A partir de 5 de janeiro, com a entrada em vigor das novas regras estabelecidas pela Reforma Tributária, diversas empresas poderão enfrentar o risco de ter suas operações impactadas ou sérios obstáculos em áreas essenciais, dados os desafios enfrentados com a busca por atender à rápida adequação tecnológica e operacional exigida pela implementação das exigências da Lei Complementar 214/2025, que introduz os impostos CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e IBS (Imposto sobre Bens e Serviços).
Com o Dia D da reforma se aproximando rapidamente, temos observado que muitas organizações – especialmente pequenas e médias, com estruturas contábeis menos robustas – ainda não se adequaram às novas especificações técnicas e operacionais, criando um cenário de atenção máxima.
A situação chegou em tal ponto de atenção que, no início de dezembro, a Receita Federal anunciou a flexibilização de algumas regras previstas, em especial relacionadas à emissão de notas fiscais, sob o risco de algumas empresas nem conseguirem faturar no início de 2026.
À medida que janeiro avança, crescerá o desafio para que essas empresas revisem processos, sistemas e integrações, garantindo conformidade com uma legislação que transforma profundamente o funcionamento da operação fiscal no país.
Esse diagnóstico é corroborado pela Pesquisa Tax do Amanhã, da Deloitte, realizada neste ano com apoio institucional da Thomson Reuters, que mostrou o tamanho do desafio que recai sobre as empresas em termos de automação, tecnologia e atualização de sistemas diante da reforma tributária. Segundo o estudo, 33% das empresas ainda não realizaram qualquer estudo estruturado sobre os impactos da mudança, o que significava que um terço do mercado corre o risco de iniciar 2026 sem a devida adaptação. Não por acaso, 85% dos respondentes afirmaram que devem buscar apoio de especialistas para conduzir a transição.
Apesar de alguma evolução, esse é um cenário que segue desafiador e o momento exige agilidade. Embora nove em cada dez empresas já tenham automatizado ao menos uma operação fiscal ou tributária, segundo a pesquisa, a automação ainda se concentra em atividades repetitivas e de alto volume, que muitas vezes nem têm relação com as áreas mais sensíveis à mudança regulatória. Ainda de acordo com a pesquisa, operações como emissão de notas fiscais (61%), lançamentos de entradas (51%), cálculo de impostos (45%) e apuração de tributos (43%) já são parcialmente automatizadas, mas isso não garante conformidade imediata ao novo modelo.
Outro ponto crítico é financeiro: a maioria dos participantes da pesquisa indicou que o custo de implementação de novas tecnologias é decisivo para avançar em inovação fiscal, o que ajuda a explicar por que tecnologias maduras e amplamente acessíveis ainda não estão difundidas. A Inteligência Artificial (IA) ainda é utilizada por apenas 14% das empresas na área tributária, em sua maior parte para automatizar processos (60%). Somente 30% dos respondentes da pesquisa disseram usar IA para monitorar mudanças legislativas, uma necessidade crítica frente ao novo cenário.
A adoção de cloud computing também cresce (52% das empresas já migraram algo para a nuvem, 63% delas preferindo nuvens privadas), reforçando a tendência de descentralização e flexibilidade dos ambientes fiscais. Ainda assim, a transformação tributária exigirá muito mais. Segundo o estudo, 66% das empresas apontam a convivência com dois sistemas tributários até 2032 como o desafio mais complexo do período. Não se trata apenas de ajustar códigos em um ERP; é necessário conviver com dois modelos simultaneamente por quase uma década, o que aumenta a urgência por soluções mais inteligentes e automatizadas.
Nesse contexto, ganha força a necessidade de priorizar investimentos que permitam uma transição fluida não só para o momento imediato, mas para a trajetória regulatória dos próximos anos. Aplicações tecnológicas voltadas para atividades analíticas e complexas – como cálculo de tributos e apurações completas – despontam como tendência natural e inevitável. A reforma não cria apenas regras fiscais, mas também exige uma nova infraestrutura tributária, mais integrada, escalável e orientada a dados.
Nossa experiência prática mostra que, para enfrentar essa transformação, a integração entre tecnologia e conhecimento tributário será decisiva. É o caso de soluções que combinam componentes avançados de sistemas como ETP-SAP, aliados ao conhecimento especializado em tributos e regras contábeis. No curto prazo, os maiores desafios devem recair na adequação dos sistemas fiscais, ERPs SAP e sistemas satélites, especialmente na correta parametrização dos novos tributos CBS e IBS.
É inegável que a Reforma Tributária representa um marco histórico para a legislação contábil do país, e como todo momento de inflexão, traz junto um período de adaptação intenso. O risco de paralisação ou inconsistência fiscal existe, mas pode ser mitigado ou até evitado com planejamento, tecnologia, integração e gestão.
Diante do cenário de mudanças profundas imposto pela Reforma Tributária, é fundamental que as empresas adotem uma postura proativa e estratégica para garantir sua competitividade. As organizações que se anteciparem aos desafios, promovendo uma transformação digital alinhada às novas exigências legais, estarão mais aptas a navegar por esse período de transição com segurança, eficiência e resiliência. O caminho é árduo, mas a adaptação rápida e inteligente será o diferencial para prosperar em um ambiente tributário renovado e cada vez mais dinâmico.
*João Henrique Fontenelle de Araújo é sócio da Consultoria da Deloitte.
Fonte Oficial: https://www.contabeis.com.br/artigos/74463/reforma-tributaria-empresas-em-risco-de-paralisacao-em-2026/