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ARTIGO, por Marcelo Candido de Melo: “Diagnósticos, atestados e idealizações”

Ainda é tempo de desejar um 2026 interessante e com inúmeros momentos de felicidade! Já tendo passadas as duas primeiras semanas do ano é provável que já percebido que a virada é mais teórica do que prática, os sinais de rotina já estão se instalando, até nos que seguem curtindo as férias. 2026 possivelmente será apenas um ano mais quente do que 2025, porque a questão ambiental ainda não deu sinais de recuo, e sim, será um ano mais quente também nas relações porque as diferenças de preferência precisam ser debatidas e compreendidas dentro de limites humanos e respeitando as diferenças.

Contardo Calligaris foi um psicanalista italiano que fincou raízes no Brasil e dentre vários conceitos interessantes defendia que era muito mais jogo viver uma vida interessante do que ser feliz! Muito antes de mergulhar na psicanálise eu já tinha comprado o conceito e há décadas considero a indústria da felicidade das mais perversas, uma verdadeira moedora de humanos. Não sou contra a felicidade, mas entrar na busca desenfreada por ela é das coisas mais negativas que conheço. O que é uma vida interessante? O bom é que ela se adapta a realidades muito distintas. Taí uma pergunta que vale se fazer a todo ano: o que é uma vida interessante para você?

A felicidade a qualquer preço e como única solução para a vida boa é nada mais do que uma ilusão perversa. A vida tem ciclos, momentos e questões complexas. Dias radiantes e dias menos luminosos, a vida é um ciclo, de nascimento, desenvolvimento, declínio e fim, a morte segue como das maiores e mais possíveis certezas. Teremos momentos tristes? É claro, períodos mais melancólicos ou depressivos dependendo dos desafios e decisões? Também. E não se pode fugir disso. A ilusão da felicidade é logo desmascarada para quem topa olhar no espelho e reagir sinceramente às demandas, e aí, o que fazer? Não se deve sofrer da ansiedade da resolução rápida ou de acreditar que a vida mostrada pelos outros nas redes sociais é verdade, ou mesmo sabendo que não é verdade, deixar se impactar.

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E nesse contexto entra outro ponto fundamental da sociedade que vivemos. Talvez alguém com mais condições do que eu possa classificar esses nossos tempos de a Era dos Excessos de Diagnósticos! É claro que se a ciência foi capaz de desenvolver substâncias que dão conta de dores, sofrimentos e doenças, devemos usá-los, mas não é possível que alguém não acenda o alerta e dê um basta. Há não apenas um excesso, como também alguma leviandade nos diagnósticos.

O início da psicanálise tem algumas contribuições a dar a esse momento. As tais histéricas do Freud como ficaram conhecidas as mulheres que ele atendia no final do século 19, início do 20 o fizeram chegar a uma constatação de que não era possível que os pais, digamos aqui num ambiente neutro, tivessem tantas atitudes “abusadoras” com suas filhas, aquilo ele descobriu, estava mais para fantasias que as crianças tinham e daí veio toda uma teoria que ainda assusta algumas pessoas. Dias desses ouvi que um rapaz bem formado no Brasil e com mestrado em Milão não gostava de Freud porque esse teria colocado a sexualidade na vida das crianças pequenas, uma espécie de plantando o mal. Quem consegue estudar no exterior tem acesso a muita coisa, e não deveria estar refém de um pensamento rasteiro e preconceituoso. Freud constatou que as crianças estão inseridas desde o início em relações normais e de afeto com seus pais.

O paralelo que quero traçar é que talvez não sejam todas as crianças diagnosticadas com doenças que eram muito menos lembradas há poucos anos que as tenham. Que existe sim uma indústria de diagnósticos, no mínimo apressados, e quando não facilmente identificáveis como equivocados. Que responde a desequilíbrios e desestruturas na formação dos profissionais ou na disputa de interesses com as indústrias fornecedoras de soluções.

A psicanálise segue defendendo uma escuta particular e profunda, uma busca da singularidade e não no encaixe fácil em padrões nem sempre condizentes com a espécie humana e sua mutualidade. A psicanálise segue firme na crença de que ouvir o inconsciente de alguém é fundamental e que quem tem a oportunidade de identificar seus desejos e suas motivações é capaz de ajustar as expectativas em relação a vida. Se existisse solução mágica e administrada sem efeitos colaterais algumas vezes ao dia, eu não estaria aqui escrevendo, psicanalistas não seguiriam na busca das questões inconscientes e atentos ao singular. Não somos máquinas e, por mais que possamos ser olhados como grupos com alguma semelhança, somos em última instância singulares e aí está o lado bom da vida.

Diagnósticos, atestados e afastamentos e inúmeras atividades tentando transformar algo particular e pessoal em coletivo e automático. Não só a indústria de medicamentos e diagnósticos agradecem, a de cursos, livros e promessas também. Defendo uma única espécie de autoajuda, você se preparar para olhar para dentro com toda coragem, carinho e atenção. Deixe de lado qualquer idealização, tenha vindo de você mesmo, de alguém da sua família ou de alguém da sua empresa. Sim, é possível mudar, mas a partir de quem somos. Que você termine esse 2026 que se inicia conhecendo bem mais de você mesmo, já é uma baita meta!

MARCELO CANDIDO DE MELO
Escritor e psicanalista, é graduado e pós-graduado em administração pela EAESP-SP da FGV. Atuou na área de marketing de grandes empresas nacionais e multinacionais antes de empreender no mercado editorial. Sua editora alcançou bastante sucesso e foi adquirida por uma multinacional. Já escreveu 18 livros em seu nome ou como ghost-writer. Dá atenção especial à produção ficcional. Também já fez roteiro de documentário. Nos últimos anos mergulhou numa formação em psicanálise e desenvolve atividade clínica. 

Fonte Oficial: https://agenciadcnews.com.br/artigo-por-marcelo-candido-de-melo-diagnosticos-atestados-e-idealizacoes/

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