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ARTIGO, por Marcos Bigucci “Meu pai escreveu um artigo em 2004. E ele poderia ser publicado amanhã e ninguém notaria”

Arrumando meu escritório, acabei de voltar ao passado ao encontrar um artigo escrito no ano de 2004 por meu pai, Milton Bigucci, empreendedor há mais de 60 anos na área da construção civil. Intitulado “Como é difícil produzir neste país!”, o artigo descreveu um Brasil travado por burocracia excessiva, insegurança jurídica, juros altos e um ambiente pouco acolhedor para quem produz, investe e gera emprego.  Voltando ao “futuro”, agora em janeiro de 2026, sinto um incômodo pelo fato de que grande parte da crítica feita por ele, que parecia algo de outro século, descreve desafios que ainda vivenciamos, inacreditáveis duas décadas depois.

Nas palavras dele: “a burocracia estatal, os altos juros e a sanha arrecadatória inviabilizam qualquer produção, desestimulando o empresário a produzir”. Mais de duas décadas passadas, a pergunta que inevitavelmente surge é: esse diagnóstico pertence a 2004 ou poderia ter sido escrito em 2026? Não faz a menor diferença. O problema é o mesmo, só mudou a década.

Dados recentes do Banco Mundial e do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), confirmam o cenário estagnado: o Brasil ainda é o país onde se gasta mais tempo para pagar impostos no mundo, 149 dias de trabalho no ano. O sistema tributário brasileiro segue complexo e instável, mas há uma diferença significativa em relação ao início dos anos 2000: hoje, muitos não apenas reclamam, eles deixam o país.  A consultoria Henley & Partners, referência em migração de riqueza, divulgou relatório este ano revelando que o Brasil deverá registrar a saída líquida de cerca de 1.200 milionários em 2025, colocando o país entre os que mais perdem indivíduos de alto patrimônio líquido no mundo, com estimativa de US$ 8,4 bilhões em riqueza migrando para o exterior.  Em 2024 o número era de 800 milionários. 

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Esses dados retratam um cenário de “investimento nulo”, empresas que deixam de  aplicar recursos, projetos que não decolam e empregos que deixam de ser criados na construção civil e em outros setores. Quando um empreendedor decide partir, ele não leva apenas dinheiro. Leva consigo planejamento, conhecimento, experiência acumulada, redes de relacionamento e, confiança. Em vez de gerar emprego aqui no Brasil, esses “cérebros” milionários vão testar suas qualidades em outros países mais convidativos criando oportunidades e impulsionando novos negócios por lá. 

Relatórios de instituições como o Global Entrepreneurship Monitor (GEM) já apontavam antes da pandemia que o Brasil era mal avaliado em fatores básicos para o empreendedorismo, dentre eles,  qualidade das políticas públicas, ambiente regulatório e sistema tributário.  A burocracia excessiva, com a exigência de múltiplas certidões, lentidão nos processos administrativos, custos cartoriais elevados, continua a ser um problema atual. 

Voltando ao passado, em 2004 estávamos num cenário econômico/jurídico um pouco melhor, pois naquela época não havia a tributação dos dividendos. De volta para o futuro, em 2025, a publicação da Lei 15.270/2025 introduz a tributação sobre dividendos acima de determinados limites, o que eleva o custo de empreender no Brasil e reacende o debate sobre a competitividade, especialmente em um momento em que outros mercados buscam atrair capital e talento.  O resultado dessa equação é um país com enorme potencial, mas que parece repetir os mesmos erros por décadas. No lugar de criar condições mais favoráveis ao investimento produtivo, o governo “empurra” o empreendedor para fora.

A lei que tributa os dividendos teve os holofotes de marketing voltados apenas para o trecho que eleva o teto de isenção de imposto de renda para as pessoas de menor renda. De fato, reduzir imposto dos menos favorecidos é boa ideia, o problema é que o governo repassa a conta para o empresário pagar, no lugar de cortar os custos administrativos da máquina pública que parecem ser sempre intocáveis.  O governo ainda não entendeu que se não for bom para o empresário, ele vai embora. “Cortem os custos de verdade e não apenas transfiram a carga para o empresário”, já dizia meu pai em 2004. Há países vizinhos que inclusive estão criando leis inteligentes e atraindo brasileiros endinheirados para se mudarem para lá, como é o caso do Paraguai e do Uruguai.  Estamos realmente avançando em direção ao futuro ou de volta ao passado?

O calendário marca o ano de 2026. Mas para muitos empresários, e cada vez mais para jovens talentos que estudam e já planejam carreiras fora do país, o cenário que vivemos agora ainda lembra perigosamente o de 2004. Com uma diferença fundamental: hoje, sair do Brasil deixou de ser uma hipótese distante e passou a ser uma alternativa concreta e prática para muitos. O futuro chegou e o problema do passado ainda está presente. O artigo de 2004, escrito pelo pai, parece se repetir 22 anos depois na escrita do filho. Tomara que no futuro, o neto não repita o texto. 

Só não enxerga quem não quer.

MARCOS BIGUCCI
É advogado; diretor da construtora MBigucci, CEO da Master Managers LLC nos EUA, mestre em Administração de Empresas pela Devry University – USA, Master Business Administration (MBA) pela FGV/Brasil; e certificado pela Harvard University – USA em Tecnologia e Empreendedorism

Fonte Oficial: https://agenciadcnews.com.br/artigo-por-marcos-bigucci-meu-pai-escreveu-um-artigo-em-2004-e-ele-poderia-ser-publicado-amanha-e-ninguem-notaria/

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