Imagine a situação de acordar e perceber que o servidor que dava suporte à sua startup de healthtech foi desligado de forma remota. Ou que o algoritmo de concessão de crédito da sua fintech deixou de operar porque a licença para usar a API de uma empresa estrangeira foi cancelada da noite para o dia. Para o empresário brasileiro, isso vai muito além de um pesadelo de ficção científica; é o risco real de se tornar refém de infraestruturas críticas controladas por terceiros em um mundo que se organiza em torno de monopólios tecnológicos.
No cenário global, estamos em um momento de aceleração sem precedentes — como o anúncio recente de uma aliança entre os gigantes de Wall Street e a Nvidia para um fundo de US$ 500 bilhões voltado à infraestrutura de IA —, enquanto o ecossistema brasileiro ainda opera em outra frequência. Aqui, a realidade é diferente: falta capital de risco profundo (deep tech), investidores que não gostam de correr riscos sem colaterais reais e instituições de fomento com orçamentos cada vez mais apertados.
A questão que ressoa nos escritórios de capital de risco de São Paulo e nos centros de inovação de Florianópolis é: como se destacar em um cenário global que requer trilhões, enquanto nós operamos com milhões?
O abismo do capital: a realidade dos números
A diferença é enorme. De um lado, há a possibilidade de formar consórcios que financiam a construção de data centers inteiros e a aquisição de clusters de GPUs antes mesmo de se escrever o primeiro código. Por outro lado, empreendedores brasileiros lidam com rodadas de investimento em que as due diligences se arrastam por meses, cobrando garantias reais (imóveis, recebíveis) para liberar capital que, nos EUA ou na China, iria para protótipos bem no começo da jornada.
Conforme destacou Jensen Huang, o CEO da Nvidia, na conferência GTC 2024, estabelecendo um novo patamar de entrada na economia moderna: “A próxima revolução industrial já começou. Aqueles que não abraçarem a IA, e não erguerem suas próprias fábricas de inteligência [data centers com GPUs], empresas e países, irão ficar para trás. Já não é uma escolha; é a base de toda a economia moderna“.
A perspectiva de “construir sua própria fábrica de inteligência” para o empreendedor brasileiro parece quase um sonho distante, especialmente considerando a ausência de linhas de crédito específicas para CAPEX tecnológico de longo prazo. O ecossistema de inovação ainda está se desenvolvendo: há uma escassez de âncoras corporativas dispostas a adquirir soluções que ainda estão em fase inicial (o famoso first customer) e uma abundância de burocracias que esgotam os recursos financeiros das startups antes mesmo que elas alcancem o product-market fit.
Soberania como estratégia empresarial, e não apenas política
Nesse cenário de desigualdade, a “soberania digital” deixa de ser um discurso governamental abstrato e torna-se uma tese de investimento urgente. Without local capabilities, Brazil will remain at the mercy of external decisions.
O Secretário de Economia Digital do Governo Federal, Gil Castelo Branco, expressou com precisão a frustração do mercado local ao dizer: “O Brasil não pode ser apenas um exportador de dados brutos e importador de inteligência processada. Ter soberania digital é poder processar os nossos próprios dados, criar modelos que nos representem, que reflitam nossas realidades e valores, sob nossa regulação“.
Para investidores e fundadores, isso representa uma oportunidade evidente: existe um grande mercado que precisa de soluções que realizem o processamento de dados localmente, que estejam em conformidade com a LGPD de maneira nativa e que abordem questões específicas da complexidade do Brasil (como agrotechs tropicais, fintechs para a população subbancarizada e soluções de saúde pública em escala). O problema é conseguir isso sem o forte apoio estatal que existe na China ou a abundante capitalização privada dos EUA.
Inovação em tempos de escassez: o caminho do “frugal innovation”
Com recursos escassos, o ecossistema brasileiro precisa adotar a inovação frugal. Não é questão de reproduzir o modelo de queima de caixa do Vale do Silício, mas sim de estabelecer uma eficiência sem igual.
- Concentração em Nichos Específicos: Ao invés de perseguir um “General Purpose Model” (como o GPT-4), as startups brasileiras devem se especializar em modelos verticais onde podem aproveitar uma vantagem competitiva em termos de dados.
- Colaborações Regionais: A aliança com outros mercados emergentes da América Latina pode gerar uma escala que atraia investimentos significativos, reduzindo riscos.
- Eficiência Computacional: Criar algoritmos que exijam menos poder de processamento, superando a barreira de entrada dos caros hardwares necessários.
A necessidade foi claramente expressa por Ursula von der Leyen, a Presidente da Comissão Europeia, que, ao se referir a um bloco rico, também aborda a questão da dependência que afeta os países em desenvolvimento: “Não queremos trocar uma dependência por outra. Visamos a uma autonomia estratégica aberta. É essencial que tenhamos as nossas próprias capacidades em setores cruciais (…) para garantir que [nossa região] mantém o controlo do seu próprio destino digital“.
No Brasil, essa “autonomia” é a única rota de fuga para não se tornar apenas um território de consumo passivo.
A função do investidor: passando da garantia para o potencial
O último obstáculo está na mentalidade de distribuição de capital. Muito do investimento em infraestrutura de IA está sendo realizado em todo o mundo, mas muitos investidores locais ainda pensam como banqueiros, exigindo garantias reais em um setor onde o ativo mais importante é intangível (propriedade intelectual e talento).
Gina Raimondo, ex-Secretária de Comércio dos EUA, explicou a lógica que impulsiona os grandes players, e que precisamos ajustar à nossa realidade: “Aprendemos durante a pandemia que depender da cadeia de suprimentos de semicondutores, que está concentrada do outro lado do mundo, era uma vulnerabilidade de segurança nacional inaceitável. (…) Se não fabricarmos aqui, não teremos controle sobre o futuro da nossa economia e da nossa defesa“.
Para usar uma expressão familiar ao capital de risco brasileiro: apostar em tecnologia profunda nacional não é ato de caridade; é uma forma de reduzir riscos sistêmicos. Se o ecossistema não evoluir para aceitar riscos calculados em tecnologia de ponta, continuaremos a importar soluções caras e genéricas, sufocando a inovação nacional.
Resiliência como diferencial competitivo
O desafio é imenso. Confrontar fundos que administram meio trilhão de dólares pode parecer uma tarefa impossível para aqueles que estão se esforçando para garantir algumas milhões de reais em suas rodadas de Série A. A história da inovação, no entanto, nos ensina que limitações fomentam a criatividade.
O empreendedor brasileiro já nasce resistente. A estratégia não consiste em competir com os gigantes em sua própria área de domínio do poder financeiro, mas sim em aproveitar a agilidade, o entendimento do mercado local e a urgente necessidade de soberania para desenvolver soluções distintas. Como afirmou Jens Stoltenberg, Secretário-Geral da OTAN, em um recente discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos”A tecnologia tornou-se o novo campo de batalha. (…) A soberania tecnológica vai muito além de questões econômicas; ela diz respeito à nossa segurança e à proteção da nossa liberdade“.
Para investidores e startups brasileiras, é arriscado entrar nesse “campo de batalha” com poucos recursos, mas ficar de fora é garantia de obsolescência. É o momento de consolidar esforços, exigir a implementação de políticas públicas eficazes que promovam a inovação e demonstrar que a inovação que surge da escassez pode, de forma surpreendente, superar aquela que é fruto da abundância de recursos financeiros.