyt estão guardadas 28 mil variedades únicas de milho e 150 mil de trigo.

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Estátua do prêmio Nobel da Paz Norman Borlaug em frente ao prédio-sede do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo, em Texcoco, México

Hinojosa dirige um centro científico que, como nenhum outro, tem história no combate à fome mundial. Foi no Cimmyt, nos anos 60, que o cientista americano Norman Borlaug fez trabalhos de melhoramento genético para alcançar variedades de trigo e milho de alta produtividade e mais resistentes a secas, pragas e doenças. Suas descobertas pioneiras triplicaram a produtividade média de trigo na Índia e no Paquistão, evitando que milhões de pessoas morressem de fome. Considerado o pai da Revolução Verde, Borlaug ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1970 e tem uma estátua na entrada do Cimmyt, em Texcoco, a uma hora de carro da Cidade do México.

Em honra ao
espírito revolucionário de Borlaug, Hinojosa acredita que o Cimmyt tem diante
de si outro desafio instigante. “Dos anos 90 até 2010, a produtividade do milho
cresceu 38%, enquanto o consumo aumentou 77%. Até 2050, para satisfazer a
demanda global do cultivo mais importante do mundo, que é o milho, teremos de
duplicar a produção ou iremos sofrer. As práticas de melhoramento são
necessárias, são as mais eficientes e geram materiais mais rapidamente
adaptados às mudanças climáticas e ao estresse do calor nas cultivares”,
assegura.

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Variedade “cacahuacintle” de milho branco.
| Cimmyt

A proposta do Cimmyt é espalhar pelos países mais pobres variedades de milho que tenham um bom rendimento, mesmo em situações de manejo e práticas agronômicas distantes do ideal. “Nossos produtos são tão bons que as empresas de sementes têm substituído seus híbridos por nossas cultivares. Estamos substituindo variedades que estavam há 20 ou 30 anos no mercado”, pontua.

Micro propriedades                                                          

Em relação ao mercado doméstico mexicano, deficitário em 16 milhões de toneladas, qualquer solução que busque aumento de produtividade tem de se adaptar a uma realidade fundiária sui generis. A reforma agrária advinda da Revolução Mexicana liderada por Emiliano Zapata, no início do século XX, espalhou pelo país milhões de propriedades de apenas 5 hectares. Na região de San Salvador El Seco, por exemplo, devido aos problemas climáticos os pequenos produtores que cultivam nas montanhas obtiveram apenas 1,5 tonelada de milho por hectare no último ciclo de verão. No país, a média foi de 3,3 toneladas. Em contraste, no Paraná, por exemplo, a média foi de 8,7 toneladas por hectare.

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Variedade de milho de cor cultivada por pequenos produtores de Puebla.| Marcos Tosi

Em um mundo que exige altas produtividades e trata o milho como commodity, busca-se uma fórmula que preserve e fortaleça os pequenos produtores mexicanos. O governo anunciou um programa de preços mínimos de garantia para grãos como milho, trigo, arroz e feijão. “Vamos pagar um preço acima da cotação de mercado. Com isso, esperamos que regiões que estavam abandonadas voltem a produzir. Mas teremos o cuidado de verificar que o preço de garantia esteja vinculado a outros programas, que aumentem a produtividade”, assegura Juvenal Castorena, diretor da Agência de Serviços de Apoio à Comercialização do Ministério da Agricultura do México. “Com esse programa, nossa intenção é aumentar a produção em 20% nos próximos três anos”, completa.

Para o líder de produtores de milho do estado mexicano de Veracruz, José Ángel Contreras Carrera, o governo ataca o problema de forma errada. “Isso é dar peixe, nós queremos a vara de pesca. Se amanhã acabar esse programa, o que vai acontecer?”. Carrera defende investimentos para financiar a produção. “Veracruz tem um terço das terras irrigáveis no país, mas não irriga. Poderíamos incorporar um milhão de hectares ao cultivo, mas precisamos de infraestrutura e de capacitação. Hoje, 45% de nossa comida vem do exterior. É uma questão de segurança alimentar”.

Hinojosa, do
Cimmyt, aposta num remapeamento da produção doméstica de milho para fortalecer
os pequenos produtores. Existem dois mercados de milho no país. O amarelo, para
ração animal, e o branco, para consumo humano. O México é autossuficiente em
milho branco (que inclui as variedades coloridas). Produz 20 milhões de
toneladas e consome 17 milhões na forma de tortillas, burritos e enchilladas. Todo
o déficit de 16 milhões de toneladas está no milho amarelo, usado para
alimentar aves, suínos e bovinos.

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Engenheiro-agrônomo José Ángel Contreras Carrera: pequenos produtores precisam de infraestrutura e capacitação e não de preços mínimos.
| Marcos Tosi

“Podemos aumentar a produção em 5 milhões de toneladas simplesmente trocando o produto que os agricultores semeiam hoje. Estamos buscando fazer a conversão das áreas do Norte, que é mais industrial e desenvolvido, para o milho amarelo. Muitos produtores de lá não entendem que o milho amarelo pode produzir mais que o branco, porque sempre se fez melhoramento para o branco. E o Sul ficaria especializado no milho branco (colorido), muito demandado pelos chefs de restaurantes nos EUA e na Europa, por que têm sabor, cor e textura muito diferentes do que estamos acostumados. O excesso de produção desses pequenos produtores alcançaria um valor agregado nos mercados internacionais”, assegura Hinojosa. “É preciso armar um círculo virtuoso. Creio que num mundo globalizado nunca vamos parar de importar milho amarelo, mas podemos diminuir isso e chegar a um equilíbrio mais benéfico para o México”.

Mágico

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Efraín García Bello lidera um grupo de 12 mil pequenos agricultores em Puebla, região central do | Marcos Tosi

“‘El maíz, para os mexicanos, é mágico, conduz as nossas vidas e se amolda às nossas necessidades”, diz Efraín García Bello, agricultor da região de Puebla que durante 14 anos foi presidente da Associação Nacional dos Produtores de Milho. Para Bello, os milhos amarelo e branco não podem ser tratados como commodities iguais. “Desgraçadamente, as cotações do milho branco não são diferenciadas do amarelo na Bolsa de Chicago. Mas quando nos falta e precisamos importar dos Estados Unidos, daí eles nos cobram mais caro pela tonelada do milho branco”, queixa-se. Bello lidera um grupo de 12 mil pequenos produtores “farinheiros” da região San Salvador El Seco, que produzem milho branco e multicolorido padrão “exportação”.

A realidade
é que o mercado local, em Puebla, já paga quase o dobro pelo milho branco: 6500
pesos a tonelada contra 3900 pesos da cotação em Chicago. Menos mal, diz Bello.
O produtor entende que o México é, sim, um país “originário” e, como tal, tem o
papel de ser guardião da biodiversidade do milho. Mas isso, segundo ele, não
deveria impedir o cultivo de variedades transgênicas mais ao norte do País,
onde estão fazendas maiores. “Em Tamaulipas, na fronteira com os Estados
Unidos, do outro lado do rio é possível ver plantações verdes e livres de ervas
daninhas. Por que não nos permitem plantar transgênico? É um dos poucos países
do mundo que permitem o uso de transgênico na alimentação humana e do gado, mas
não deixam plantar”.

Quando foi
dirigente nacional dos “maizeros”, Bello implantou um sistema de consórcio de
maquinários entre pequenos produtores, adquiridos com subsídios do governo. Como
os subsídios não foram renovados, as máquinas envelheceram e o consórcio
acabou. “Falta-nos reconhecimento e representação política”, diz. “Veja o caso
dos produtores de cana-de-açúcar, que são 270 mil no país e conseguiram criar
uma comissão da cana no Congresso e ainda têm representação de deputados e
senadores. Nós somos 3,3 milhões de produtores de milho. E não temos sequer um representante
no Parlamento”, lamenta.

Fonte Oficial: Gazeta do Povo

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