O mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&As) entra em 2026 em um cenário de reacomodação, com decisões mais técnicas e maior foco em sinergias e capacidade de integração, influenciado pelo custo de capital, pela transição da reforma tributária e pelo avanço da inteligência artificial.
Essa é a avaliação de Alessio Mainardi, CEO da Zucchetti Brasil, executivo com quase 30 anos de experiência no setor de tecnologia e em operações de fusões e aquisições no país nos últimos anos. Segundo ele, a diferença entre investidores financeiros — mais sensíveis aos juros e às janelas de liquidez — e compradores estratégicos, com visão de longo prazo, tende a ficar ainda mais evidente e a moldar o ritmo e a precificação das transações ao longo de 2026.
Após ciclos impulsionados por juros baixos e pela aceleração digital, o mercado passa a operar em um ambiente mais racional. A expectativa é de um setor menos orientado pela abundância de liquidez e mais guiado por fundamentos econômicos, com maior seletividade nos processos e ajustes nos múltiplos de valuation. Nesse contexto, a distinção entre os diferentes perfis de compradores se torna um dos principais vetores de influência sobre o volume e a velocidade das negociações.
“Fundos e investidores financeiros tendem a reagir de forma imediata ao custo do capital, revisando preços e apetite ao risco conforme o cenário macroeconômico muda. Já os compradores estratégicos mantêm uma lógica mais estável, avaliando como cada aquisição contribui para a construção de portfólio, sinergias e posicionamento de longo prazo”, afirma Mainardi.
Nos últimos anos, as oscilações do custo do dinheiro tornaram essas dinâmicas ainda mais evidentes. Em períodos de juros baixos, os múltiplos de valuation avançaram de forma acelerada, especialmente em setores ligados à tecnologia. Já em um cenário de CDI elevado, compradores financeiros passaram a adotar posturas mais conservadoras, reduzindo o apetite ao risco e revisando expectativas — movimento que, em muitos casos, gerou desalinhamento entre o que vendedores esperavam e o que o mercado estava disposto a pagar.
Entre os setores que devem concentrar parte relevante das transações em 2026, o mercado de software se destaca pelo avanço dos movimentos de consolidação. Em algumas verticais, aquisições recentes intensificaram a competição e elevaram a pressão sobre empresas de médio porte, que passaram a reavaliar sua capacidade de escala e diferenciação frente a players mais capitalizados. Em outros nichos, a transformação acelerada dos modelos de negócio e a entrada de plataformas globais também contribuem para a reorganização do setor.
“Em muitos segmentos, o M&A deixa de ser apenas uma estratégia de crescimento e passa a ser também uma ferramenta de sobrevivência. Empresas que não conseguem acompanhar o ritmo de investimento, inovação ou escala acabam buscando combinações que fortaleçam sua posição competitiva”, diz o CEO.
A inteligência artificial deve seguir como um dos principais vetores de interesse nas operações, ainda que o mercado esteja em uma fase mais madura e menos orientada pelo discurso. Poucas empresas no mundo concentram tecnologias capazes de competir na camada de modelos fundacionais, enquanto a maior parte das organizações atua no desenvolvimento de aplicações. Nesse cenário, soluções que conseguem traduzir IA em produtos escaláveis e aplicáveis a problemas reais tendem a ganhar protagonismo nas estratégias de aquisição.
“A expectativa não está em funcionalidades pontuais, mas em soluções que usem inteligência artificial para resolver problemas concretos de negócio. Quem conseguir fazer essa tradução terá mais chances de atrair capital e se tornar parte relevante dos processos de consolidação”, afirma Mainardi.
Efeito indireto da Reforma Tributária nos M&As
Outro elemento com influência no ritmo das transações em 2026 é o efeito indireto da reforma tributária sobre o setor de tecnologia. A transição para o novo modelo fiscal tende a aumentar a complexidade operacional, especialmente para empresas de software de menor porte, que já operam com estruturas mais enxutas e margens pressionadas. Para muitas delas, acompanhar as mudanças regulatórias exigirá investimentos adicionais em sistemas, processos e compliance.
“Esse novo ambiente pode ampliar a distância entre empresas menores e grupos mais estruturados. Em alguns casos, o M&A surge não apenas como uma estratégia de expansão, mas como uma saída natural para companhias que não desejam ou não conseguem absorver esse nível de transformação”, avalia Mainardi.
Diante desse conjunto de fatores — custo de capital, consolidação setorial, avanço da inteligência artificial e reorganização regulatória — o mercado brasileiro de M&As deve combinar prudência e oportunidade em 2026. A volatilidade dos investidores financeiros continuará sendo um termômetro relevante, especialmente para empresas intensivas em capital ou com expectativas de valuation ancoradas em ciclos passados. Ao mesmo tempo, a maior previsibilidade macroeconômica e a maturidade do ecossistema de tecnologia tendem a favorecer movimentos mais racionais, nos quais sinergia, capacidade de integração e geração real de valor ganham peso.
“Mais do que reagir a oscilações de curto prazo, o sucesso das operações em 2026 estará ligado à capacidade dos players de interpretar corretamente o cenário e agir com consistência. Em mercados complexos como o brasileiro, essa leitura estratégica é tão valiosa quanto o próprio capital”, conclui o CEO da Zucchetti Brasil.
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Fonte Oficial: https://startupi.com.br/mas-no-brasil-3-fatores-que-devem-moldar-o-mercado-em-2026/