O ano de 2026 marca o início da aplicação prática de um dos mais amplos processos de reestruturação do sistema tributário brasileiro desde a redemocratização. O novo modelo, já em vigor, substitui cinco tributos atualmente existentes, ICMS, ISS, IPI, PIS e Cofins, por dois novos impostos: o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). Paralelamente, entram em vigor as novas regras do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), que passam a prever isenção para rendimentos mensais de até R$ 5 mil.
As mudanças afetam diretamente cidadãos, empresas e, de forma especial, os profissionais da contabilidade, que passam a atuar em um ambiente de transição entre sistemas distintos. Em 2026, o país conviverá com regras antigas e novas simultaneamente, exigindo adaptação técnica e acompanhamento constante da legislação.
Transição tributária amplia o papel estratégico da contabilidade
Para a conselheira do Conselho Regional de Contabilidade de Minas Gerais (CRC-MG), Suely Maria Marques de Oliveira, o momento exige uma atuação mais consultiva por parte dos contadores. Segundo ela, a transição representa tanto um desafio quanto uma oportunidade de reposicionamento profissional.
“O contador, neste momento, deixa de ser um gerador de guias e precisa atuar como um consultor estratégico”, explica.
A especialista ainda pontua que a reforma entra em regime de teste e as empresas vão precisar de auxílio para gerir a convivência dos dois sistemas tributários que serão simultâneos.
A especialista destaca que, durante esse período, o acompanhamento das operações empresariais, o planejamento tributário e a orientação estratégica ganham relevância diante das mudanças na forma de apuração e recolhimento dos tributos.
Portal Nacional de Emissão de Notas centraliza sistemas municipais
Entre as inovações trazidas pela reforma está a criação do Portal Nacional de Emissão de Notas, que unifica os sistemas de emissão de documentos fiscais utilizados pelas prefeituras. A medida busca reduzir a fragmentação que existia anteriormente, especialmente no caso das notas fiscais de serviços.
“Principalmente as notas de serviço, porque nós tínhamos mais de 5.000 prefeituras no país, cada uma utilizando um sistema diferente. Nós da contabilidade não conseguíamos trazer essas informações dos sistemas das prefeituras”, diz Suely.
A centralização tende a facilitar o acesso às informações fiscais e a padronização dos dados, embora a adaptação ao novo ambiente exija ajustes operacionais por parte das empresas e dos escritórios contábeis.
Mudanças no IRPF exigem orientação técnica ao contribuinte
Além da reforma do consumo, 2026 também inaugura alterações relevantes no Imposto de Renda da Pessoa Física. A principal mudança é a ampliação da faixa de isenção para rendimentos mensais de até R$ 5 mil, acompanhada de descontos graduais para salários superiores a esse valor.
Segundo Suely, o novo cenário demanda preparo técnico dos profissionais da contabilidade para orientar corretamente os contribuintes.
“É preciso que o contador esteja muito bem preparado para explicar para o contribuinte a renda tributável dele, como que ela será composta, porque não é simplesmente dizer que R$ 5.000 está isento. Tem que trabalhar e fazer um planejamento estratégico e financeiro desses clientes”, diz.
Tecnologia e IA ganham protagonismo na nova dinâmica fiscal
Diante do aumento da complexidade operacional, o uso de soluções tecnológicas passa a ser considerado um elemento central para a adaptação ao novo sistema. Ferramentas de automação e inteligência artificial tendem a apoiar tanto contadores quanto empresas na gestão de dados, documentos e apurações fiscais.
“O uso de IA, de automação, vai ser essencial para lidar com esse novo sistema, principalmente com o split payment, que é o pagamento imediato do imposto na transação. Isso vai exigir que o contador domine ferramentas tecnológicas avançadas”, afirma Suely.
Para as empresas, a adoção de tecnologia também passa a ser necessária antes mesmo da atuação do contador, especialmente no controle de contratos, documentos e fornecedores.
“A gente vai precisar ter uma avaliação dos contratos para poder ver qual é o melhor contrato que eu tenho, o que eu vou poder manter, qual aquele fornecedor que vai me atender de forma que a minha tributação seja menos impactada”, diz a conselheira.
Split payment altera a lógica da tributação ao longo da cadeia
Com o novo modelo de tributação sobre o consumo, o imposto passa a ser recolhido em cada etapa da cadeia econômica. A cada operação com bens ou serviços, o tributo é destacado e compensado por meio de créditos relativos às etapas anteriores.
Nesse contexto, o cumprimento das obrigações fiscais por parte dos fornecedores passa a impactar diretamente os compradores. Para Norberto Tordin, CEO da NAI-IT, startup especializada em Governança, Risco e Compliance (GRC), a mudança altera a dinâmica das relações comerciais.
“Se o meu fornecedor não fizer o recolhimento do imposto, eu não tenho direito a esse crédito e quem vai pagar esse imposto sou eu”, diz.
Como exemplo, o CEO cita que se tiver uma série de fornecedores que, por algum motivo, não façam recolhimento de impostos, isso vai impactar diretamente no meu fluxo de caixa.
IA auxilia na análise de risco e conformidade fiscal
Segundo Norberto, ferramentas de inteligência artificial podem contribuir para identificar riscos antes que eles gerem impactos financeiros relevantes.
“A inteligência artificial vai fazer uma análise preditiva. O que é uma análise preditiva? Ele vai verificar qual é a possibilidade desse fornecedor gerar um problema para você”, explica.
Essas soluções analisam grandes volumes de documentos e dados, avaliando, por exemplo, se fornecedores mantêm obrigações fiscais e trabalhistas em dia. O objetivo é apoiar as empresas na tomada de decisões e na mitigação de riscos tributários.
Norberto cita como exemplo empresas que lidam com dezenas de milhares de documentos mensalmente.
“Ela gastaria mais ou menos, com pessoas, cerca de R$ 300 mil por mês para fazer uma análise desses documentos. Pessoas dedicando 7 horas por dia, só fazendo isso”, exemplifica.
Com o uso de IA, segundo ele, é possível reduzir custos operacionais e direcionar o trabalho humano para a conferência de inconsistências apontadas pelas ferramentas.
“A reforma tributária vai ser uma seleção natural de empresas. Quem tiver governança digital, pode continuar operando com lucro”, sintetiza.
Entenda o novo modelo tributário e as regras do IR
Com a reforma, o Brasil passa a adotar um modelo de Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) Dual, composto pela CBS, de competência federal, e pelo IBS, de estados e municípios. O sistema substitui os tributos atualmente incidentes sobre o consumo e prevê compensação de créditos ao longo da cadeia produtiva.
Já no Imposto de Renda, passam a valer novas faixas de isenção e descontos, além da criação de alíquotas específicas para rendimentos elevados e lucros e dividendos. Embora as regras passem a valer em 2026, seus efeitos práticos serão refletidos nas declarações a partir de 2027, mantendo-se, neste ano, a metodologia aplicada em 2025.
O conjunto de mudanças reforça a necessidade de acompanhamento técnico, planejamento e atualização constante por parte de empresas e profissionais da contabilidade diante do novo ambiente tributário.
Com informações do Jornal O Tempo – Economia
Fonte Oficial: https://www.contabeis.com.br/noticias/74585/reforma-tributaria-entra-em-fase-pratica-em-2026/