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Gestão Integrada e Impactos Empresariais

A Reforma Tributária sobre o consumo está levando as empresas brasileiras a revisar muito mais do que suas rotinas de apuração fiscal. A implementação do novo modelo baseado no IBS e na CBS exige uma análise integrada entre contabilidade, fiscal, controladoria, tecnologia, compras, formação de preços e tesouraria.

Esse talvez seja um dos principais desafios da transição: compreender que a mudança não pode ser tratada como um projeto exclusivo do departamento fiscal.

Durante muitos anos, parte relevante das discussões tributárias dentro das empresas esteve concentrada em questões como classificação fiscal, parametrização, escrituração, obrigações acessórias e determinação do valor dos tributos a recolher. Essas atividades continuarão sendo fundamentais, mas o novo ambiente amplia a dimensão do problema.

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A qualidade do cadastro de produtos e fornecedores, a forma como os documentos fiscais são recebidos, a estrutura dos contratos, os critérios utilizados nas compras, as configurações do ERP e até determinadas decisões comerciais poderão afetar a qualidade da informação utilizada para apuração dos tributos e reconhecimento dos respectivos créditos tributários.

Em outras palavras, o tributo continuará sendo calculado pelo fiscal, mas parte relevante das informações que determinam esse cálculo continuará sendo gerada fora dele.

A Reforma Tributária não é apenas um projeto fiscal. É também um projeto contábil, financeiro, tecnológico e de controles internos.

O crédito tributário começa antes da escrituração

Um dos aspectos mais relevantes do novo modelo está relacionado à não cumulatividade e à importância econômica dos créditos tributários.

Sob a ótica gerencial, o raciocínio parece relativamente simples: os tributos incidentes nas operações de saída são confrontados, observadas as regras aplicáveis, com os créditos vinculados às operações anteriores.

Porém, a qualidade desse resultado depende de toda uma cadeia de informações.

Uma compra é negociada. Um pedido é emitido. O fornecedor entrega a mercadoria ou presta o serviço. O documento fiscal é gerado. A empresa recebe esse documento, valida os dados, registra a operação, realiza a escrituração, reconhece contabilmente os efeitos e finalmente utiliza aquela informação na apuração tributária.

Se existir uma inconsistência nas primeiras etapas, ela poderá acompanhar a operação até o final.

É por isso que o crédito tributário não deveria ser tratado apenas como resultado da apuração fiscal. Ele começa na origem da transação.

Essa perspectiva muda a importância de processos que, em muitas empresas, ainda são tratados de forma excessivamente administrativa.

Cadastro passa a ser controle. Recebimento fiscal passa a ser controle. Parametrização sistêmica passa a ser controle. Conciliação passa a ser controle.

E todos eles possuem potencial reflexo financeiro.

Cadastro e parametrização passam a ter ainda mais relevância

Quanto maior o grau de automação das rotinas fiscais, maior a importância da qualidade dos dados de origem.

Um sistema corretamente parametrizado consegue processar milhares de operações com velocidade e consistência. Entretanto, se determinada regra estiver incorreta, essa mesma automação poderá reproduzir o erro em escala.

Por isso, uma das medidas importantes durante a adaptação à Reforma Tributária é a revisão da governança dos dados mestres.

Produtos, serviços, fornecedores, clientes, estabelecimentos e demais elementos utilizados na parametrização das operações precisam ser revisados dentro de critérios claros de responsabilidade e aprovação.

Não basta corrigir cadastros existentes.

É necessário definir quem pode criar uma informação, quem pode alterá-la, quais mudanças exigem aprovação e como essas alterações serão documentadas.

Uma empresa com diversos estabelecimentos ou sistemas diferentes enfrenta um desafio adicional: garantir consistência.

A mesma operação não deveria possuir tratamentos diferentes apenas porque foi processada por unidades distintas sem uma padronização adequada.

Esse ponto aproxima diretamente a área tributária dos controles internos.

A qualidade da apuração depende da qualidade dos processos que alimentam a apuração.

Créditos tributários precisam ser conciliados

Outro ponto que tende a ganhar importância é a conciliação dos créditos tributários.

Conhecer apenas o saldo contábil de tributos a recuperar pode ser insuficiente para uma gestão adequada.

A empresa precisa conseguir compreender a formação daquele saldo.

Quais documentos deram origem aos créditos? Todos os documentos recebidos foram processados? Existem documentos pendentes? Existem divergências que impediram determinado reconhecimento? Qual parcela do saldo está disponível? Há créditos aguardando validação? Qual é a expectativa de utilização?

Essa análise segue a mesma lógica aplicada a outros componentes patrimoniais.

Contas bancárias são conciliadas porque a empresa precisa garantir que o saldo registrado corresponda à movimentação efetivamente ocorrida. Clientes são conciliados para que os recebimentos e os valores em aberto sejam compreendidos. Fornecedores são conciliados para validar obrigações. Estoques são submetidos a controles para assegurar a consistência entre quantidade física e informação contábil.

Um ativo tributário economicamente relevante merece disciplina semelhante.

A conciliação também contribui para identificar erros de processo.

Se determinadas divergências aparecem repetidamente em documentos do mesmo fornecedor, talvez exista um problema de cadastro ou comunicação. Se determinada unidade apresenta volume de inconsistências muito superior às demais, talvez seja necessário revisar treinamento ou procedimento.

Se os créditos esperados e os efetivamente apropriados apresentam diferenças recorrentes, existe uma informação gerencial importante a ser investigada.

O objetivo deixa de ser apenas corrigir o mês. Passa a ser eliminar a causa.

O saldo tributário também precisa ser analisado pelo tempo

Uma informação que pode se tornar especialmente útil para a controladoria e para a tesouraria é o aging dos créditos tributários.

O saldo isolado responde apenas quanto a empresa possui registrado.

Não indica há quanto tempo aqueles valores permanecem pendentes de utilização ou realização econômica.

Uma estrutura gerencial pode separar créditos por período e situação, permitindo visualizar valores recentes, saldos mais antigos, montantes em validação, pendências documentais e outras situações que exijam tratamento.

Essa abertura acrescenta uma dimensão importante à análise: tempo.

E tempo é um componente financeiro.

Um crédito registrado contabilmente representa um ativo. Mas, sob a perspectiva financeira, é importante compreender quando esse ativo produzirá efeito econômico efetivo.

Se a companhia possui volume relevante de créditos que permanecem por longo período sem utilização, existe potencial impacto sobre o capital de giro.

Essa constatação aproxima ainda mais fiscal, contabilidade e tesouraria.

Reforma Tributária também é uma discussão de capital de giro

Grande parte das análises iniciais tende a comparar a carga tributária do modelo atual com a carga estimada no novo sistema.

Essa comparação é necessária.

Mas uma análise empresarial completa precisa avançar para o fluxo de caixa.

A pergunta não deveria ser apenas quanto será reconhecido contabilmente como tributo.

Também deve incluir quando o dinheiro efetivamente entrará ou sairá.

Alterações na dinâmica de recolhimento, geração, reconhecimento e utilização de créditos podem modificar a necessidade financeira da operação.

Uma empresa pode apresentar determinado impacto quando observada pela ótica da DRE e, simultaneamente, enfrentar uma dinâmica diferente de capital de giro.

Esse efeito precisa ser simulado.

Empresas com margens reduzidas ou elevada necessidade de financiamento operacional precisam prestar atenção especial a esse ponto, porque pequenas alterações no ciclo financeiro podem representar volumes relevantes de recursos.

A controladoria e o financeiro deveriam participar dessas simulações desde o início.

A área tributária identifica as regras. A controladoria traduz essas regras para margem e resultado. A tesouraria traduz para liquidez.

É essa integração que permite entender o efeito econômico completo.

Formação de preços precisa ser revista

A Reforma Tributária também exige atenção sobre os modelos de formação de preços.

Substituir uma alíquota por outra dentro de uma planilha de preço dificilmente será suficiente.

A formação de preços precisa observar a economia integral da operação.

Receita, tributos, créditos, custo de aquisição, frete, comissão, descontos, despesas variáveis, prazo financeiro e margem de contribuição precisam ser analisados conjuntamente.

E os impactos podem não ser uniformes.

Uma empresa que vende simultaneamente por varejo próprio, distribuidores, atacado, marketplace e contratos B2B pode encontrar situações distintas em cada canal.

O mesmo vale para famílias de produtos, regiões e perfis de clientes.

Por isso, uma análise consolidada pode gerar uma falsa sensação de estabilidade.

A média pode permanecer aparentemente adequada enquanto determinadas operações perdem rentabilidade.

A controladoria precisa conseguir abrir o efeito da transição por diferentes dimensões do negócio.

Essa é uma oportunidade também para revisar a qualidade da DRE gerencial.

Se a empresa não consegue hoje identificar margem por produto, canal ou cliente, provavelmente terá mais dificuldade para compreender onde o impacto tributário está efetivamente ocorrendo.

O preço de compra também precisa ser analisado pelo efeito econômico

O mesmo raciocínio se aplica aos fornecedores.

Tradicionalmente, muitas decisões de compras são comparadas principalmente por preço, prazo, qualidade e nível de serviço.

Essas variáveis continuarão fundamentais, mas a visão pode precisar ser ampliada.

O menor preço nominal não representa necessariamente o menor custo econômico.

A empresa precisa considerar o efeito tributário da aquisição, as condições financeiras, o frete, os riscos operacionais e demais componentes associados à operação.

Isso fortalece o conceito de custo líquido de aquisição.

Compras deixa de observar apenas quanto será pago ao fornecedor e passa a avaliar quanto aquela operação representa economicamente depois dos demais efeitos relevantes.

Essa mudança demanda aproximação entre suprimentos, fiscal e controladoria.

Uma decisão de compra pode aparentemente gerar economia comercial e, quando analisada integralmente, produzir efeito diferente sobre margem e caixa.

Contratos precisam participar do projeto

Outro ponto que merece atenção são os contratos que atravessarão o período de transição.

Contratos de fornecimento, prestação de serviços, distribuição, locação e outras relações de longo prazo foram construídos dentro de determinado ambiente tributário.

Mudanças relevantes podem alterar a equação econômica originalmente considerada pelas partes.

As empresas deveriam mapear contratos materiais e avaliar as respectivas cláusulas tributárias, mecanismos de reajuste, preços, responsabilidades e eventuais previsões de reequilíbrio.

Essa revisão precisa reunir jurídico, fiscal, comercial e financeiro.

O jurídico avalia os instrumentos. O fiscal interpreta o efeito tributário. O comercial compreende a relação com clientes e fornecedores. O financeiro mede a consequência econômica.

Novamente, a Reforma Tributária demonstra por que projetos complexos não podem ser conduzidos de forma departamentalizada.

O ERP é parte da solução, mas não substitui processo

A adequação dos sistemas será uma das frentes mais importantes para muitas empresas.

ERPs precisarão ser atualizados, motores fiscais reparametrizados, integrações revisadas e relatórios adaptados.

Entretanto, tecnologia não corrige automaticamente processos mal desenhados.

Antes de automatizar, é necessário definir corretamente a operação.

Quem origina a informação? Quem valida? Qual regra deve ser aplicada? Como a exceção será tratada? Quem revisa? Como a transação chega à contabilidade? Qual conciliação confirmará que tudo funcionou?

Somente depois disso a tecnologia consegue desempenhar adequadamente seu papel.

Existe um risco relevante quando a empresa simplesmente transfere toda a responsabilidade para o fornecedor do sistema.

O fornecedor conhece a ferramenta. A empresa conhece sua operação.

As áreas técnicas precisam validar conjuntamente aquilo que será parametrizado.

A transição aumenta a importância do fechamento contábil

Existe ainda um efeito que muitas vezes recebe pouca atenção: o fechamento contábil.

Quanto maior o volume de divergências fiscais, erros cadastrais, documentos pendentes e ajustes manuais, maior tende a ser o esforço necessário para fechar a contabilidade.

Por isso, a qualidade da implantação também poderá ser percebida no prazo e na consistência do fechamento.

Empresas que resolvem inconsistências na origem reduzem a necessidade de ajustes posteriores.

Esse é um princípio importante de controle.

O melhor fechamento não é aquele em que a equipe contábil consegue corrigir rapidamente dezenas de problemas. É aquele em que boa parte dos problemas deixou de existir porque o processo anterior foi corretamente desenhado.

Isso exige integração entre processos operacionais e contábeis.

Indicadores ajudam a transformar adequação tributária em gestão

Projetos complexos precisam ser acompanhados por indicadores.

Durante a transição, algumas empresas poderão considerar métricas relacionadas a documentos com divergências, créditos pendentes, tempo de regularização, aging de créditos e diferenças entre valores esperados e efetivamente apropriados.

Também pode ser útil acompanhar impactos sobre margem, rentabilidade e capital de giro.

O objetivo não é criar uma nova estrutura burocrática de relatórios.

É permitir que a administração saiba se o processo está funcionando.

Uma divergência eventualmente identificada e corrigida faz parte da rotina. Centenas de divergências recorrentes na mesma origem indicam um problema estrutural.

O indicador ajuda a separar evento de tendência.

Controladoria assume papel central nessa integração

A controladoria possui uma posição especialmente relevante nesse cenário porque transita entre contabilidade, fiscal, financeiro e gestão.

A área não precisa substituir o especialista tributário.

Seu papel é complementar a análise.

Se o fiscal responde qual tratamento deve ser aplicado, a controladoria pode questionar:

Qual o impacto na margem? Como isso altera a formação de preços? Existe efeito relevante por produto? Algum cliente ou canal sofreu mudança de rentabilidade? Qual o efeito sobre EBITDA? Quanto muda o capital de giro? Esse ativo tributário será realizado em qual prazo?

São essas perguntas que transformam informação técnica em informação gerencial.

A contabilidade ganha uma oportunidade de ampliar sua contribuição

A Reforma Tributária também representa uma oportunidade importante para a profissão contábil.

O contador possui uma visão privilegiada da organização.

A contabilidade reúne dados de receita, custo, despesas, ativos, passivos, tributos e resultado.

Quando essa informação é utilizada apenas para atender obrigações legais, parte importante de seu potencial é desperdiçada.

O profissional contábil pode contribuir significativamente para a interpretação dos efeitos econômicos da transição.

Isso exige ampliar o domínio sobre sistemas, processos, dados, controles internos e indicadores.

A legislação continuará sendo fundamental.

Mas a capacidade de traduzir a legislação para impactos empresariais será um diferencial cada vez mais relevante.

O contador que consegue demonstrar não apenas quanto a empresa deve recolher, mas também como determinada mudança altera margem, capital de giro e rentabilidade, participa de outra camada da decisão.

Preparação precisa começar pela operação

Diante desse cenário, a preparação das empresas deve partir de um diagnóstico amplo.

Não apenas dos tributos atuais, mas de toda a cadeia que gera a informação tributária.

É necessário compreender como os cadastros são mantidos, como documentos entram no sistema, como compras são realizadas, como preços são formados, quais contratos precisam de revisão, como os créditos são conciliados e qual capacidade o ERP possui para suportar o novo ambiente.

Também é essencial definir responsabilidades.

Um projeto dessa magnitude precisa ter governança, cronograma, responsáveis, marcos, riscos, testes, validações e acompanhamento executivo.

Quando todos são genericamente responsáveis, normalmente ninguém é efetivamente responsável.

Conclusão

A Reforma Tributária sobre o consumo não deveria ser interpretada apenas como uma mudança na maneira de calcular tributos.

Ela altera a relevância de dados, processos, controles e integrações que começam muito antes da apuração fiscal e terminam muito depois dela.

O crédito tributário precisa ser tratado como informação econômica.

O cadastro precisa ser entendido como controle interno.

O fornecedor deve ser avaliado pelo custo econômico da transação.

O efeito tributário precisa chegar à formação de preços.

A contabilidade precisa estar preparada para conciliar e explicar os novos saldos.

E a tesouraria precisa compreender os impactos sobre liquidez e capital de giro.

Por isso, o sucesso da transição dependerá menos da atuação isolada de uma única área e mais da capacidade das empresas de conectar fiscal, contabilidade, controladoria, tecnologia, compras, jurídico, comercial e financeiro.

A Reforma Tributária cria uma obrigação de adequação.

Mas também cria uma oportunidade.

Empresas podem utilizar esse processo para corrigir fragilidades que já existiam: cadastros inconsistentes, ausência de conciliações, excesso de ajustes manuais, sistemas mal parametrizados e pouca integração entre tributação e gestão.

Calcular corretamente IBS e CBS será obrigação.

Transformar as informações geradas por esse novo ambiente em melhores decisões contábeis, financeiras e empresariais será gestão.



Fonte Oficial: https://www.contabeis.com.br/artigos/78825/reforma-tributaria-gestao-integrada-e-impactos-empresariais/

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