O debate sobre acesso à educação no Brasil costuma se concentrar em políticas públicas, modelos pedagógicos e expansão da oferta. No entanto, há um elemento estrutural que segue subdimensionado nessa discussão: a forma como o crédito é desenhado, integrado e governado dentro do ecossistema educacional.
Nas últimas décadas, o país avançou em número de matrículas, mas o ensino superior ainda permanece distante para milhões de jovens de baixa renda. Dados do Inep mostram que, apesar do crescimento, a presença desses estudantes segue desproporcionalmente baixa, indicando que a expansão não foi, de fato, inclusiva.
Parte desse paradoxo está na própria estrutura econômica do sistema. Segundo o Censo da Educação Superior, cerca de 79% das matrículas estão concentradas em instituições privadas, o que torna o pagamento de mensalidades um fator decisivo para o acesso à universidade. Em um país de renda média limitada, o crédito deixa de ser um complemento e passa a ser infraestrutura essencial.
Os custos evidenciam esse desafio. Levantamento do Semesp aponta que, no primeiro semestre de 2025, a mensalidade média de cursos presenciais em instituições privadas foi de R$ 1.375, enquanto no EAD ficou em R$ 317. A diferença revela tanto o potencial dos modelos digitais quanto a dificuldade de sustentar o ensino presencial sem mecanismos financeiros mais inteligentes, flexíveis e sustentáveis.
O crédito educacional precisa evoluir como infraestrutura
Historicamente, programas como o Fies tiveram papel relevante ao ampliar o acesso ao ensino superior. No entanto, seus limites tornaram-se evidentes: inadimplência elevada, restrições fiscais e baixa capacidade de adaptação a diferentes perfis de renda comprometem sua sustentabilidade no longo prazo.
Isso mostra que o desafio não está apenas em “oferecer financiamento”, mas em estruturar modelos de crédito integrados à jornada do aluno, com melhor distribuição de risco, previsibilidade e governança. Crédito educacional, nesse contexto, precisa deixar de ser um produto isolado para se tornar parte do fluxo operacional das instituições.
É nesse ponto que a tecnologia assume um papel central. Plataformas digitais permitem reduzir assimetrias de informação, integrar dados acadêmicos e financeiros e tornar as condições de pagamento mais transparentes. Quando o crédito está embutido nos sistemas de gestão, cobrança e relacionamento, cria-se um ambiente mais equilibrado entre estudantes, instituições e agentes financeiros.
A própria expansão do ensino a distância reforça essa lógica. O EAD cresceu não apenas pelo modelo pedagógico, mas porque se apoia em infraestruturas digitais capazes de escalar, reduzir custos e aumentar a previsibilidade financeira. O mesmo princípio deve ser aplicado aos modelos de crédito educacional.
Outro avanço relevante está na digitalização dos processos administrativos e financeiros das instituições. Sistemas integrados de gestão acadêmica, pagamentos e cobrança reduzem falhas operacionais, melhoram o controle da inadimplência e fortalecem a sustentabilidade do ecossistema como um todo.
Ainda assim, crédito e tecnologia não funcionam sem governança. A ausência de um marco regulatório equilibrado pode abrir espaço para práticas predatórias e endividamento excessivo, enquanto regulações rígidas demais sufocam a inovação. O desafio está em construir regras que protejam o estudante sem inviabilizar modelos financeiramente responsáveis.
A integração entre crédito estruturado, tecnologia embutida e regulamentação inteligente representa uma das maiores oportunidades para democratizar o acesso ao ensino superior no Brasil. Quando essa tríade funciona de forma coordenada, a educação deixa de ser um privilégio condicionado à renda e passa a ser uma oportunidade viável, sustentável e escalável.
Fonte Oficial: https://www.contabeis.com.br/artigos/75191/credito-educacional-a-infraestrutura-essencial-para-o-acesso-ao-ensino-superior/