A resposta de Wall Street às gigantes da tecnologia está, cada vez mais, menos relacionada unicamente ao aumento das receitas e mais à velocidade — e ao preço — da mudança para a inteligência artificial (IA). No segundo trimestre de 2026, tanto a Alphabet quanto a Meta divulgaram receitas históricas, porém, com um aumento acelerado do CapEx, que está pressionando o fluxo de caixa livre e as margens.
Em contrapartida, a Microsoft tem conseguido converter a demanda por IA em monetização, que está mais diretamente relacionada à nuvem e ao software corporativo. Para empresas, negócios e investidores, isso é relevante porque o ciclo de investimento em data centers e chips (GPUs/TPUs) pode indicar um adiamento na realização do retorno sobre o capital investido, o que aumenta a percepção de risco e afeta a avaliação e o custo de financiamento.
O dilema foi evidenciado de três maneiras distintas, pelo que apurou a GZM. Inicialmente, no segundo trimestre de 2026, a Alphabet reportou uma receita consolidada de US$ 119,8 bilhões (+24% em relação ao ano anterior), com destaque para o Google Cloud, que arrecadou US$ 24,8 bilhões, um crescimento de +81,8% em comparação ao ano anterior. Entretanto, o CapEx trimestral foi de US$ 44,9 bilhões (mais que o dobro em relação ao ano anterior) e levou a uma diminuição de 74,1% no fluxo de caixa livre em comparação ao ano anterior. A administração também aumentou a previsão de CapEx para US$ 195 bilhões a US$ 205 bilhões no FY26.
Na observação dos resultados divulgados pela Meta (Q2 2026), os números foram semelhantes: a receita total atingiu US$ 60,8 bilhões (+28% em relação ao ano anterior), porém os investimentos de capital foram de US$ 31,1 bilhões no trimestre (em comparação a. US$ 17,0 bilhões no 2º trimestre de 2025) e uma queda na margem operacional de 38% para 31%. O lucro por ação foi de US$ 6,18, aproximadamente 14% inferior à expectativa do mercado, que era de US$ 7,17, e as ações caíram no after-market, intensificando as dúvidas sobre a rentabilização da IA em um curto espaço de tempo.
Por fim, a Microsoft, por sua vez, apresentou um contrapeso: no quarto trimestre do exercício fiscal de 2026, a empresa reportou uma receita trimestral de US$ 90,0 bilhões, um aumento de 18% em relação ao ano anterior, e um lucro líquido de US$ 35,8 bilhões, que representa um crescimento de 31% segundo os princípios contábeis geralmente aceitos (GAAP). A divisão Microsoft Cloud gerou US$ 59,3 bilhões em receita (+27% ano a ano).
Em termos de métricas operacionais diretamente relacionadas ao “uso” da IA, a empresa revelou que o Azure superou a marca de US$ 100 bilhões em receita anual, enquanto o Microsoft 365 Copilot já conta com mais de 30 milhões de assentos/usuários pagantes.
Contexto: o custo da infraestrutura supera o retorno imediato
O cerne da questão é que a IA necessita de infraestrutura física (data centers, redes e aceleração por meio de chips) — e essa infraestrutura não cresce de forma linear em relação à receita. Aumentar o CapEx para “dar conta” do consumo pode fazer com que as margens operacionais e o fluxo de caixa livre diminuam antes que a monetização chegue. Para a Alphabet, o próprio debate após os resultados destacou que o aumento dos investimentos em IA desviou a atenção do impacto no fluxo de caixa, já que tanto o CapEx quanto a orientação anual aumentaram.
Por que o investimento se transformou (ou não) em margem
Segundo a GZM apurou com especialistas, a distinção entre os modelos é mais uma questão financeira do que filosófica. Por um lado, as grandes empresas de tecnologia que não são exclusivamente dedicadas à inteligência artificial (aqueles que possuem motores de publicidade e/ou ecossistemas sociais) têm a capacidade de lucrar com a IA. No entanto, elas enfrentarão um período mais prolongado até conseguirem transformar os custos adicionais em margens de lucro sustentáveis — especialmente considerando que o mercado está ciente de que as capacidades estão sendo adquiridas em grande escala antes que se concretizem os retornos financeiros.
No caso da Microsoft, a empresa gerencia um sistema de monetização B2B recorrente, no qual a inteligência artificial chega “embutida” em software corporativo (Copilot) e é suportada por uma nuvem de alta demanda (Azure). Quando a demanda aumenta e a empresa já gera receita através de assinaturas e uso, os investimentos em infraestrutura costumam mostrar um retorno mais rápido.
Em termos de business speak, a mensagem é inequívoca: a discussão para 2026 e além será sobre a alocação de capital. Quando o CapEx aumenta mais rapidamente do que a receita adicional com margem, o investidor avalia isso como um risco. E se a companhia continua a crescer operacionalmente e aumentar as receitas relacionadas ao “uso” (como Azure e Copilot), o mercado começa a ver a transição como algo que ganha impulso.
O que o mercado deve exigir a partir de agora
Nos trimestres que virão, os investidores provavelmente se concentrarão em três questões claras:
(i) o CapEx diminui após a expansão da capacidade;
(ii) as margens se recuperam à medida que o uso real da IA se intensifica; e
(iii) a monetização deixa o estágio de “piloto” e se torna uma fonte de receita recorrente.
Para quem investe e para quem gere, a interpretação é a de sempre: gestão de risco. Afinal, a disputa por IA não se avalia apenas em termos de usuários e modelos — avalia-se, acima de tudo, em fluxo de caixa, disciplina de margem e rapidez na transformação do consumo em receita.
O caso Apple: resultados foram históricos, mas atraso em IA gera ceticismo no mercado
A Apple, que recuperou o título de empresa mais valiosa do planeta, reportou seu segundo trimestre mais impressionante até agora, com uma receita de US$ 109,4 bilhões, um aumento de 16,4% em relação ao ano anterior, impulsorada pelo iPhone 17 (crescimento de 21,7%) e pelo novo MacBook Neo, que registrou um aumento de 28,7% em um mercado de PCs em declínio. O lucro líquido aumentou 27%, alcançando US$ 29,8 bilhões, enquanto a margem bruta foi de 50,1%.
O forte desempenho na China, onde cresceu 22,4%, também foi um ponto positivo, compensando a queda geral do mercado de smartphones . Mesmo com os números apresentados, o mercado teve uma reação cética: as ações caíram mais de 8% no after-hours, o que indica que os investidores acreditam que o crescimento atual é impulsionado pelo ciclo de hardware, e que a Apple ainda não tem uma narrativa convincente no campo da IA.
Contudo, o impacto indireto da IA já é sentido como uma pressão sobre os custos. A onda de construção de data centers por outras grandes empresas de tecnologia fez com que os preços da memória DRAM e NAND disparassem, a ponto de serem considerados “uma inundação de século” pelo CEO da empresa, Tim Cook, o que pressionou as margens. Cook, que se despedirá do cargo em 1º de setembro, já havia afirmado que a Apple não faria investimentos bilionários em infraestrutura de IA, mas agora a companhia está enfrentando dificuldades devido ao aperto na cadeia de suprimentos, o que levantou sinais de uma possível desaceleração no próximo trimestre.
Em contrapartida, sua estratégia de inteligência artificial avança de forma lenta: a Apple Intelligence e a nova versão da Siri, desenvolvidas em colaboração com Google e Alibaba, só devem ser lançadas em grande escala no outono, e o mercado já está refletindo esse atraso.
A questão que se coloca é se a Apple conseguirá converter seu ecossistema de hardware em uma autêntica plataforma de IA antes que o ciclo do iPhone 17 chegue ao fim e os custos dos componentes impactem ainda mais sua lucratividade.
Fonte Oficial: https://startupi.com.br/como-a-ia-esta-impactando-os-resultados-de-big-techs/