Há uma leitura na praça de que o atual conflito no Oriente Médio não seria uma guerra propriamente norte-americana, mas alguma forma de influência de Israel em moldar o olhar dos EUA para região. John Mearsheimer e Stephen Walt, dois nomes dos mais prestigiados analistas de política internacional, escreveram um trabalho que retrata historicamente tal influência. Em “The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy”, os autores argumentam que a política americana para a região do levante não refletiria o interesse nacional dos EUA, mas a relação estreita com Israel.
O questionamento das motivações norte-americanas tem razão de ser. A popularidade de Trump, de acordo com a pesquisa Ipsos/Reuters, desabou de 40% para 36%, movimento preocupante em pleno ano eleitoral. A eventual perda da maioria pelo partido republicano nas casas legislativas reduz o poder decisório do presidente, colocando em risco a política Make America Great Again (MAGA).
Um documento de segurança nacional, de 2025, autoriza estranhar as razões para entrada dos EUA na guerra. De acordo com o documento: “Devemos encorajar e aplaudir reformas quando e onde elas surgirem de forma orgânica, sem tentar impô-las de fora. A chave para relações bem-sucedidas com o Oriente Médio é aceitar a região, seus líderes e suas nações como eles são, ao mesmo tempo em que se trabalha em conjunto em áreas de interesse comum”.
Dito de modo mais direto: o discurso era de evitar ações com objetivo de derrubar regimes, vistas como caras e pouco eficientes. O resultado é que os EUA entraram em um conflito cujo resultado poderá alterar a paisagem política do Oriente Médio e inaugurar o ponto de partida de uma nova geopolítica.
Em alguma medida, esse conflito começa em 1979 com a Revolução Iraniana. A mensagem anti-imperialista do governo Khomeini levou a um sanguinário conflito entre Irã e Iraque, já patrocinado pelos EUA. Desde, então, o Irã se torna a maior resistência aos interesses de Israel e EUA.
O primeiro mandato Trump olhou para o Oriente Médio sobre a égide da modernização econômica. A ideia fundamental dos “Acordos de Abraaão” era normalizar as relações dos países árabes com Israel e deslocar a atenção para os conflitos relativos a causa palestina para o processo de modernização econômica, especialmente na região do Golfo.
A ação do Hamas em 2023 contra Israel trouxe de volta a questão palestina para a agenda e rompeu com a ideia de que o país estaria protegido pelos seus mecanismos de defesa. A percepção de vulnerabilidade aumentou a força de Israel contra o eixo da resistência. Faltava apenas o conflito contra o Irã, patrocinador da luta dessas organizações.
Não falta mais. EUA e Israel buscaram a queda do regime iraniano, movimento que lhes garantiriam o controle de uma área estratégica para enfrentamento da China. Minha leitura é que independentemente do resultado, a geopolítica mundial não será a mesma de antes. A política de impor regimes promovida por Trump deve afastar as potencias emergentes da esfera de influência norte-americana, incluindo o Brasil.
A eventual vitória dos EUA poderia incentivar Trump a reforçar sua influência na política doméstica, algo já experimentado por Canadá, México e obviamente, Venezuela. Os EUA seriam percebidos como potência do tipo imperialista.
Se os EUA e Israel por meio da força militar conseguirem destruir a infraestrutura econômica e estatal do Irã, o poder de barganha na relação com a China e os demais países do leste-asiático aumenta substancialmente. A rivalidade sino-americana tende a crescer e deverá animar eventual ação militar chinesa em Taiwan.
A Europa também perderia poder de barganha com os EUA, dada sua dependência energética. Os europeus ficariam duplamente afetados na sua segurança energética, dada a crise com a Rússia e o controle dos EUA em caso de vitória no conflito diante da dependência europeia de energias oriundas da região.
Por outro lado, a eventual vitória iraniana colocaria o fim ao Oriente Médio como é hoje. O protagonismo iraniano quebra a lógica de sobrevivência dos países do Golfo e, no limite, reflete ameaça existencial para Israel. A parceria estratégica com a China levaria a um cinturão “antiocidental” bastante robusto, formado também por Rússia e Coréia do Norte, ambos com acesso à arsenal nuclear.
Não por um acaso, o dilema de Trump. Se focar no longo prazo, deve ter sérios prejuízos políticos com a provável derrota republicana nas eleições legislativas. Se pensar no curto prazo, reforça a ação militar na região mesmo sob o custo humanitário para garantir o mínimo de influência para o país diante da resistência iraniana. Israel e os demais países do golfo operariam sob regime de constante incerteza sob essa nova geopolítica.
O desmanche das organizações multilaterais promovido pelos EUA reforçou tendências expansionistas e rivalidades regionais. Veremos a nova versão do movimento que no passado gerou duas grandes guerras.
Que a História, mais uma vez, se mostre uma farsa.
RAFAEL CORTEZ
Doutor em Ciência Política (USP), professor do IDP-SP e sócio da Tendências Consultoria.
O post ARTIGO, por Rafael Cortez: “Conflito no Oriente Médio deve inaugurar uma nova geopolítica” apareceu primeiro em DC News.
Fonte Oficial: https://agenciadcnews.com.br/artigo-por-rafael-cortez-conflito-no-oriente-medio-deve-inaugurar-uma-nova-geopolitica/