Uma sufocante onda de calor se abateu sobre São Paulo e desvelou uma enorme mazela social. Enquanto o asfalto derretia e o ar pesado tornava a respiração um esforço, uma realidade brutal se revelava nos termômetros da cidade: o calor, como tantas outras mazelas, não é democrático.
A temperatura que você sente ao sair de casa em nossa metrópole é, cada vez mais, um reflexo direto do seu CEP e, por consequência, da sua renda.
Estamos vivendo a era da desigualdade climática!
Para entender essa injustiça, basta comparar duas realidades paulistanas. Em bairros nobres e arborizados como Pinheiros, a cobertura vegetal funciona como um ar-condicionado natural. Um estudo do Instituto Pólis aponta que distritos como Pinheiros e Moema possuem mais de 12 metros quadrados de área verde por habitante. Durante os picos de calor, seus moradores encontraram refúgio sob árvores frondosas, em parques bem cuidados, com temperaturas mais amenas.
Agora, vamos imaginar uma outra realidade? Para Heliópolis, uma das maiores comunidades de São Paulo, a realidade é outra. A imensa densidade populacional, a escassez de parques e a onipresença de cimento e asfalto – que absorvem e irradiam o calor – criam as chamadas ilhas de calor.
A diferença não é pequena!
Medições da ONG MapBiomas e de outras iniciativas de monitoramento climático cidadão atestam que, em dias extremos, a sensação térmica em áreas como Heliópolis pode ser até 10 graus Celsius mais alta que a registrada em Pinheiros.
Essa diferença abissal não é um capricho da natureza. É o resultado de um desenvolvimento urbano historicamente excludente, que concentrou investimentos, infraestrutura verde e qualidade de vida em poucas mãos e poucos bairros, enquanto empurrava a maioria da população para áreas desprovidas de planejamento e dos serviços mais básicos.
O calor extremo em áreas vulneráveis não é apenas desconfortável; ele agrava problemas de saúde, como doenças respiratórias e cardiovasculares, diminui a produtividade no trabalho e na escola e representa um peso econômico para famílias que, sem poder contar com a sombra de uma árvore, se veem obrigadas a consumir mais energia elétrica e água – quando podem pagar por ela.
A pergunta que se impõe é: como quebrar esse ciclo? A resposta tradicional se limitaria a pedir mais investimentos públicos, um caminho necessário, mas frequentemente lento e sujeito às amarras fiscais.
Proponho aqui um caminho que une justiça climática à dignidade econômica: a solução para o calor da periferia passa, fundamentalmente, pelo incentivo ao trabalho e ao empreendedorismo local.
Pode parecer contraintuitivo, mas a lógica é direta. Uma comunidade economicamente forte é uma comunidade com poder de transformação. Quando fomentamos um ambiente de negócios saudável, estamos plantando as sementes da qualificação urbana.
A burocracia excessiva, a complexidade tributária e a falta de acesso a crédito não sufocam apenas o pequeno comerciante ou o prestador de serviços; sufocam a capacidade de uma comunidade inteira de gerar a riqueza que, em parte, poderia e deveria ser reinvestida em seu próprio entorno.
Imagine o potencial de cada novo negócio formalizado em Heliópolis, Cidade Tiradentes ou Brasilândia, entre tantas outras… A riqueza gerada pela padaria da esquina, pela oficina mecânica, pela startup de tecnologia social, seria o motor para a construção de parques, a arborização de calçadas, a criação de telhados verdes e outras soluções baseadas na natureza.
Facilitar a vida de quem empreende na periferia não é um favor, é o caminho mais curto para que o asfalto quente dê lugar à sombra de uma árvore. Desburocratizar, simplificar e racionalizar o sistema tributário não são apenas pautas econômicas abstratas; são as ferramentas mais eficazes que temos para combater a desigualdade climática na prática.
Ao empoderar os cidadãos com a capacidade de gerar renda, estamos lhes dando também as ferramentas para redesenhar sua própria realidade urbanística.
A luta por um clima mais justo em São Paulo não será vencida apenas com discursos ou planos diretores que demoram a sair do papel. Ela será vencida com ação concreta, que reconhece que a vitalidade econômica e a sustentabilidade ambiental não são opostas, mas sim interdependentes.
É pela geração de trabalho e pela força do empreendedorismo que as comunidades mais afetadas pelo calor poderão, finalmente, construir um futuro mais fresco e digno.
Um futuro onde o direito a uma brisa não seja um luxo, mas um direito de todos. É hora de manter a esperança acesa, usando-a para iluminar um caminho onde a prosperidade floresce com as árvores.
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def
Fonte Oficial: https://agenciadcnews.com.br/artigo-por-andre-naves-o-termometro-da-desigualdade/