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A economia em ano de eleições


Reações do mercado serão fortemente influenciadas pelas propostas de política fiscal

Antonio Lanzana*

Desde a famosa frase do consultor político norte-americano James Carville — “É a economia, estúpido” —, proferida durante a campanha de Bill Clinton nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, em 1992, a relação entre economia e política passou a ser muito discutida. Considerando que haverá eleições neste ano no Brasil, cabe analisar como a economia poderá ser afetada por esse cenário, uma vez que o pleito já está no radar dos agentes econômicos. Para isso, é importante separar os lados real e financeiro da economia.

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Quanto ao primeiro, vale destacar que o nível de atividade é menos sensível ao processo eleitoral e deve continuar o processo de desaceleração verificado ao longo do ano passado, crescendo 1,8%, contra 2,3% em 2025 e 3,4% no ano anterior. A perspectiva de desaceleração pode ser explicada por pelo menos quatro motivos: efeito defasado do aumento dos juros sobre o Produto Interno Bruto (PIB), estimado em dois a três quadrimestres; mesmo com a perspectiva de início do processo de queda da Selic, as taxas reais de juros permanecerão extremamente elevadas, podendo encerrar este ano em torno de 8% (acima da inflação); o crescimento da inadimplência está levando os bancos a serem mais seletivos na concessão de crédito, reduzindo o ritmo de crescimento dos empréstimos tanto para pessoas físicas como jurídicas; e, em menor escala, os efeitos gerados pelas tarifas impostas pelo governo norte-americano, principalmente sobre alguns setores industriais.

Quanto à análise da influência das eleições sobre o lado financeiro da economia (ações, juros e câmbio), o quadro é muito diferente, porque são variáveis que reagem quase que instantaneamente aos fatos. Nesse campo, em 2026, não se pode descartar a perspectiva de muita volatilidade, principalmente pelas propostas para a área econômica dos principais candidatos. Sabe-se que a situação fiscal brasileira é preocupante, dado que a relação entre dívida e PIB deve passar de 71,7% no fim do governo anterior, para 83% a 84% no encerramento do atual mandato, um aumento de mais de 10 pontos porcentuais (p.p.).

É um quadro insustentável. Considerando que nada vai mudar em 2026, as reações do mercado serão fortemente influenciadas pelas propostas de política fiscal, uma vez que os demais instrumentos de política econômica estão bem conduzidos — na área cambial, com o dólar flutuante, e na monetária, com a independência do Banco Central (BC), o que é extremamente positivo. Independentemente de quem vencer, as reações antes e depois da eleição vão se basear no conjunto de propostas para a área fiscal e sua viabilidade.

Nesse contexto, pode-se identificar duas possibilidades. A primeira englobando propostas que demonstrem claramente e de forma crível que a relação entre dívida e PIB pode ser estabilizada num primeiro momento e, posteriormente, entrar num processo de redução — passando, necessariamente, por mudanças nas regras fiscais atuais —; mais transparência na forma de obtenção dos indicadores, sem retirar do cálculo despesas efetuadas unicamente com o objetivo de atingir a meta de superavit primário; desvincular despesas previdenciárias da evolução do salário mínimo; e substituir o atual arcabouço fiscal. Nessa hipótese, juros podem cair de forma expressiva num momento posterior e o câmbio pode se apreciar, além de haver efeitos positivos sobre o mercado de ações.

Um quadro completamente diferente poderá ser observado na ausência de propostas na área fiscal, ou mesmo sem viabilidade e credibilidade, ou ainda na insistência na manutenção das regras atuais. Isso pode levar a um cenário de dominância fiscal, e o Brasil continuará convivendo com taxa de câmbio depreciada, juros elevados e riscos de aceleração inflacionária e de crescimento medíocre. Fortes emoções aguardam os agentes econômicos.

*Presidente do Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política da FecomercioSP e professor na Universidade de São Paulo (USP) e na Fundação Dom Cabral (FDC)

Texto publicado originalmente na Revista Problemas Brasileiros, uma realização da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

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Fonte Oficial: https://www.fecomercio.com.br/noticia/a-economia-em-ano-de-eleicoes

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