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ARTIGO, por Marcelo Candido de Melo: “Cuidado com sua ideologia, melhor tratar no divã”

Muita calma nessa hora, vou falar de ideologia, começando com o seu “fundador”: Karl Marx, mas não se precipite, não interrompa a leitura, não desclassifique o autor, siga a sugestão, pode até mesmo considerar uma provocação, mas vivemos num tempo de poucas certezas, todos os tempos são, mas a necessidade da tolerância é dessas únicas.

Sim, estou aproveitando a repercussão da propaganda das Havaianas, a de começar o ano com os dois pés e não com o direito, para reforçar uma fala que acredito ser minha: só a ideologia é mais intensa do que a paixão. E nesse contexto me refiro a ideologia fora do universo acadêmico, intelectual, estou mais no bate-boca de rua mesmo.

Entendo e até apoio as definições de nicho de mercado, é mais factível trabalhar um público focado do que querer vender um exemplar para cada chinês. Pensava isso nos meus tempos de editor, o livro para qualquer um, para os milhões, acabava não sendo o livro de ninguém, era melhor identificar uma pequena comunidade interessada no assunto e era possível vender entre três e cinco mil livros, acredite, números a serem celebrados no mercado brasileiro.

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Mas um comerciante decidir queimar estoque e vender tudo a 1 real, muitas vezes abaixo do preço de custo somente porque não gostou de uma propaganda do produto, me parece um caso grave. Como é grave as reações que a peça publicitária alcançou. No máximo, independente se você começa as coisas com o pé direito ou com o pé esquerdo, era para rir, concordar que começar com força e vontade é sempre um belo começo e boa. Chegamos ao absurdo de classificarem o cineasta do filme cuja atriz é a mesma da propaganda, de esquerdista ou comunista. Olha o que a ideologia ou a paixão faz com uma pessoa: cega!. Eu adorei o filme, adorei o trabalho da atriz e recomendo que se você não assistiu, assista.

Assista também o seguinte, que também fala sobre ditadura e agora tem um ator brasileiro ganhando prêmios e mais uma vez provocando uma celeuma. Não sou ingênuo, o cinema é político, basta olhar para Hollywood. Mas ele também é diverso, talvez nas salas mais independentes. Mas Ainda estou aqui e O agente secreto são dois filmes muito bons que merecem ser vistos e refletidos. Voltando ao início do artigo.

Karl Marx foi o pioneiro da ideologia e a classificava como algo que impunha os interesses de uma classe particular como universais, vou pular Gramsci e recorro a um filósofo mais atual e que adora utilizar cinema em suas produções: Slavoj Zizek, meu teclado não possui o carácter especial para escrever o nome de forma correta. Nascido numa Iugóslávia comunista, se tornou um crítico do socialismo tentado da forma que foi mas segue tentando entender possibilidades para o mundo e seus habitantes.

Além de Marx, resolveu estudar Hegel e Lacan. Se você já tentou ler cada um desses três, aposto que respeita Zizek. Ele costumava dizer que ideologia não é o que não sabemos, mas sim o que fazemos mesmo sabendo. Ou seja, ideologia é você ter um comércio, ter suas convicções, deduzir que não pode confundi-las com seu negócio e ainda assim queimar o seu estoque com prejuízo porque não soube interpretar uma peça publicitária ou a levou mais a sério do que o recomendado.

Zizek é filósofo e também psicanalista, e reconhece a importância de Freud na questão do inconsciente, que no seu livro, Eles não sabem o que fazem, expande de uma maneira fundamental: “O inconsciente não é, em absoluto, o depósito de instintos ilícitos, mas antes, a resultante dos conflitos morais e criativos que se tornam insuportáveis para o indivíduo”.

Sim, o conflito é inevitável, começando de dentro de nós mesmos e somente depois, com os outros, os diferentes do que efetivamente sequer sabemos de fato quem somos. Porque Zizek também coloca, seguindo Lacan, que o real não é a realidade, como também não consegue se representar no simbólico. Na introdução de um pequeno livro sobre o psicanalista francês ele retoma o que Freud chamou de as três “humilhações sucessivas sofridas pelo homem” ou as três “doenças narcísicas”. Copérnico demonstrou que a Terra gira em torno do Sol, ou seja, não estamos no centro do Universo. Darwin demonstrou que a evolução é cega, não temos assim o lugar de honra entre os seres vivos. E ele, Freud, demonstrou o papel predominante do inconsciente, ou seja, não mandamos nem em casa…

Assim, muita calma na hora de agir e tomar decisões no seu negócio e na sua vida pessoal. Siga autônomo nas suas decisões, banque seu desejo, ele segue sendo fundamental, mas não se iluda que é possível escapar da ideologia, como diz Zizek, a fantasia de escapar da ideologia é ideologia. Recomendo apenas que tente expandir seu campo de visão, não cair em qualquer interpretação precipitada, num vídeo recebido. A superficialidade das redes sociais se combate com profundidade de nós mesmos, não precisa ler as referências que coloquei aqui, mas não tome decisões afoitas, não fique apenas na sua bolha.

Cuidado com o cinismo, ele nos faz prosseguir e muitas vezes quebrar a cara. Não estou questionando o trabalho do comerciante que vendeu a 1 real, mas é melhor colocar ele e quem age assim, com as barbas de molho. Pedi até ajuda para a IA para encontrar uma expressão tão forte e equivalente, mas menos masculina. Ela não me trouxe uma que gostasse. Melhor então, ninguém deve meter os pés pelas mãos. Fale o que quiser para o seu psicanalista. De resto, prudência e canja de galinha!

MARCELO CANDIDO DE MELO
Escritor e psicanalista, é graduado e pós-graduado em administração pela EAESP-SP da FGV. Atuou na área de marketing de grandes empresas nacionais e multinacionais antes de empreender no mercado editorial. Sua editora alcançou bastante sucesso e foi adquirida por uma multinacional. Já escreveu 18 livros em seu nome ou como ghost-writer. Dá atenção especial à produção ficcional. Também já fez roteiro de documentário. Nos últimos anos mergulhou numa formação em psicanálise e desenvolve atividade clínica. 

Fonte Oficial: https://agenciadcnews.com.br/artigo-por-marcelo-candido-de-melo-cuidado-com-sua-ideologia-melhor-tratar-no-diva/

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