Ele se tornou conhecido do grande público como o “aspira” Mathias em Tropa de Elite de José Padilha, contracenando ao lado do ator Caio Junqueira, morto recentemente em um acidente de carro aos 42 anos. Nascido na Vila Kennedy, no Rio de Janeiro, o ator André Ramiro também é rapper e foi porteiro de cinema do Shopping Fashion Mall. Foi lá que entrou em contato pela primeira vez com o cinema argentino. Hoje, 14 de fevereiro, Ramiro estreia nas telonas na comédia As Ineses, produção argentina com direção de Pablo José Meza.

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No longa, o ator vive Ramon, um brasileiro vivendo na Argentina que se vê em um dilema quando nasce a sua filha no mesmo dia em que a filha de outro casal. Os pais recebem seus bebês e percebem que suas filhas parecem ter sido trocadas por engano após o parto.

Andre Ramiro e o elenco de As Ineses em cena (Foto: Divulgação)

Confira a entrevista exclusiva de André Ramiro para a GQ, que fala do novo filme, religião, racismo e diz achar importante se posicionar politicamente como artista. “O racismo no Brasil é hipócrita”.

GQ: Como a carreira de ator entrou em sua vida?

André Ramiro: Sou Rapper e na época participava de batalhas de mc’s, na tradicional Batalha do Real, na Lapa aqui no Rio de Janeiro, onde conheci João velho e nos tornamos amigos. Lembro que ele tinha feito testes pro Tropa de Elite, quando perguntaram pra ele se conhecia atores ou pessoas do meu perfil. Ele deu meu telefone, me ligaram mesmo sabendo que até então eu não era ator e me chamaram pra fazer um teste. A partir daí, minha vida deu um 180 e aqui estou. Graças a Deus, João Velho, Fátima Toledo e José Padilha. Descobri que tinha talento para essa profissão que amo! Gratidão a todos! 

GQ: Você se sente mais MC ou mais ator?

André Ramiro: Sou um artista. Um serviçal da arte.

GQ: Se fosse criar um rap hoje, sobre o que você falaria?

André Ramiro: Como em todas as minhas músicas, sobre o tema mais importante pra humanidade há milênios. Sobre o Amor e empatia ao próximo de todas as maneiras variáveis.

GQ: Como surgiu o convite para participar do filme As Ineses? Já tinha proximidade com o cinema argentino?

André Ramiro: Sempre fui um admirador do cinema argentino como muitos aqui no Brasil. Meu primeiro contato foi quando era porteiro de cinema e comecei a assistir filmes internacionais inclusive os argentinos, como por exemplo: O Filho de Noiva, com Ricardo Darín, Norma Aleandro e outros grandes atores argentinos. Fiquei encantado em como o cinema argentino aborda nas telas a vida e os conflitos do cidadão comum. A indicação foi da Cubo filmes, coprodutora do filme As Ineses, com a produtora Argentina Cinematres. Pablo José Meza gostou da indicação e já conhecia meu trabalho, a partir daí surgiu o convite.

GQ: Você já tinha feito comédia antes? Como foi?

André Ramiro: Em grande parte dos trabalhos que faço sou chamado pra fazer personagens fortes e intensos por terem como referência o Tropa de Elite. Já participei de vários processos e estudos sobre comédia e humor ao longo da minha carreira. Mas de fato, até então, não tinha tido a oportunidade fazer algum tipo de trabalho considerado como comédia. Em 2018 fiz o Dj Dom Pepe no espetáculo musical Dancin Days com direção de Deborah Colker, texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade. Mais um trabalho em que tive a oportunidade de explorar o humor em minha carreira e fui bem-sucedido. O que me encanta nessa carreira é o desafio em me superar, compor e explorar lugares que até então não experimentei. Os desafios são e sempre serão bem-vindos. Quanto a minha experiência com As Ineses… foi um prazer enorme. Fui muito bem recebido por toda a equipe, por Pablo e meus companheiros de elenco. Nos divertimos muito! Gratidão a todos pelos momentos inesquecíveis!

GQ: O filme trata da questão racial de uma forma leve e direta. Você concorda com isso?

André Ramiro: Acredito que ser humano algum em sã consciência concordaria com qualquer forma de racismo ou preconceito.  O filme aborda o tema de maneira sutil, mas não é um filme sobre preconceito e sim de duas famílias do interior da Argentina em que em umas das famílias o pai era negro e brasileiro e por conta da troca de duas crianças no hospital seria impossível um homem negro casado com uma morena ter uma filha loira. No mais, cada um terá seu ponto de vista após assistir ao filme e todas as opiniões são bem-vindas.

GQ: Na sua opinião, quais são as principais diferenças entre o cinema argentino e o brasileiro?

André Ramiro: Nenhuma. Somos todos latinos americanos temos muito a somar uns com os outros e somos potências na América do Sul. A única diferença em minha opinião talvez seja a língua.

GQ: Quando você entrou para a Igreja Adventista do Sétimo Dia? O que o fez tomar tal decisão?

André Ramiro: Minha relação com a Igreja Adventista é de admiração, amizade e respeito. A igreja me recebeu muito bem e além de um trabalho de ajuda ao próximo muito forte, onde participei de estudos bíblicos que vão totalmente contra a esse falso cristianismo preconceituoso pregado por determinadas pessoas. Sou de uma família cristã evangélica, sou cristão e Cristo disse “amei e não julgai”, respeito todas as religiões e acredito que mais o importante seja o valor de nosso caráter e o exercício da fé, não o rótulo religioso.

GQ: Você participou de uma produção cinematográfica da igreja, o filme Libertos, o Preço da Vida. Como foi a experiência?

André Ramiro: Foi uma das melhores experiências que tive. Fizemos um filme lindo de baixo orçamento, mas fiz amizades pra vida nesse trabalho. A direção foi de Jefferson Nali e o roteiro de sua esposa Luciana Costa. O filme é uma releitura da Paixão de Cristo nos tempos atuais e tive a honra de interpretar Jesus Cristo na figura de um personagem chamado Emanuel. O filme é uma mensagem de amor e luz, vale a pena assistir, está disponibilizado no YouTube Libertos, o Preço da Vida.

GQ: A sua igreja tem missionários atuando em tribos indígenas e catequizando a população. Qual é a sua opinião sobre isso?

André Ramiro: Grande parte da população indígena do Brasil sofre com o descaso do governo e com a nova reforma relacionada às demarcações indígenas e quilombolas, usando inclusive de violência para tanto e deixando povos que por direito histórico e cultural são donos dessas terras à míngua e onde claramente se percebe que o objetivo é favorecer a poderosos ao invés de proteger e orientar essas pessoas a serem autossustentáveis a partir do acolhimento governamental. Ninguém vai falar ou perguntar sobre isso? O trabalho da igreja é de caridade e evangelização através da ajuda ao próximo como Cristo ensinou. De uma maneira geral, temos muito a aprender com a sabedoria e cultura indígena e a igreja tem o dever de respeitar isso também. Devolvo a pergunta questionando: se o estado é laico, porque nosso governo não cuida com respeito e oprime essas pessoas? Afinal de contas, não são os nossos brasileiros originais? Não são seres humanos? Não são cidadãos? Ah não pagam impostos, né? Não dão lucro né? No final das contas, entra governo e sai governo o povo oprimido vai continuar mais oprimido, sugado e mais pobre e os poderosos vão continuar mais poderosos. O problema geralmente é o julgamento antes de nos aprofundarmos nas coisas e vilanizarmos quem está tentando fazer algo de bom. No mais, Deus não é religião e sim como fazemos bem uns aos outros.

GQ: Você acha que o estado deve se manter laico?

André Ramiro: O estado é laico e devemos respeitar a Constituição. O problema é quando os injustos criam leis para se favorecer. Mas de uma maneira geral, política é uma coisa e  religião é outra.

GQ: Você contracenou com o ator Caio Junqueira em Tropa de Elite. Eram amigos? A amizade surgiu no filme? Como você sentiu a morte de Caio tão prematura?

André Ramiro: Caio foi e sempre será um grande irmão pra mim. Ele me acolheu, me ajudou e orientou muito no início de minha carreira. Deixou saudades em meu coração, assim como no coração de muitos. Tenho muito respeito por sua família e ao sentimento deles ao tocar no assunto. Perdoem-me, mas já falei o bastante. Gratidão!

GQ: Você fez a leitura do áudio book de Infiltrado na Klan, livro que inspirou o filme de Spike Lee que concorre ao Oscar 2019. O que achou da obra?

André Ramiro: O livro de Ron Stallworth aborda a situação política, social e o preconceito racial de uma maneira atual, embora narre sua história e experiência como policial na década de 70. O filme inspirado no livro dirigido por Spike Lee é fiel à obra e tão bom quanto o livro. Me senti honrado ao ser convidado pela Ubook pra dar voz a uma obra que considero muito importante nos tempos atuais e próximas gerações. Vale a pena conferir!

GQ: Como você vê o racismo no Brasil hoje? Faz algum tipo de ativismo? Acha que o artista negro deve se posicionar publicamente em relação ao racismo?

André Ramiro: O racismo no Brasil é hipócrita. O pior de tudo é nosso governo e a classe dominante não fazerem a menor questão de compartilhar o conhecimento que é a maior riqueza existente na face da terra. Falta empatia humana e respeito à dignidade do cidadão. Pagamos impostos caríssimos e não somos ressarcidos a altura. Sou negro e filho de nordestinos. Sou contra o preconceito em todas as suas formas. A solução não virá da classe dominante e sim da consciência coletiva da maioria em não aceitar de maneira nenhuma essa patifaria, como por exemplo: sermos apresentados como escravos e subempregados culturalmente, artisticamente e socialmente. Já passou da hora de ressaltarmos a realeza do povo preto e tomarmos por direito papéis de destaque na nossa sociedade. E isso não vai vir de quem não entende a questão. No mais, ninguém, inclusive o governo, estará fazendo favor nenhum abrindo as portas e possibilitando mais oportunidades. Pagamos caro por isso. Não acredito que todo artista seja obrigado a se posicionar pública e politicamente sobre qualquer assunto, não tenho o direito de julgar isso. Mas pra mim é importante.

Assista ao trailer de As Ineses

Fonte Oficial: GQ

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