Muitos são os assuntos polêmicos envolvendo a educação básica e superior de hoje: desenvolvimento de habilidades técnicas e, principalmente, socioemocionais; enfrentamento dos transtornos mentais, altamente incidentes em crianças e jovens; combate ao bullying nas escolas e universidades; formação de mão de obra que seja produtiva, mas também atenta aos valores perseguidos pela sociedade de um mundo globalizado (hoje, essa preocupação se traduz na sigla, em inglês, ESG, que significa, em português, Meio Ambiente, Social e Governança); uso de telas nas escolas; inclusão digital etc.
O Brasil, portanto, tendo quase 50 milhões de alunos na educação básica e mais 9,9 milhões na educação superior, não pode ficar distante da discussão de todos esses temas, e precisamos nos indagar se nossa educação está realmente sintonizada com os desafios de nosso tempo. Primeiro, sobre a questão das habilidades socioemocionais: defendo com veemência a tese de que a revolução digital (agora, potencializada pela popularização das ferramentas de inteligência artificial) vai ser vital para muitos professores que ainda se baseiam em uma formação eminentemente técnica, conteudista, pautada na famosa “decoreba”, exigindo que seus alunos sejam reflexo da enciclopédia.
Esse modelo de educação revela-se altamente ultrapassado e acaba por asfixiar o desenvolvimento intelectual de um jovem do século 21. Hoje, qualquer criança da chamada geração Z consegue obter informações na internet, com enorme velocidade e assertividade. Essa criança, por óbvio, terá rápida percepção da inutilidade de um professor que insistir em usar de seu tempo para aplicar o modelo conteudista, da clássica decoreba. Portanto, é fundamental que os professores compreendam que serão muito mais úteis aos alunos se conseguirem transmitir ensinamentos de caráter humano, comportamental, afetivo, pautados nas habilidades socioemocionais. É realmente desafiador, pois essa abordagem exige vivência e inspiração por parte dos mestres, predicados humanos difíceis de serem adquiridos, mas necessários.
Ao mesmo tempo, é importantíssimo que os professores de hoje tenham a seguinte sensibilidade: o uso desenfreado de telas, conforme muitas pesquisas apontam, acaba por gerar seres humanos com severos transtornos mentais (depressão, TDAH e ansiedade, por exemplo), mas, ao mesmo tempo, a tecnologia deve estar presente nas escolas e universidades, já que a realidade da vida de hoje é phygital (a intersecção entre o mundo físico e digital). A aula, para ser atrativa e guardar conexão com a vida real, precisa, portanto, adotar as ferramentas tecnológicas com finalidade pedagógica. Mais do que isso: o professor deve ser sábio suficiente para evidenciar a seus alunos os benefícios e malefícios da tecnologia, sempre na busca de uma vida saudável. Esse equilíbrio também é um desafio!
Por fim, mas não menos importante, a educação de hoje, desde o ensino infantil, deve estar atenta aos valores de uma sociedade globalizada. As nações e os mercados estão cada vez mais preocupados com a preservação do meio ambiente, a justiça social e a governança nas esferas pública e privada. Esses valores não são propriedade (ou, ao menos, não deveriam ser) da corrente de uma política ideológica “x” ou “y”, mas sim de uma agenda global. Sem ela, o mundo corre enorme perigo. Os professores de hoje, portanto, precisam dominar esses conteúdos e saber transmiti-los, criando senso de responsabilidade nos alunos quanto à temas de impacto coletivo. O aluno precisa se sentir parte de um “todo”, e estar ciente de seu dever enquanto ser humano que habita um planeta em flagrante emergência climática, ainda marcado por enormes desigualdades sociais e com instituições públicas e privadas carentes de regras e princípios capazes de norteá-las para uma gestão eficiente, atendendo às necessidades da sociedade.
Esses são alguns dos desafios da educação do século 21. Como educador, sinto que o Brasil caminha com fragilidade nesse terreno, e o atingimento de resultados exitosos depende da criação de uma política pública de longo prazo (isto é, um programa perene, acima do caráter passageiro de cada governo eleito). Esse deve ser o compromisso primeiro do Estado e da sociedade: educação em primeiro lugar e pensada a longo prazo!
WILSON VICTORIO RODRIGUES
Diretor-geral da Faculdade do Comércio de São Paulo (FAC-SP), vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), conselheiro do Conselho Estadual de Educação de SP e coordenador do Fórum de Jovens Empreendedores da ACSP.
Fonte Oficial: https://agenciadcnews.com.br/artigo-por-wilson-victorio-rodrigues-quais-os-grandes-desafios-da-educacao-de-hoje/