Quem vivia no Brasil na década de 1970, independentemente da idade, não tem como não lembrar de uma propaganda dos xampus Colorama, marca da Bozzano: você lembra da minha voz? Continua a mesma, mas os meus cabelos, quanta diferença!
Confesso não lembrar da primeira vez que a modelo apresenta a voz, na peça eternizada, ela deixa claro que se essa não melhorou, os cabelos, muito. Encontrar uma voz própria é fundamental na escrita, antes o que se é capaz de criar do que uma cópia envergonhada do que se admira. Na psicanálise bancar a própria voz é algo importante, e nem sempre simples, falar livremente, seguir a sugestão das livres associações e usar a voz, como expressão do que passa pela cabeça, como porta de entrada inconsciente.
Já no mercado de trabalho nem sempre se valoriza quem fala o que pensa, já falei aqui na coluna dos chefes Branca de Neve, preferem anões em volta, não é estranho a preferência pelos puxa-sacos ou aqueles que douram a pílula. Tampouco estou defendendo transformar o escritório num consultório de psicanálise, mas um mínimo de relacionamento pessoal empático é fundamental, um bom líder tem a obrigação de ser mais simpático do que um analista lacaniano… Ambientes onde as pessoas não se sentem à vontade para falar tendem a ser opressivos e deixam difícil que todos contribuam para as metas comuns.
No consultório se fala sem riscos, com o sigilo garantido e sem metas por parte de quem ouve. Um analista quer efetivamente colaborar para diminuir o sofrimento de um analisante, mas não é papel dele assumir funções e dirigir ações, envolver, uma análise tem uma ética particular, um analista não pode temer perder um analisante porque ele pode não suportar uma interpretação ou então o trabalho de sustentar o vazio. Já um líder não pode hesitar em pegar o subordinado pelas mãos e encontrar maneiras de motivá-lo, de tirar dele o melhor rendimento.
Aliás, essa é uma palavra-chave nessa diferenciação. O que é rendimento no ambiente corporativo é possivelmente um despropósito na análise. Frequentei o que era então considerada a melhor escola de negócios do país, sigo achando que ela se mantém nessa posição. Ética não era uma matéria, mas era uma faculdade tradicional por incorporar temas de humanidades. Saí da faculdade em 1988 acreditando que as grandes auditorias não deixavam passar nenhuma maracutaia. Para não ser injusto com as locais, o caso Enrom, que estourou em 2001, mostrou que não era bem assim. E poderia listar vários exemplos.
Como também existem muitos analistas e terapeutas que não resistiriam a uma auditoria, na psicanálise a teoria acontece entre quatro paredes e diante de duas pessoas, a ética se torna mais importante ainda. Grande parte do legado de Jacques Lacan é passado pelas transcrições dos seminários que proferiu ao longo dos anos entre as décadas de 1950 e 1980. Sua proposta de releitura de Freud o fez romper com os pós-freudianos e ainda que tenha tido o mérito de identificar as pessoas como seres de linguagens, era alguém que gostava de brincar com ela, além de ter uma grande curiosidade e um ecletismo amplo, tornando difícil sua tradução, além é claro de não se esforçar muito para ser claro. Mas o seminário 7 se chamou A ética da psicanálise.
Nesse, Antígona ganha destaque como marco da ética na psicanálise, alguém que não se calou diante do que achava ser o certo, um funeral para seu irmão Polinices. Quando uma montagem dessa tragédia de Sófocles acontecer perto de você, vá ao teatro e reflita sobre o lado ético. Mas sim, a psicanálise não está isenta de falhas e interferências na singularidade das pessoas podem acontecer.
E esta coluna que era mais sobre a diferença de escuta, vai se transformando numa que tenta reforçar a importância da ética. E sim, existe uma ética individual, e existe uma ética da organização onde se trabalha, se as duas não apontam para a mesma direção, há um problema enorme. O que fazer? A resposta não permite grandes frouxidões. Não se pode nem ser ingênuo, muito menos leniente e omisso. O ideal é que existam confiança e canais para se discutir os aspectos éticos do trabalho. Não se iluda, ninguém fica ileso e inocente porque apenas seguiu ordens.
Ainda que Hannah Arendt tenha sido fundamental nessa questão, não se absolve alguém porque cumpria funções, cuidado, a falta de escuta e fala no trabalho pode levar a impasses que aparecem depois na análise. Um analista não vai resolver os dilemas éticos de uma pessoa de negócios, mas pode ser um suporte para decidir falar ou calar! E nesse campo, não importa se os cabelos estão sedosos, é da possibilidade de se olhar no espelho e não exigir dos familiares e pessoas próximas a criação de narrativas falsas que visam apenas esconder a vergonha. O ideal é ser escutado no escritório e no consultório, cada uma com suas características.
Como cantava Milton Nascimento, solte a voz nas estradas, já não se pode parar, se o caminho é de pedras, como se pode sonhar? Boa travessia! Escute e seja escutado!
MARCELO CANDIDO DE MELO
Escritor e psicanalista, é graduado e pós-graduado em administração pela EAESP-SP da FGV. Atuou na área de marketing de grandes empresas nacionais e multinacionais antes de empreender no mercado editorial. Sua editora alcançou bastante sucesso e foi adquirida por uma multinacional. Já escreveu 18 livros em seu nome ou como ghost-writer. Dá atenção especial à produção ficcional. Também já fez roteiro de documentário. Nos últimos anos mergulhou numa formação em psicanálise e desenvolve atividade clínica.
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