Dias atrás, ao passar de carro numa avenida muito movimentada em São Paulo, testemunhei uma cena que me marcou naquela tarde: um homem agredia outro em plena rua e ninguém intervinha. Eu não consegui parar o carro. Vi que as pessoas seguiam seu caminho como se fosse apenas mais um episódio banal da vida urbana. Essa indiferença é um retrato cruel da nossa sociedade: nos acostumamos a ver a violência como parte do cotidiano.
E quando a violência se torna “normal”, ela deixa de ser combatida. Nesse silêncio é que se alimenta uma das maiores tragédias contemporâneas: o feminicídio. A violência não começa nos números das estatísticas. Ela começa na tolerância diária, na omissão diante de uma briga, no silêncio diante de uma agressão verbal, na indiferença diante de uma mulher que pede ajuda. Cada vez que escolhemos não agir, reforçamos um ciclo que legitima a agressão como algo aceitável.
Nisso também conta a violência silenciosa: aquelas “brincadeirinhas” que diminuem mulheres; comentários que parecem ser inofensivos, mas carregam preconceitos; piadas que reforçam estereótipos. E o mundo corporativo está lotado dessas ações. São mecanismos inconscientes de desvalorização da mulher, preparando terreno para agressões mais graves. Tudo é naturalizado. E o mundo corporativo precisa fazer sua lição de casa.
NÚMEROS
De acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2025 foram registradas 1.470 vítimas de feminicídio. No ano anterior, o país já havia atingido recorde, com 1.458 vítimas. Isso significa que quatro mulheres foram assassinadas por dia por serem mulheres. Em dez anos, 13.488 mulheres morreram. Os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro lideram o triste ranking.
Dados da ONU: “Quase uma em cada três mulheres – cerca de 840 milhões em todo o mundo – já sofreu violência sexual ou por parte de um parceiro íntimo ao longo da vida, um número que praticamente não mudou desde 2000. Somente nos últimos 12 meses, 316 milhões de mulheres – 11% daquelas com 15 anos ou mais – foram vítimas de violência física ou sexual por parte de um parceiro íntimo, ou seja, não estamos diante de um problema isolado!”
O episódio que presenciei é simbólico: a mesma indiferença que faz com que ninguém separe uma briga da rua é a indiferença que permite que mulheres sejam mortas todos os dias sem que a sociedade se mobilize. Não é normal ver uma mulher ser agredida. Não é normal conviver com estatísticas que crescem ano após ano. Não é normal rir de uma “piada” que diminui mulheres.
Na minha visão, quando uma mulher conquista espaço e autonomia, alguns homens interpretam isso como uma “castração” simbólica, uma perda de poder. Assim o feminicídio aparece como uma tentativa desesperada de restaurar o poder fálico pela força, já que no campo simbólico, ele foi abalado.
Acredito que temos a responsabilidade de romper esse ciclo. Precisamos de campanhas de conscientização, educação para crianças desde cedo, protocolos claros de proteção às mulheres. Empresas, sociedade civil e governo devem se unir para transformar indignação em ação. Afinal, não vamos deixar de conquistar espaço e autonomia, pois é direito de todas nós mulheres!
SANDRA TAKATA
Jornalista, presidente do Instituto Mulheres do Varejo, LinkedIn Top Voice, palestrante, coordenadora e coautora do livro Mulheres do Varejo – Mulheres que Constroem a História do Varejo no Brasil.