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implicações econômicas, institucionais e empresariais


O crescimento do consumo de vídeos, filmes e séries pela internet também merece destaque. No ano retrasado, 78% dos usuários no Estado paulista utilizaram a rede para esse fim, cerca de 20 p.p. a mais do que em 2014.

Kelly Carvalho*

Ao longo da última década, o avanço da conectividade nos domicílios paulistas promoveu uma transformação estrutural na forma como a população acessa a internet, com impactos relevantes sobre o consumo, os modelos de negócios e a dinâmica da economia digital. Dados da edição especial do boletim Seade SP TIC, elaborada pela Fundação Seade com base na pesquisa TIC Domicílios, conduzida pelo Cetic.br, indicam que, em apenas dez anos, a proporção de usuários que utilizam a televisão como dispositivo de acesso à internet no Estado de São Paulo saltou de 7%, em 2014, para 63%, em 2024. Trata-se de um crescimento de 56 pontos porcentuais (p.p.), o que evidencia uma mudança profunda nos hábitos digitais da população.

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Esse movimento ocorre em paralelo à ampliação do acesso à internet nos lares paulistas. Entre 2014 e 2024, a proporção de domicílios conectados superou 80%, enquanto cerca de 83% da população passou a utilizar a rede. Nesse contexto, a popularização da Smart TV deve ser compreendida como parte de um processo mais amplo de digitalização da sociedade, impulsionado pela expansão da banda larga fixa — especialmente da fibra óptica —, pela queda dos preços dos equipamentos e pela consolidação das plataformas digitais de conteúdo.

Pela primeira vez, o acesso à internet por meio das televisões conectadas superou o uso de computadores, que perderam espaço de forma consistente ao longo da última década. O levantamento aponta uma retração superior a 30 p.p. no uso de computadores como principal dispositivo de acesso, indicando uma substituição tecnológica relevante. Essa mudança tem implicações diretas para empresas do Comércio, dos Serviços, da Mídia, da Publicidade e da Tecnologia, uma vez que redefine os canais de relacionamento com o consumidor e o próprio desenho das estratégias digitais.

A televisão conectada deixou de ser um equipamento voltado exclusivamente para o entretenimento para se transformar em um verdadeiro hub digital dentro dos lares. A interface simples, a integração com aplicativos e a aderência aos hábitos culturais da população explicam, em grande medida, a sua rápida difusão. Nesse contexto, a forma como as marcas pensam o planejamento de tráfego pago e o posicionamento de marca mudou profundamente. Com mais pessoas assistindo a conteúdos de vídeo em telas grandes e em momentos de atenção mais prolongados, plataformas como o YouTube deixaram de ser só canais de distribuição de vídeos curtos e se tornaram meios estratégicos de publicidade, engajamento e construção de nome. Nesse contexto, o investimento em anúncios em vídeo passou a integrar as estratégias de mídia de empresas de diversos setores, gerando mais conexão emocional com o consumidor, lembrança de marca e fidelização.

O estudo aponta que o uso da Smart TV é mais frequente entre indivíduos das classes A e B, com mais escolaridade e entre os mais jovens, o que reforça que, apesar do avanço tecnológico, as desigualdades digitais ainda persistem e precisam ser combatidas.

Outro aspecto importante é a diversificação das práticas digitais. Em 2024, aproximadamente 29% dos usuários paulistas acessaram a internet pela televisão, pelo computador e pelo celular de forma simultânea. Esse uso combinado de dispositivos indica um padrão mais intensivo e sofisticado de consumo digital, típico de segmentos com maior poder aquisitivo, e aponta para a crescente integração entre plataformas, conteúdos e serviços, ampliando oportunidades para o setor produtivo.

O crescimento do consumo de vídeos, filmes e séries pela internet também merece destaque. No ano retrasado, 78% dos usuários no Estado paulista utilizaram a rede para esse fim, cerca de 20 p.p. a mais do que em 2014. Esse avanço enfatiza o papel central da Smart TV como principal porta de entrada para o conteúdo audiovisual e como vetor de transformação dos mercados de mídia, publicidade e entretenimento.

Do ponto de vista empresarial, essa transformação cria um ambiente particularmente favorável à expansão do uso da Inteligência Artificial (IA). As plataformas acessadas por meio da Smart TV já operam com algoritmos de recomendação baseados em IA, capazes de personalizar conteúdos, publicidade e ofertas a partir do comportamento do usuário. Esse avanço amplia o potencial de integração entre entretenimento, comércio eletrônico, serviços financeiros e informação, abrindo novas oportunidades de negócios e exigindo das empresas mais capacidade de adaptações tecnológica e estratégica.

Ao mesmo tempo, a incorporação crescente da IA nesse ecossistema impõe obstáculos significativos. A personalização algorítmica pode elevar a eficiência e a competitividade, mas também demanda atenção a temas como proteção de dados, transparência, concorrência e inclusão digital. A ausência de políticas públicas e de marcos regulatórios adequados pode aprofundar desigualdades no acesso às tecnologias e aos benefícios da transformação digital.

Na comparação com o Brasil, São Paulo acompanha as tendências nacionais de expansão do uso da Smart TV e de retração do computador como principal dispositivo de acesso à internet, mas apresenta níveis mais elevados de penetração e intensidade de uso. Esse protagonismo corrobora o papel do Estado como referência da economia digital e, ao mesmo tempo, a necessidade de um ambiente institucional que favoreça a inovação, a concorrência e o desenvolvimento dos negócios.

Em síntese, a popularização da Smart TV como principal dispositivo de acesso à internet representa uma mudança estrutural na economia digital paulista. Trata-se de uma transformação silenciosa, porém profunda, que redefine padrões de consumo, estratégias empresariais e a relação das famílias com a tecnologia. O desafio que surge é garantir que essa conectividade crescente seja convertida em ganhos efetivos de produtividade, competitividade e inclusão, contribuindo para o fortalecimento do ambiente de negócios e para o desenvolvimento econômico do Estado de São Paulo.

Kelly Carvalho é assessora da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP)

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Fonte Oficial: https://www.fecomercio.com.br/noticia/a-nova-dinamica-do-acesso-digital-em-sao-paulo-implicacoes-economicas-institucionais-e-empresariais

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