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IA na Contabilidade: ferramenta, não solução final

A profissão contábil entrou de vez em um novo regime de trabalho: tecnologia não é mais uma opção, é uma condição para exercer bem a atividade. A contabilidade está cada vez mais integrada a sistemas, plataformas fiscais, ERPs, automação de rotinas, cruzamentos eletrônicos e análises que exigem velocidade e precisão.

Nesse cenário, as Inteligências Artificiais (IA), especialmente os modelos de linguagem, viraram uma ferramenta extremamente útil. O risco começa quando elas passam a ser tratadas como produto finalprodutos finais.

Hoje é comum ver profissionais (e consultorias) pegando conteúdos técnicos, jogando em um modelo de IA e entregando o texto ao cliente sem conferir, sem testar as contas, sem validar a base legal e, muitas vezes, sem entender o que está sendo afirmado. Isso é um atalho que pode custar caro: para o cliente e para o profissional.

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O erro central: achar que IA “pensa”, “calcula” e “verifica”

Muita gente acredita que a IA “raciocina” como um especialista ou que ela “faz as verificações” antes de responder. Na prática, elasela são, em essência, modelos estatísticos: elasela gera texto com base em padrões aprendidos em dados e no contexto do que foi perguntado. Isso significa duas coisas que todo profissional técnico precisa assumir:

A IA pode soar extremamente convincente mesmo quando está errada.A IA não tem obrigação de estar correta sobre legislação, interpretação fiscal, enquadramento, exceções, lacunas normativas ou jurisprudência.

Ela pode misturar fontes, interpretar errado um detalhe, generalizar regra que tem exceção, “fechar” uma lacuna com uma frase bonita e entregar isso como se fosse resposta definitiva. E no mundo tributário-contábil, onde detalhes mudam o resultado, isso é dinamite.

Legislação não é “texto”: é norma + contexto + prova

Quem trabalha com contabilidade e tributos sabe que há temas com regra clara, e há temas que são: interpretativos (dependem de premissas e do caso concreto); incompletos (há lacunas ou ausência de norma específica); controversos (há entendimentos divergentes); sensíveis (um termo mal colocado muda o sentido e o risco).

Quando alguém entrega consultoria “copiada” de IA, sem revisão técnica, está terceirizando a responsabilidade para uma ferramenta que não assina nada, e quem assina embaixo pode se dar mal.

Recentemente, encontrei um texto institucional na internet sobre tributação na locação de imóveis na reforma tributária. Nele tinhahavia um problema de redação, gerando uma interpretação completamente invertida. O problema maior, este texto, claramente gerado em alguma IA, estava no site da própria Receita Federal com o título: Receita Federal alerta: é falso que “todo proprietário que aluga por temporada pagará novo imposto imediato sobre o aluguel em 2026”. O ponto crítico é como uma construção textual pode dar a entender algo do tipo: “quem tem poucos imóveis, mesmo recebendo aluguéis mais altos, não pagará imposto”, enquanto ressalta uma condição: “exceto se: tiver até 3 imóveis e renda anual abaixo de R$ 240 mil”, o que pode soar como se houvesse uma “punição” para quem tem menos imóveis e menor renda, quando a regra é ao contrário: a exceção/isenção é justamente para faixas menores de receita e pra quem tem menos de 3 imóveis alugados, ou seja, um erro de concordância e até a data que eu escrevo este artigo, a matéria continuava do mesmo jeito.

Esse tipo de ambiguidade é exatamente o tipo de coisa que uma IA pode replicar, reforçar ou piorar, entregando uma “explicação” com cara de certeza, mas com sentido distorcido. E se isso aparece até em texto institucional, imagine o risco quando a fonte é uma colagem de internet + interpretação automática.

A regra de ouro: IA é ferramenta. Nunca é entrega final.

Eu atuo como profissional contábil há 23 anos, mas também sou escritor. Para escrever meu livro “Biotecnosfera – Uma experiência de sociedade”, em que o tema automação e o uso de IA são fatores importantes no enredo, eu entrei a fundo no mundo das inteligências artificiais: fiz cursos, li livros, aprendi o básico de programação e entendi algo que deveria ser premissa para qualquer profissional que use essas ferramentas: modelos de linguagem são estatísticos e não deterministas. Portanto, IA ajuda a produzir, mas não substitui o dever de: revisar tecnicamente; refazer contas e simulações; checar a base legal; validar exceções e premissas; alinhar com o caso concreto do cliente.

Na prática, minha recomendação é simples e objetiva: revise três vezes tudo que for feito com auxílio de IA antes de virar orientação ao cliente. Porque o risco real não é “usar IA”. O risco é usar IA como muleta para falta de conhecimento ou preguiça e transformar isso em consultoria.

Um recado aos profissionais: produtividade sem zelo vira passivo.A tecnologia vai continuar acelerando. Quem dominar ferramentas vai entregar mais rápido e melhor. Mas velocidade sem zelo vira passivo profissional: retrabalho, dano ao cliente, exposição ética e risco jurídico.

Inteligência Artificial pode estar no seu processo. Só não pode estar no seu lugar.

Lucas Araújo – Empresário contábil e escritor.



Fonte Oficial: https://www.contabeis.com.br/artigos/75193/ia-na-contabilidade-ferramenta-nao-solucao-final/

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