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FIFA e o prejuízo contábil dos países sedes

A Federação Internacional de Futebol (FIFA) opera como uma das entidades esportivas mais ricas do planeta, estruturando a Copa do Mundo como seu principal motor financeiro. A engrenagem econômica por trás do torneio envolve acordos fiscais complexos, isenções governamentais rígidas e uma estrutura corporativa desenhada para maximizar o lucro e a redistribuição global.

Mas, para os países sede o custo de infraestrutura esportiva e urbana supera os ganhos indiretos com turismo e impostos locais.

Por que a conta não fecha para as sedes?  

Socialização de custos e privatização de lucros: O país-sede arca com 100% dos custos de construção, reforma de estádios, segurança pública e telecomunicações. A FIFA arrecada e retém as maiores fontes de receita (TV, patrocínios e ingressos) livres de impostos.

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O fenômeno dos “Elefantes Brancos”: Estádios padrão FIFA construídos em cidades sem mercado de futebol local geram custos de manutenção permanentes após o evento. Casos emblemáticos ocorrem em Brasília, Manaus e Cuiabá (Copa 2014), além de arenas construídas na África do Sul (2010).

Desvio de investimento público: Recursos que poderiam financiar áreas estruturais (saúde, educação e saneamento) são imobilizados em projetos esportivos supérfluos para a realidade local.

Onde estão os retornos (não financeiros)?

Apesar do prejuízo contábil imediato, os governos justificam o investimento por meio de benefícios intangíveis ou de longo prazo:

Legado de infraestrutura urbana: Aeroportos expandidos, novas linhas de metrô, investimentos em VLT e modernização de telecomunicações que permanecem para a população [].

Diplomacia pública e projeção de imagem: O torneio serve como vitrine global para promover o país como destino turístico e hub de negócios internacionais.

Ganho de curto prazo para o comércio: Hotéis, bares, restaurantes e o setor de serviços registram picos de faturamento durante as semanas do evento com o consumo dos turistas.

Faturamento com a Copa do Mundo

A imensa maioria da receita da FIFA é gerada em ciclos de quatro anos, culminando no ano da Copa do Mundo masculina. O ciclo comercial recente (como o da Copa de 2022 no Catar) quebrou recordes ao arrecadar cerca de US$ 7,5 bilhões, e as projeções para o ciclo expandido da Copa de 2026 (EUA, Canadá e México) superam os US$ 11 bilhões.

As fontes de faturamento dividem-se em cinco pilares principais:

Direitos de Transmissão de TV: Representam entre 45% e 50% do bolo total. Emissoras do mundo todo pagam bilhões para exibir as partidas.

Direitos de Marketing (Patrocínios): Grandes marcas globais compram cotas de patrocínio divididas em níveis (Parceiros FIFA, Patrocinadores da Copa do Mundo e Apoiadores Regionais).

Venda de Ingressos (Ticketing): Controlada diretamente pela FIFA por meio de uma subsidiária de hospitalidade e vendas.

Direitos de Licenciamento: Royalties sobre a marca do torneio em videogames, vestuário, colecionáveis (como álbuns de figurinhas) e produtos oficiais.

Hospitalidade: Pacotes de luxo corporativos vendidos para camarotes e experiências exclusivas nos estádios.

Enquadramento Jurídico e Localização

A FIFA está sediada em Zurique, na Suíça. Ela é registrada nos termos do Artigo 60 e seguintes do Código Civil Suíço.

Enquadramento: Associação sem fins lucrativos (Verein).

Propósito Declarado: Desenvolver, promover e regular o futebol mundial.

Implicação: Por ser uma associação, a FIFA não tem acionistas. Todo o superávit financeiro deve ser reinvestido no desenvolvimento do esporte globalmente e na manutenção da própria entidade.

Estrutura Societária e Governança

A FIFA não possui “sócios” no sentido empresarial clássico (donos de cotas ou ações). Sua estrutura baseia-se em governança associativa:

Membros: Composta por 211 associações nacionais de futebol (como a CBF no Brasil ou a FA na Inglaterra).

Congresso da FIFA: O órgão legislativo supremo, onde cada uma das 211 associações tem direito a um voto.

Conselho da FIFA: O órgão estratégico e executivo que toma as principais decisões políticas e organizacionais.

Subsidiárias Locais: Para cada edição da Copa do Mundo, a FIFA cria entidades temporárias de propósito específico, conhecidas como FIFA World Cup LLC ou comitês organizadores locais totalmente controlados por ela. Isso isola os riscos jurídicos e financeiros de cada torneio.

Toda a Tributação da FIFA na Copa do Mundo

A estratégia tributária da FIFA é o aspecto mais debatido e crítico de sua operação econômica. Ela combina privilégios locais na Suíça com exigências contratuais severas aos países que sediam a Copa do Mundo.

Tributação na Sede (Suíça)

Como uma associação sem fins lucrativos registrada na Suíça, a FIFA historicamente goza de alíquotas fiscais corporativas altamente favoráveis em comparação com corporações tradicionais. O imposto federal e cantonal sobre o lucro de associações é substancialmente menor. A Suíça tributa apenas o lucro líquido gerado que não seja diretamente voltado para os fins estatutários beneméritos da associação.

Exigência de Isenção Fiscal Total nos Países-Sede

O pilar central da lucratividade da Copa do Mundo ocorre fora da Suíça. Para que um país ganhe o direito de sediar o torneio, o governo federal deve assinar as chamadas Garantias Governamentais (Government Guarantees) exigidas pela FIFA.

Essas garantias exigem, por lei, a criação de uma “Bolha Fiscal” que zera quase todos os impostos incidentes sobre as operações da FIFA e de suas subsidiárias no território do evento. No Brasil (Copa de 2014), isso foi formalizado pela Lei Geral da Copa (Lei nº 12.663/12).

As isenções geralmente abrangem:

Imposto sobre a Renda (IR): A FIFA, suas subsidiárias corporativas, emissoras parceiras e prestadores de serviços estrangeiros ficam isentos de pagar imposto sobre os lucros gerados no país do torneio.

Impostos sobre Consumo e Transações (IVA, ISS, ICMS): Nenhuma taxa incide sobre a venda de ingressos, serviços de transmissão ou produtos oficiais da marca FIFA dentro do país-sede.

Impostos de Importação/Tarifas Aduaneiras: Equipamentos de transmissão, material esportivo, tecnologia e brindes entram no país sem pagar taxas alfandegárias, desde que reexportados após o evento ou consumidos nele.

Quem Paga Impostos na Copa do Mundo?

A isenção fiscal não se estende de forma generalizada a toda a cadeia econômica. A regra de isenção protege a FIFA, seus parceiros comerciais diretos, oficiais da entidade e delegações.

Por outro lado, o fisco local costuma arrecadar sobre:

Empresas Locais Terceirizadas: Hotéis, restaurantes, construtoras, empresas de segurança privada e transporte contratadas localmente pagam seus impostos corporativos normais.

Consumo dos Turistas: O turismo gerado (gastos de torcedores com alimentação, hospedagem e transporte fora dos estádios) é tributado pelas regras ordinárias do país, sendo essa a principal contrapartida econômica direta alegada pelos governos defensores do evento.

Salários e Prêmios: Os jogadores de futebol e comissões técnicas podem estar sujeitos à retenção de imposto de renda sobre as premiações recebidas, dependendo dos acordos bilaterais específicos e da legislação interna do país onde as partidas ocorrem.

Síntese do Fluxo Econômico

Em resumo, a FIFA opera como um ecossistema financeiro blindado. Ela capta receitas globais bilionárias, centraliza esses recursos em sua estrutura de associação na Suíça sob forte proteção fiscal, e delega os custos de infraestrutura pesada (estádios, segurança pública, mobilidade urbana) aos governos dos países-sede, os quais renunciam a sua soberania tributária sobre o evento para garantir o privilégio de realizá-lo.



Fonte Oficial: https://www.contabeis.com.br/artigos/77763/fifa-e-o-prejuizo-contabil-dos-paises-sedes/

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