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ARTIGO, por Rafael Cortez: “Lógica imperialista de Trump é a principal ameaça em 2026”

Escrevo esse texto logo após o anúncio do desenho da estrutura do acordo entre EUA e Otan envolvendo o status da Groelândia, objeto de desejo do presidente norte-americano sob o argumento de segurança nacional. É provável que o acordo gere um alívio nos agentes econômicos e, eventualmente, uma leitura de que a cena internacional estaria minimamente controlada. Minha impressão caminha na direção oposta.

Mais do que as incertezas domésticas, são os eventos internacionais, as principais fontes de risco para o ano de 2026, mesmo com a disputa presidencial batendo na porta. É verdade que uma parte das incertezas são originadas pela estratégia de usar pressões tarifárias e constrangimentos aos líderes dos demais países como ferramenta para “fechar acordos”, algo que parece massagear o ego de Trump.

De todo modo, independente do conteúdo do governo “MAGA”, se trata de um mandato centralizador que corrói os mecanismos de freios e contrapesos do sistema político norte-americano. O governo Trump é um governo que busca romper os paradigmas que organizaram a ordem internacional no pós-guerra. A taxa de sucesso do líder norte-americano em reconstruir os pilares da pax americana condiciona o ambiente internacional, impactando a precificação dos ativos financeiros ao redor do mundo. Economia internacional sob risco é sinônimo de dificuldades para os países emergentes.

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As evidências para o caso brasileiro são claras: uma parte do crescimento da atividade econômica é condicionada diretamente pelos preços dos ativos internacionais, com destaque para as commodities. O documento de segurança estratégica apresentado por Trump com suas prioridades e objetivos para a política externa fornece algumas pistas para precificar a magnitude do risco gerado para a ordem internacional.

O primeiro ponto é que a visão de Trump conecta a arena externa ao cenário doméstico. A inserção junto à comunidade internacional precisar ser desenhada para evitar o declínio econômico norte-americanos vis a vis a emergência chinesa. A história é mais ou menos assim: o consenso entre a elite política americana era de que a aproximação com a China traria tanto o benefício econômico (abertura de novos mercados) quanto o benefício estratégico (isolamento com a ex-União Soviética em um contexto de Guerra Fria.

O “globalismo” trouxe efeitos diversos na visão do governo republicano. A China cresceu roubando empregos norte-americanos e serve como ameaça a hegemonia americana, seja no campo econômico, seja no campo dos valores. Além disso, Trump tem a visão de que os EUA pagam o preço por conflitos que não cabem na alcunha do “interesse nacional”, ou seja, sugere um olhar mais isolacionista para os EUA.

Esse olhar parece ser a construção de uma área hegemônica no que Trump chama de “Ocidente”, revisitando a chamada Doutrina Monroe, mas com um toque de modernidade ao adotar uma prática contrária aos movimentos de imigração, vistos como corruptores dos valores civilizatórios. A deposição do governo Maduro seria mais uma manifestação de alinhamento forçado aos interesses dos EUA.

Algum leitor mais atendo poderia provocar o colunista: “mas não foi a construção de um bloco de influência americana contra a rivalidade soviética que está por trás da ordem do pós-guerra criada pelos próprios americanos?

Trump parece ter trocado a promoção de estabilidade política e crescimento econômico que sustentaram a reconstrução europeia no pós-guerra pela leitura de que os EUA exercem hegemonia e os demais países deveriam adotar uma postura subserviente. O que no passado foi pensado como estratégia para reforçar os interesses dos EUA, agora é visto como dívida por parte do republicano.

Assim, Trump faz sua política externa para constranger aliados históricos (visto como devedores), especialmente a Europa. De um lado, Trump usa a Rússia (e China) como pretexto para seu desejo pela Groelândia, mas faz política amigável com os russos no conflito contra a Ucrânia. Aliás, o acordo de paz no Leste Europeu é cada vez menos provável. Os russos até elogiaram Trump pela lógica territorialista, como se justificasse a anexação da Criméia e outras partes do território ucraniano.

Assim, Trump ameaça quebrar os pilares de uma ordem internacional. Essa confiança está quebrada, independente dos efeitos mais de curto prazo da Groelândia. A volatilidade dos mercados internacionais a partir do risco geopolítico é a principal ameaça para 2026.

RAFAEL CORTEZ
Doutor em Ciência Política (USP), professor do IDP-SP e sócio da Tendências Consultoria.

Fonte Oficial: https://agenciadcnews.com.br/artigo-por-rafael-cortez-logica-imperialista-de-trump-e-a-principal-ameaca-em-2026/

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