Uma das aeronaves da Gulfstream, que fizeram os primeiros voos neutros em emissão de carbono
(foto: Gulfstream/Divulgação)

São Paulo – A aviação vem buscando acelerar os investimentos em soluções que aumentem a segurança, reduzam custos, melhorem a experiência do passageiro e poluam menos. Essas apostas podem passar por muitos aportes em novas tecnologias ou por soluções bem mais simples, como a busca de um fornecedor que possa entregar alimentos mais frescos para as refeições oferecidas a bordo.

 

Nesta semana, em Las Vegas (Estados Unidos), ocorre a feira de aviação executiva NBAA-BACE 2019 (sigla para Convenção e Exposição de Aviação Executiva, promovida pela Associação Nacional de Aviação Executiva), apontada como o maior evento para esse segmento no mundo. Os visitantes – tanto aqueles com alto poder aquisitivo, quanto empresas que precisam dos jatos para o deslocamento de seus executivos – não estão em busca apenas de aeronaves que ofereçam confortáveis poltronas de couro ou outros acabamentos de luxo. Neste ano, uma outra preocupação ganhou força: a questão ambiental.

 

Representantes da NBAA e da Associação Geral de Fabricantes de Aviação (Gama) anunciaram ontem que vão promover, no início de 2020, em Washington (EUA), encontro com o objetivo de acelerar a disponibilidade e o uso de SAFs (sigla em inglês para combustíveis sustentáveis de aviação).

 

Batizado de Cúpula Global de Sustentabilidade da Aviação Executiva, o evento está programado para março do ano que vem. “A aviação executiva faz da sustentabilidade uma prioridade, e fizemos progressos tangíveis”, declarou, por meio de nota, o presidente e CEO da NBAA, Ed Bolen. “Na última década, redobramos nosso compromisso de reduzir a já pequena pegada de carbono do setor, e a chave disso tem sido o desenvolvimento e o uso de combustíveis sustentáveis. Esta cúpula marca o próximo passo para se concentrar em como acelerar a adoção e o uso de combustíveis.”

 

Para Pete Bunce, presidente e CEO da Gama, a cúpula servirá como oportunidade de reunir as partes interessadas para identificar formas de aumentar o uso dos SAFs.

DESAFIOS AMBIENTAIS Presidente da Associação Europeia de Aviação Comercial (EBAA, na sigla em inglês), Juergen Wiese acredita que os combustíveis de origem sustentável vão ganhar espaço. “O SAF é a principal solução para nossos desafios ambientais. Junto com outros meios de redução de emissões, o uso de combustíveis será essencial para atender às metas ambientais de nossa indústria.”

 

Esse movimento para reduzir a pegada de carbono do setor tem atraído diferentes entidades. O Conselho Internacional de Aviação Comercial (Ibac, na sigla em inglês) também faz parte das discussões. Segundo seu diretor-geral, Kurt Edwards, a aviação executiva alcançará sua meta global de redução de emissões de carbono a longo prazo, por meio de um modelo de atuação que vai englobar tecnologia, melhorias operacionais e uma medida global baseada no mercado.

 

“O combustível da aviação sustentável estará entre as tecnologias mais críticas para nos ajudar a atingir a meta. A tecnologia está comprovada. Agora, é a hora de governos e indústria aumentarem significativamente os esforços para incentivar a produção e o uso do SAF”, declarou Edwards, durante a divulgação da cúpula de 2020. “Continuamos a instar os governos de todos os níveis a implementar políticas de incentivo positivo, para facilitar uma maior produção de combustíveis sustentáveis para a aviação.”

EMBRAER A brasileira Embraer tem condições de se posicionar bem nessa nova tendência para o setor de aviões executivos. A empresa foi a primeira a produzir um modelo de pequeno porte, voltado à agricultura, movido a etanol, batizado de Ipanema. Em agosto, a fabricante divulgou as imagens do protótipo de uma aeronave com tecnologia de propulsão 100% elétrica, baseada no EMB-203 Ipanema. A expectativa é que o avião, desenvolvido em parceria com a catarinense Weg, faça um voo de demonstração no próximo ano.

 

Nesse mercado, já há aeronaves que utilizam, por exemplo, óleo de cozinha em seus tanques. Cinco jatos da Gulfstream (GD.N) expostos em Las Vegas estão usando combustível produzido na Califórnia, a partir de gordura não comestível. Os mais recentes combustíveis à base desses resíduos incluem gorduras, graxas e óleos, que são subprodutos da indústria de alimentos. Uma das empresas produtoras de biocombustível é a americana World Energy, de Boston, que fornece o combustível a partir de resíduos de carne, usado pela Gulfstream.

 

Além disso, a Gulfstream Aerospace anunciou, no último domingo, que os modelos Gulfstream G650ER, Gulfstream G600, Gulfstream G500, Gulfstream G550 e Gulfstream G280 fizeram os primeiros voos neutros em emissão de carbono da fabricante. O voo foi entre Savannah e o Henderson Executive Airport, perto de Las Vegas, para a participação na NBAA-BACE. Os cinco voos foram feitos usando uma combinação de combustível de aviação sustentável (SAF) e compensações de carbono.

 

Os jatos particulares não são os vilões quando o assunto é poluição – ao menos aparentemente. Eles representam menos de 0,1% do total anual de emissões de carbono em todo o mundo. No entanto, essas aeronaves podem emitir, em média, até 20 vezes mais emissões de carbono por passageiro-milha do que os aviões a jato, segundo a consultoria Fly Victor, de Londres.

DESAFIO Para as operadoras de jatos executivos, como as companhias aéreas, não se trata apenas de um desejo de ter uma atividade menos poluente, mas a necessidade de cumprir um compromisso feito pelo setor aéreo como um todo, de reduzir pela metade as emissões de carbono até 2050, em comparação com 2005.

 

Para os ambientalistas e mesmo alguns analistas, ainda há muita desconfiança sobre a evolução do uso dos SAFs. O que serve hoje para o abastecimento das aeronaves, na maioria dos casos, é uma mistura 50-50 com querosene. Há quem garanta que a oferta de SAFs ainda é muito pequena para atender a uma demanda com potencial de crescimento.

O voo mais longo da história: 19 horas e 16 minutos

No último domingo (20), pousou em Sydney, na Austrália, procedente de Nova York, o voo mais longo e sem escalas da história. A viagem do QF7879, ainda experimental, feita pela companhia aérea Qantas, durou 19h16min e foi para um grupo pré-selecionado pela empresa, de 49 pessoas – a maioria era de funcionários da empresa.

 

Também estavam no Boeing 787-9 profissionais de saúde, que tinham como tarefa monitorar os efeitos no corpo humano de voo tão longo. Cientistas de duas universidades australianas acompanharam a viagem para observar como os passageiros dormiam e se alimentavam, além de controlar o nível de melatonina, o conhecido hormônio do sono.

 

Como o grupo era pequeno, todos se acomodaram nas poltronas espaçosas da classe executiva. Os passageiros foram orientados a tentar acostumar o corpo ao fuso horário australiano e puderam, assim como fez a tripulação, fazer alguns alongamentos durante o percurso, para minimizar o cansaço. Para estimulá-los a driblar o sono até que chegasse o momento do ajuste ao fuso de Sydney, foram usados recursos como luzes acesas, cafeína e até comida apimentada.

ALERTA COM A SAÚDE Os pilotos tiveram sensores instalados em seu corpo para medir a atividade cerebral e o estado de alerta. A Associação de Pilotos Australianos e Internacionais (AIPA) está atenta à evolução do plano da Qantas e pediu um estudo sobre os efeitos desse tipo de voo na tripulação no longo prazo. A companhia aérea declarou que os voos experimentais são apenas um dos aspectos da pesquisa sobre a viabilidade das viagens ultralongas.

 

O voo entre Nova York e Sydney foi o primeiro de três que servirão para que a empresa australiana avalie a viabilidade das viagens ultralongas, para a criação de linhas comerciais regulares. Já está definido que a Qantas vai testar esse tipo de viagem entre Londres e Sydney.

 

O CEO da Qantas, Alan Joyce, comemorou a execução da viagem ultralonga. “É o primeiro de três voos experimentais, com os quais veremos que recomendações podem ser feitas sobre como administrar o cansaço dos pilotos, assim como a questão do fuso horário para os passageiros”, declarou, assim que desembarcou em território australiano. “Depois de 19 horas neste voo, acho que fomos bem. Tenho a impressão de estava em um voo muito mais curto que este”, completou.

NO TANQUE Em um voo como esse, além do cansaço da equipe e dos passageiros, há o desafio do combustível. No caso do Boeing 787-9, que decolou na sexta-feira à noite do aeroporto JF Kennedy, o peso transportado foi reduzido, o que permitiu o embarque de uma quantidade suficiente de combustível para os 16 mil quilômetros de trajeto.

 

Segundo o site especializado flightradar24.com, o avião decolou com o peso de 233 toneladas. Desse total, 101 toneladas eram apenas de combustível. A operação foi muito bem calculada. Os quatro pilotos a bordo se revezaram em sistema de turnos.

Fonte Oficial: EM.

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