Modernizar a jornada significa construir um caminho em que o trabalhador possa viver melhor sem que o emprego formal se torne mais escasso ou mais instável
O debate sobre a modernização da jornada de trabalho é legítimo e relevante para o bem-estar dos trabalhadores e para a dinâmica econômica do País. O objetivo social é claro: saúde e qualidade de vida. Para tanto, é necessário colocar também como aspecto central os impactos sobre a competitividade, a produtividade e a precarização dos empregos no Brasil.
Sob o ponto de vista econômico, o emprego formal é um ativo social que precisa ser preservado. Segundo o IBGE, em 2025, o Brasil tinha 38,9 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado. Já o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) registrou estoque de 48,45 milhões de vínculos celetistas em dezembro de 2025 (Novo Caged). Essas bases capturam recortes diferentes do mercado de trabalho, mas convergem ao indicar a dimensão do contingente formal que deve estar no centro de qualquer mudança.
Pesquisas recentes indicam que uma parcela elevada das empresas relata dificuldade para preencher vagas e reter trabalhadores, enquanto entidades apontam a escassez de mão de obra qualificada como entrave recorrente.
Modernizar a jornada não significa escolher entre qualidade de vida e atividade econômica. Significa construir um caminho em que o trabalhador possa viver melhor sem que o emprego formal se torne mais escasso ou mais instável. Para isso, é necessário reconhecer que a forma como a mudança é implementada importa tanto quanto o objetivo que se busca alcançar.
Na Indústria, o Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027 (Senai/CNI) estima necessidade de qualificar cerca de 14 milhões de pessoas no período. Paralelamente, há relatos setoriais de volumes expressivos de vagas abertas não preenchidas, como no varejo supermercadista, citado com mais de 350 mil vagas em recorte recente. No setor de transportes, mais de 65% das empresas do transporte de cargas e mais de 53% das empresas de transporte urbano de passageiros já relatam falta de motoristas, o que pode comprometer a regularidade dos serviços prestados à população.
A experiência internacional aponta que, nos países onde ocorreu a redução do número de horas trabalhadas, o debate evoluiu por meio de um processo histórico vinculado a ganhos de produtividade. Quando a produção por hora trabalhada cresce, a sociedade consegue reduzir o volume de trabalho e preservar renda e preços. Isto torna o processo sustentável.
No entanto, quando a mudança ocorre sem esse equilíbrio, o resultado pode ser o aumento de custos, a redução de contratações formais e/ou o repasse de preços para o consumidor. Nenhum desses cenários favorece o Brasil, seus trabalhadores e suas empresas. Nesse contexto, o País precisa acelerar a qualificação, ampliar oportunidades e viabilizar a adoção de tecnologia e inovação, sustentando a produtividade.
O ordenamento jurídico já dispõe de mecanismos de ajuste por meio de negociação, e a Reforma Trabalhista ampliou instrumentos para acomodar heterogeneidades por setor e atividade. O desafio, portanto, não é apenas “mudar a regra”, mas calibrar a implementação para que diferentes realidades produtivas — operações contínuas, serviços essenciais, picos sazonais e distintos portes empresariais — possam se adaptar sem rupturas.
Diante disso, defendemos que essa discussão tenha por base quatro princípios:
1. preservação do emprego formal e redução de incentivos à informalidade: cerca de 40% da população economicamente ativa está na informalidade. A redução de incentivos à informalidade, direcionando estratégias e políticas que observem diferenças setoriais e por porte de empresa, é essencial ao crescimento econômico e ao desenvolvimento social sustentável do País;
2. produtividade como base para a sustentabilidade e os desenvolvimentos social e econômico: a adoção de medidas concretas para aumentar a produtividade, tais como qualificação e difusão tecnológica, é urgente;
3. diferenciação por setor e uso de negociação coletiva: reconhecer a heterogeneidade do mercado de trabalho e focar em ajustes setoriais — seja por atividade, seja por meio da negociação coletiva —, ao permitir ajustar escalas, turnos e limites de trabalho de forma adaptada ao contexto do setor e da região;
4. discussão técnica aprofundada e governança de diálogo social: mudanças estruturais como a dos limites constitucionais da jornada laboral devem ser fundamentadas em debates técnicos aprofundados que considerem impactos e alternativas, com governança, mediante o diálogo social centrado no consenso entre trabalhadores, empregadores e Poder Público.
Os setores produtivos defendem que a sociedade avance no diálogo sobre o tema com maturidade, acolhendo a importância do debate e garantindo que este ocorra sem abrir mão de discutir, com profundidade e base em elementos técnicos. Colocar esses pontos no centro do diálogo é assegurar que ele caminhe na direção correta.
As mudanças estruturais que nascem do enfrentamento responsável de seus detalhes protegem melhor, duram mais e entregam resultados reais. É isso que se espera de uma agenda dessa dimensão. A não observância dos efeitos nos custos de produção e seus reflexos nos preços de bens e serviços essenciais (como alimentação, medicamentos, transporte e outros serviços cotidianos) tem o risco de produzir um paradoxo: ampliação formal do limite de um direito e redução do bem-estar material por meio, por exemplo, da perda do poder de compra.
Proteger quem mais precisa significa, também, prevenir que mudanças provoquem aumento da informalidade, da necessidade de aumento do volume de trabalho para obter renda complementar e esvaziamento da promessa de melhoria de qualidade de vida.
Focados na responsabilidade social do tema, conclamamos a todos os atores envolvidos, como Poder Público, autoridades, trabalhadores e sociedade civil, para a construção de um diálogo responsável, pautado pela racionalidade, pela busca de consensos e pela análise rigorosa dos dados.
Nesse sentido, considera-se recomendável que o aprofundamento dessa pauta ocorra fora do ambiente de disputas eleitorais, em momento mais propício à construção de consensos duradouros e de soluções equilibradas, evitando que decisões pressionadas possam comprometer a qualidade de políticas públicas e seus efeitos sobre o País. Somente com maturidade social poderemos avançar para construir um futuro de trabalho mais justo, produtivo e equitativo para todos os brasileiros.
Confira as entidades signatárias:
ABAD — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ATACADISTAS E DISTRIBUIDORES
ABAG — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO AGRONEGÓCIO
ABAG/RP — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO AGRONEGÓCIO DA REGIÃO DE RIBEIRÃO PRETO
ABCS — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS CRIADORES DE SUÍNOS
ABCZ — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS CRIADORES DE ZEBU
ABERC — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS EMPRESAS DE REFEIÇÕES COLETIVAS
ABIA — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE ALIMENTOS
ABIEC — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE CARNE
ABIFUMO — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DO FUMO
ABIMAQ — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS
ABIOGÁS — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO BIOGÁS E DO BIOMETANO
ABIÓPTICA — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS ÓPTICAS
ABIOVE — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DE ÓLEOS VEGETAIS
ABIPESCA — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DE PESCADOS
ABIR — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DE REFRIGERANTES E DE BEBIDAS NÃO ALCOÓLICAS
ABISOLO — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DE TECNOLOGIA EM NUTRIÇÃO VEGETAL
ABIT — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA TÊXTIL E DE CONFECÇÃO
ABLOS — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS LOJISTAS SATÉLITES DE SHOPPINGS
ABPA — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PROTEÍNA ANIMAL
ABRABOR — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PRODUTORES E BENEFICIADORES DE BORRACHA NATURAL
ABRAFESC — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FACTORING, SECURITIZAÇÃO E EMPRESAS SIMPLES DE CRÉDITO
ABRAFRIGO — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FRIGORÍFICOS
ABRAFRUTAS — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTOS EXPORTADORES DE FRUTAS E DERIVADOS
ABRAMILHO — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTORES DE MILHO
ABRAPA — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTORES DE ALGODÃO
ABRAS — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SUPERMERCADOS
ABRASCA — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS COMPANHIAS ABERTAS
ABRASCE — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SHOPPING CENTERS
ABRASEL — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE BARES E RESTAURANTES
ABRASEM — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SEMENTES E MUDAS
ABRASS — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTORES DE SEMENTES DE SOJA
ABREMA — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RESÍDUOS E MEIO AMBIENTE
ABTP — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS TERMINAIS PORTUÁRIOS
ACAD BRASIL — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ACADEMIAS
ACRIMAT — ASSOCIAÇÃO DOS CRIADORES DE MATO GROSSO
ADIAL — ASSOCIAÇÃO PRÓ-DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL DO ESTADO DO GOIÁS
AELO — ASSOCIAÇÃO DAS EMPRESAS DE LOTEAMENTO E DESENVOLVIMENTO URBANO
AENDA — ASSOCIAÇÃO NACIONAL DAS EMPRESAS DE PRODUTOS FITOSSANITÁRIOS
AMA BRASIL — ASSOCIAÇÃO DOS MISTURADORES DE ADUBOS DO BRASIL
AMPA — ASSOCIAÇÃO MATO-GROSSENSE DOS PRODUTORES DE ALGODÃO
ANDAV — ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS DISTRIBUIDORES DE INSUMOS AGRÍCOLAS E VETERINÁRIOS
ANR — ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE RESTAURANTES
APROSMAT — ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE SEMENTES DE MATO GROSSO
APROSOJA BR — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTORES DE SOJA
APROSOJA MS — ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE SOJA DE MATO GROSSO DO SUL
APROSOJA MT — ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE SOJA E MILHO DO ESTADO DE MATO GROSSO
BIOENERGIA BRASIL
BIOSUL — ASSOCIAÇÃO DE PRODUTORES DE BIOENERGIA DE MATO GROSSO DO SUL
CACB — CONFEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES COMERCIAIS E EMPRESARIAIS DO BRASIL
CBIC — CÂMARA BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO
CEBRASSE — CENTRAL BRASILEIRA DO SETOR DE SERVIÇOS
CECAFÉ — CONSELHO DOS EXPORTADORES DE CAFÉ DO BRASIL
CIESP — CENTRO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO
CITRUSBR — ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS EXPORTADORES DE SUCOS CÍTRICOS
CNA — CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL
CNC — CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO COMÉRCIO DE BENS, SERVIÇOS E TURISMO
CNDL — CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE DIRIGENTES LOJISTAS
CNI — CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA
CNseg — CONFEDERAÇÃO NACIONAL DAS SEGURADORAS
CNT — CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO TRANSPORTE
CROPLIFE BRASIL
FAEP — FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA DO ESTADO DO PARANÁ
FAESP — FEDERAÇÃO DE AGRICULTURA E PECUÁRIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
FAMASUL — FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DE MATO GROSSO DO SUL
FAMATO — FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO MATO GROSSO
FBHA — FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE HOTEIS E ALIMENTAÇÃO
FECOMERCIO-SP — FEDERAÇÃO DO COMÉRCIO DE BENS, SERVIÇOS E TURISMO DO ESTADO DE SÃO PAULO
FENEP — FEDERAÇÃO NACIONAL DAS ESCOLAS PARTICULARES
FENERC — FEDERAÇÃO NACIONAL DAS EMPRESAS DE REFEIÇÕES COLETIVAS
FENINFRA — FEDERAÇÃO NACIONAL DE CALL CENTER, INSTALAÇÕES E MANUTENÇÃO DE INFRAESTRUTURA DE REDES DE TELECOMUNICAÇÕES DE INFORMÁTICA
FEPLANA — FEDERAÇÃO DOS PLANTADORES DE CANA DO BRASIL
FIEG — FEDERAÇÃO DE INDÚSTRIAS DO ESTADO DE GOIÁS
FIEMT — FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE MATO GROSSO
FIEP — FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO PARANÁ
FIEPE — FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE PERNAMBUCO
FIERGS — FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
FIESP — FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO
FIRJAN — FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
FOHB — FÓRUM DE OPERADORES HOTELEIROS DO BRASIL
IBÁ — INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES
IBISA — INSTITUTO BRASILEIRO PARA INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE DO AGRONEGÓCIO
IBL — INSTITUTO BRASIL LOGÍSTICA
IBRAM — INSTITUTO BRASILEIRO DE MINERAÇÃO
ILIM — INSTITUTO LIVRE MERCADO
MCB — MOVIMENTO BRASIL COMPETITIVO
OCB — ORGANIZAÇÃO DAS COOPERATIVAS BRASILEIRAS
ORPLANA — ORGANIZAÇÃO DE ASSOCIAÇÕES DE PLANTADORES DE CANA DO BRASIL
REFINA BRASIL — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS REFINADORES PRIVADOS
SEAC/MG — SINDICATO DAS EMPRESAS DE ASSEIO E CONSERVAÇÃO NO ESTADO DE MINAS GERAIS
SECOVI/SP — SINDICATO DA HABITAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO
SINDAG — SINDICATO NACIONAL DAS EMPRESAS DE AVIAÇÃO AGRÍCOLA
SINDAN — SINDICATO NACIONAL DA INDÚSTRIA DE PRODUTOS PARA SAÚDE ANIMAL
SINDEPAT — SISTEMA INTEGRADO DE PARQUES E ATRAÇÕES TURÍSTICAS
SINDESP/MG — SINDICATO DAS EMPRESAS DE SEGURANÇA E VIGILÂNCIA DO ESTADO DE MG
SINDIRAÇÕES — SINDICATO NACIONAL DA INDÚSTRIA DE ALIMENTAÇÃO ANIMAL
SINDIVEG — SINDICATO NACIONAL DA INDÚSTRIA DE PRODUTOS PARA DEFESA VEGETAL
SINFAC/SP — SINDICATO DAS SOCIEDADES DE FOMENTO MERCANTIL FACTORING DO ESTADO DE SÃO PAULO
SRB — SOCIEDADE RURAL BRASILEIRA
SUCOSBR — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DE SUCO INTEGRAL
UNEM — UNIÃO NACIONAL DO ETANOL DE MILHO
ÚNICA — UNIÃO DA INDÚSTRIA DE CANA-DE-AÇÚCAR
VIVA LÁCTEOS — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LATICÍNIOS
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Fonte Oficial: https://www.fecomercio.com.br/noticia/manifesto-modernizacao-da-jornada-deve-se-apoiar-em-emprego-formal-produtividade-e-dialogo