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ARTIGO, por Marcelo Candido de Melo: “Quem é mais machista, você ou sua empresa?”

Desculpe aí se a minha pergunta é meio capciosa. Te convido a me acompanhar até o final da coluna. O desculpe aí é uma homenagem ao jovem zagueiro do RedBull Bragantino, Gustavo Marques. Ele foi infeliz nas declarações após seu time ser eliminado do campeonato paulista pelo São Paulo, disse que mulher não pode apitar um jogo daquele tamanho, chamou a juíza de desonesta e intuiu que fazia besteira e soltou um “desculpe aí”. Depois que o estrago começou a escalar, ao tentar se retratar disse que a própria mulher e a mãe o xingaram. E, reincidiu no erro retórico ao dizer que estava sendo homem de pedir desculpas.

Confesso que não sei o que é justo nesse caso, me parece que, sem me preocupar com o machismo da expressão ou não, não se deve fazer de Gustavo, um “boi de piranha” de um problema que é muito maior. O machismo, a misoginia e os efeitos negativos do patriarcado não estão apenas nos estádios de futebol. Estão nas empresas e também nos consultórios de psicanálise. Ou seja, estão onde estão os seres humanos, esse é o desafio.

Não saberia julgar se foram mais graves a fala do zagueiro ou a do empreendedor bilionário Tallis Gomes e o seu “Deus me livre de mulher CEO” proferida em 2024, também com enorme repercussão e pelo que ouvi de outra entrevista dele mês passado, com baixíssimo efeito prático na visão de mundo. Também já disse que “não respeita gordos” e por aí vai.

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Mas o que a psicanálise tem a ver com tudo isso? Ela pode ajudar? Não é raro Sigmund Freud ser acusado de machista porque o seu conceito de Complexo de Édipo é visto como sustentação do patriarcado e a tal “inveja do pênis” como uma imposição às mulheres a uma inferioridade. Se Freud não foi o maior revolucionário, isso é injusto, porque dizer tudo aquilo no início do século 20 requeria coragem e abertura, não foi um feminista, foi um homem de seu tempo, e nesse tempo, deve ser visto como alguém progressista e muito avante, encarando questões complexas de serem conversadas e dirigidas até hoje, um século depois. Criou toda uma área de pensamento a partir da escuta das histéricas, a quem não era dado voz, denunciou e reconheceu as consequências nefastas da repressão sexual feminina e a importância do desejo na vida das pessoas, sendo crítico ao duplo padrão moral que se tinha para homens e mulheres.

Lendo o seu “A moral sexual ‘cultural’ e o nervosismo moderno” de 1908 se reforça que ele entendia que homens e mulheres tinham necessidades e desejos, que os delas eram mais reprimidos pela cultura. É interessante notar como as coisas caminham devagar, Freud cita outro autor num texto de 1893, o neurologista Wilheim Erb, que diz “a ausência de religião, a insatisfação e a cobiça aumentaram em amplos círculos do povo; graças às comunicações, que atingiram crescimento incomensurável, graças as redes de telégrafo e do telefone, que envolvem o mundo, as condições de comércio mudaram inteiramente; tudo se faz com pressa e agitação […] tornam-se fatigantes para o sistema nervoso”. Imagina se vivessem em tempos de redes sociais. Você que me lê, já recebeu um telegrama? Se sim, o último foi há quantos anos?

E Jacques Lacan e o seu “a mulher não existe” tampouco escapa das análises apressadas e superficiais. Aliás, o que ele quis dizer é sobre a dificuldade de se universalizar a essência feminina, mantendo as singularidades, que na minha opinião são também extensíveis aos homens, e a frase é o oposto do machismo, diz da impossibilidade de uma definição que esgote o feminino. Lacan sempre viu o falo como um significante da falta, para este texto correndo risco de simplificar demais, significante vai além do som de uma palavra e que produz efeito numa cadeia da fala, impacta nossa maneira de pensar e desejar, mas o mais importante do que ele disse é a falta, somos seres faltantes.

E isso engloba os líderes, o dono da empresa, o diretor, por mais que eles tentem parecer suficientes e sabedores, que na maioria das vezes precisam de mais pessoas porque não tem tempo suficiente. Claro que todo mundo é inteligente o bastante para aderir ao discurso de que o segredo do grande líder é contratar pessoas melhores do que ele. Não discordo da teoria, tenho um tanto de dificuldades de encarar isso na prática, mas aí iríamos entrar no narcisismo que já foi abordado em outra coluna.

E, importante ressaltar, não são apenas os homens que são machistas, mulheres também podem incidir no mesmo erro, as mudanças estruturais são de fato desafiadoras, Freud lembrava que a educação e a cultura tinham papel determinante e não havia diferença intelectual. Escutando o podcast Abuso da jornalista Ana Paula Araújo é possível saber de um caso onde uma jovem teve sua bicicleta roubada e foi estuprada, e depois de muitas dificuldades para dar procedimento ao caso, o estuprador foi absolvido por uma juíza mulher que ainda incluiu na sentença que a jovem seduziu o homem porque precisa ter acesso a um aborto legal. Não, eu não estou doido, está lá, e sim, usei um exemplo radical de mulher machista, esses são fáceis de serem identificados e combatidos, os piores são as coisas mais sutis.

Então, volto a pergunta do título da coluna. Quem é mais machista, você ou a cultura que ajudou a construir ou propagar? Está passando a hora de olharmos de maneira mais efetiva para tudo isso, as posições como um todo irão mudar, as zonas de conforto e desconforto irão se alterar. A decisão de quem deve apitar um jogo de futebol deve ser técnica. E, muito mais verdade, pedir desculpas por erro não requer hombridade, requer também mulheridade, no sentido errado da palavra. Faça um exercício, digite “hombridade sinônimo” e conclua você mesmo se a cultura não está infectada pelo patriarcado.

O que fazer? Apenas não normalizar e não passar pano para jogador de futebol, empreendedor de sucesso, juíza e nós mesmos quando escorregamos, é pouco. Encontre como irá combater o machismo, os efeitos deletérios do patriarcado, existem várias possibilidades.  Pode ser apenas uma puxação de sardinha para o meu lado, mas uma análise também pode incluir essa temática, focamos mais no individual, na sua singularidade, e sem dúvida, ela perpassa essa temática. Bota seu inconsciente para falar. Só não pode ficar parado! O mundo fica muito mais interessante se mais igual, apesar de todas as inúmeras diferenças. Fazer a diferença é lutar contra as diferenças falsas e inventadas.

MARCELO CANDIDO DE MELO
Escritor e psicanalista, é graduado e pós-graduado em administração pela EAESP-SP da FGV. Atuou na área de marketing de grandes empresas nacionais e multinacionais antes de empreender no mercado editorial. Sua editora alcançou bastante sucesso e foi adquirida por uma multinacional. Já escreveu 18 livros em seu nome ou como ghost-writer. Dá atenção especial à produção ficcional. Também já fez roteiro de documentário. Nos últimos anos mergulhou numa formação em psicanálise e desenvolve atividade clínica. 

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Fonte Oficial: https://agenciadcnews.com.br/artigo-por-marcelo-candido-de-melo-quem-e-mais-machista-voce-ou-sua-empresa/

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